A relação entre literatura e história se dá por uma via dupla que faz com que a literatura recorra à história e a história recorra à literatura para que se afirmem como discurso. Desse modo, as duas são formas de representação da realidade: a história, um tipo de representação que se quer (notadamente a partir do século 21) científica, baseada em dados/evidências que tentariam expressar uma “verdade” — a verdade do fato passado; a literatura, um tipo de representação mais livre, trazendo o real e as possibilidades deste. Pode-se dizer, por um lado, que a literatura que imita o real torna-se um discurso que requer uma “imaginação objetiva”, uma imaginação que não pode ser amplamente livre porque o ficcionista se sujeita àquilo que Paul Ricoeur chama de “coerção do verossímil” (que obedece a uma lógica parecida com a da “coerção da prova documentária”, da qual o historiador se utiliza). A história, por outro lado, não representa a realidade sem também recorrer (o historiador) à intuição/imaginação, especialmente onde o documento falha, e ainda sem deixar de fazer do seu narrador alguém que, não raro, quebra as regras do jogo da objetividade e se deixa manifestar sentimental e/ou ideologicamente.