E, finalmente, aconteceu.
Uma pessoa que ainda nĂŁo tinha me visto magr… err, nĂŁo, pera. Uma pessoa que ainda nĂŁo tinha me visto fora da faixa da obesidade simplesmente nĂŁo me reconheceu.
Fiquei com um misto de sentimentos mas, de uma forma geral, a balança foi positiva.
Não me dei o trabalho de falar meu nome. Gostei do anonimato. Uma vibe meio identidade secreta do super-herói. Alguém aà falou Arlequina? É, ok, talvez, quem estou querendo enganar?
A bem da verdade, não foram apenas os quilos a menos. Foram também o batom a mais, os óculos a menos, o vestido inusitado, as botas, os anéis, os brincos, o colar, a meia-calça e o cabelo mais curto. Até pouco tempo atrás eu me vestia como uma caricatura de uma caminhoneira. Como se não bastasse, troquei também de companheiro desde a última vez que meu interlocutor me viu, uns bons anos atrás. A pobre alma não tinha chances.
Os óculos voltarão, assim que a ótica terminar o serviço. E, com ele, o mundo em foco. Me questiono se perceber o mundo, esse nosso mundinho aqui, é algo mesmo desejável. Nina acha que é, porque eu tropeço nela toda hora. Na dúvida, a gente escuta o cachorro, sempre.
O restante veio para ficar. Agora eu sou a louca do batom. De aniversário, meu pai me deu batons de todas as cores disponĂveis da marca que eu gosto, daquelas que nĂŁo saem, que resistem ao apocalipse. Eu gosto desse porque a boca nĂŁo fica parecendo um papel pega-mosca. Troco de cor duas vezes enquanto me arrumo sĂł porque sim, porque posso. Estou rica, ostentando.
Nina nĂŁo dá a mĂnima para batons.
Na volta para casa, namorado toca violão. Rapidamente somem as botas, os anéis, os brincos, o colar, a meia-calça e o vestido. O cabelo bagunça.
Tem uma coisa em homem que toca um instrumento e canta as músicas que você gosta, que assim, sei lá, gente.
Ando convencida de que pelo menos metade dos mĂşsicos escolheu essa profissĂŁo quando descobriu que Ă© afrodisĂaca. A outra metade, sendo otimista, realmente por amor Ă mĂşsica.
O batom permanece intacto, impávido, imóvel.
Namorado tambĂ©m nĂŁo dá a mĂnima para batons mas sugere, brincando, que eu comece um canal no Youtube no assunto. NĂŁo preciso de mais um projeto na vida, mas considerei a ideia na cabeça por alguns minutos.
O canal se chamaria, com toda certeza, Carolip.
(*) para os curiosos, o batom Ă© o Power Stay. Ei, Avon, patrocina o Rascunho!