A poeta, ensaísta e tradutora canadense Anne Carson, de 76 anos, é a vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2026. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (8), em Estocolmo, pela Academia Sueca, que destacou a originalidade de sua produção literária.
Segundo a justificativa da Academia, Carson recebe o prêmio “por sua obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”. A escritora receberá 12 milhões de coroas suecas, aproximadamente R$ 6 milhões.
Nascida em Toronto, em 1950, Carson é especialista em língua e literatura gregas e doutora pela Universidade de Toronto. Lecionou em instituições como McGill, Michigan e Princeton. Sua escrita transita entre poesia, prosa, ensaio e teatro, recuperando personagens e episódios da mitologia para abordar temas como o desejo, o amor, a perda e a memória.
Entre seus trabalhos mais conhecidos está Autobiografia do vermelho (1998), romance em versos que reelabora o mito de Gerião, personagem da mitologia grega morto por Héracles. Na versão de Carson, Gerião é um jovem sensível que vive uma relação amorosa com Héracles. O livro tornou-se uma das principais referências de sua produção, marcada pela combinação de procedimentos narrativos e poéticos.
Outro título importante é A beleza do marido (2001), obra estruturada em 29 tangos, na qual a autora aborda o casamento, a infidelidade e o fim de uma relação. O livro recebeu o T. S. Eliot Prize, em 2002, fazendo de Carson a primeira mulher a conquistar a premiação.
Sua bibliografia inclui ainda Eros, o doce-amargo (1986), ensaio sobre a concepção do desejo na literatura grega; Nox (2010), trabalho que reúne poesia, documentos e lembranças relacionadas à morte de seu irmão; Antigonick (2012), releitura da tragédia Antígona, de Sófocles; e Wrong Norma (2024), coletânea de textos que desafiam as classificações tradicionais dos gêneros literários.
À agência Associated Press, o presidente do Comitê Nobel de Literatura, Anders Olsson, destacou o encontro entre o rigor filológico e a criatividade poética na escrita de Carson. A autora estava na Islândia quando recebeu a notícia e demonstrou surpresa com a premiação.
Livros publicados no Brasil
Embora reconhecida internacionalmente há décadas, Anne Carson começou a ser publicada no Brasil em 2017, com O método Albertine, lançado pelas Edições Jabuticaba, em tradução de Vilma Arêas e Fernando Guimarães. O livro reúne reflexões sobre a personagem Albertine, de Marcel Proust, aproximando crítica literária e experimentação poética.
Em 2021, a Editora 34 publicou Autobiografia do vermelho, traduzido por Ismar Tirelli Neto. No ano seguinte, chegaram às livrarias Falas curtas, pela Relicário, em tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman, e Eros, o doce-amargo, pela Bazar do Tempo, traduzido por Julia Raiz.
Em 2023, a Editora 34 lançou Sobre aquilo em que eu mais penso, coletânea de ensaios organizada por Sofia Nestrovski e Danilo Hora, com tradução de Nestrovski. No ano seguinte, a Bazar do Tempo publicou A beleza do marido, traduzido por Emanuela Siqueira e Julia Raiz.
Entre os lançamentos mais recentes estão Vidro, ironia e deus, publicado pela Relicário, com tradução de Adriana Lisboa, e Antigonick, lançado em 2026 pela Bazar do Tempo, com tradução de Julia Raiz.
Reconhecimento da crítica
A obra de Carson despertou o interesse de críticos como Susan Sontag, George Steiner, Northrop Frye e Harold Bloom.
Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, em março de 2017, Jorge Henrique Bastos recuperou uma declaração de Bloom sobre a autora. O crítico norte-americano manifestou pesar diante da possibilidade de não acompanhar a totalidade de sua produção literária. Para Bastos, Carson se distingue pela capacidade de transitar entre mundos e línguas, combinando referências clássicas e formas contemporâneas de expressão.
No Brasil, sua obra também tem recebido atenção crítica. Em maio de 2026, o poeta e ensaísta Rafael Zacca publicou no Rascunho uma análise de Vidro, ironia e deus, intitulada A leitora como escritora.
No texto, Zacca observa que Carson deve ser compreendida não apenas como poeta, mas também como pensadora, cuja produção dissolve as fronteiras entre criação literária e investigação intelectual. “A fronteira entre essas categorias se dissolve nas mãos de Anne Carson”, escreveu o crítico, ao comentar a dificuldade de classificar seus textos como poemas, ensaios ou narrativas.
O reconhecimento internacional da escritora inclui o Lannan Literary Award, o Griffin Poetry Prize, o Prêmio Princesa das Astúrias de Letras, recebido em 2020, e o Prêmio Internacional de Literatura Zbigniew Herbert, concedido em 2025. Carson também recebeu bolsas das fundações Guggenheim e MacArthur.
Com o Nobel de 2026, Carson sucede o húngaro László Krasznahorkai, premiado em 2025, e torna-se a 19ª mulher a receber a distinção, concedida desde 1901.