Quem voltará às aulas?

Sabemos bem que não é uma banda larga de internet que manterá jovens conectados à escola ou que os farão retornar a ela
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26/01/2021

Se tem uma coisa que me tira o sono é olhar para os dados de “abandono escolar”, “evasão escolar”, “mortalidade escolar” e tantos outros adjetivos que indicam que a escola saiu do cenário de um número significativo de pessoas, na maioria jovens.

Em julho de 2020, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentava que dos 50 milhões de jovens entre 14 e 29 anos no país, 10,1 milhões (20%) saíram da escola sem completar a educação básica, e apontava como principais causas o trabalho e o desinteresse. Deste total, cerca de 71% são negros/as.

Estávamos no começo da pandemia causada pelo coronavírus. O cenário nos indicava que as desigualdades no acesso à educação só aumentariam. E de lá para cá, muita coisa piorou: as aulas remotas não alcançaram as crianças e jovens de famílias empobrecidas sem acesso à internet, celular ou computador. Aquelas que possuem conexão, por vezes, compartilham um único celular para atividades de trabalho (principalmente negociação e realização de serviços precários), contato com amigos e parentes (em isolamento) e as aulas.

De acordo com a Agência Senado, o Projeto de Lei n° 172/2020, aprovado no Senado em 19 de novembro, prevê alterações no Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), para a aplicação obrigatória no acesso à internet banda larga para todas as escolas públicas, em especial as situadas fora da zona urbana, até 2024.

Tomara mesmo que não demore para termos conexão banda larga nas periferias e áreas rurais. Mas sabemos bem que não são fios e cabos que manterão os/as jovens conectados à escola ou que os/as farão retornar a ela.

Há questões bastante complexas que se embaralham na produção da desconexão entre a escola e a vida dos/as jovens. Porém, parece-me que há algumas atitudes simples que podem ao menos acenar a uma criança ou a um jovem, que damos importância ou não, aos seus estudos. Às vezes, os desejos nascem de situações singelas. Enquanto escrevia esta crônica, lembrei-me de duas microcenas que me conectam à continuidade dos estudos. São duas pequenas histórias ocorridas em 2019, já contadas por mim nas redes sociais e que agora ganha espaço nesta coluna.

O desejo da tia Cida
Eu havia acabado de ler trechos de uma pesquisa sobre o impacto do incentivo de educadores/as no bom desempenho de estudantes e também o seu contrário. O artigo falava das “profecias realizadoras” para o bem e para o mal. Na ocasião, veio-me à lembrança (e não havia sido a primeira vez) uma cena de quando eu tinha cerca de 9 anos: a família (pai, mãe e irmãs) tinha ido visitar a tia Cida e o tio Domingos em um colégio particular, onde eram caseiros. Era a minha vez de ocupar o disputado banco da frente da perua-kombi. Depois das despedidas, posicionei-me. Ereta, com o cinto e um sorriso no lugar fui abordada pela tia: Que elegância de professora! Já estou vendo você entrando aqui de “pescocinho em pé” e os alunos te acompanhando. Chegou um pouco mais perto e soltou a pergunta: Você quer ser professora?. Era mais que um convite para brincar de escolinha. Acho que não respondi nada. Devo ter balançado a cabeça afirmativamente, em um gesto inquieto. Eu pouco sabia daquele querer. Quando cheguei em casa, tirei os livros da pasta escolar, segurei-os próximo ao coração e desfilei, elegantemente, na frente do espelho. Era a primeira vez que um desejo daqueles ocupava a nossa casa. Ocupou a minha vida.

Será que dá para entrar na USP?
Dudu é um sobrinho querido, saído da adolescência. Havia deixado um recadinho no meu Whats dizendo que faria o Enem e que estava procurando trabalho. Pedia indicação, caso eu soubesse de algo. Coloquei-me na torcida pela continuidade dos estudos e atenta a indicar algum trabalho que lhe permitisse estudar. Uns meses depois, ele deixa uma mensagem em áudio: Tia, liguei para deixar uma notícia que você vai gostar: amanhã vou fazer minha matrícula. Passei, tia! Vou cursar a Escola de Enfermagem da USP [Universidade de São Paulo] em tempo integral! Lembra quando você me disse que a USP era para mim também e eu achava difícil? Passei, tia! Vou sair do trabalho e só estudar.

Dudu, como outros jovens, tem enfrentado o desafio das aulas remotas e lamentado não viver a USP. Ele aproveita as horas de folga para fazer alguns “bicos” e realizar outros sonhos. Eu e Dudu, em quase 40 anos de distância, nos encontramos com alguém que se importou com nossa formação. Não queremos ser exceções.

Bel Santos Mayer

É educadora social, coordenadora do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac) e co-gestora da Rede LiteraSampa.

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