Por um jornal homérico

Ando tão cansada do mundo, da política, da mesquinharia, que adoraria um jornal contando notícias com deuses, semideuses, heróis, mulheres maravilhosas
Ilustração: Denise Gonçalves
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20/05/2021

Foi na virada da Idade do Bronze para a do Ferro que a História começou a ser escrita e contada a partir de fatos e registros. Até então, o que considerávamos História era escrito a partir da fantasia. Homero, por exemplo.

A Idade do Bronze ganha esse nome porque a commodity mais importante era o bronze, principalmente por causa da produção de armas. A indústria bélica também precisava de estanho, que era misturado com o cobre na liga metálica e vinha do Afeganistão através da Síria.

Troia era uma cidade importante e murada sob o poder dos hititas. Ao sul, faraós egípcios. Entre os dois, a Palestina que, para variar, era uma área disputada e sob constante ataque. A leste, a Mesopotâmia, também uma área complicada e de interesse tanto dos assírios quanto dos babilônios. A oeste, o que vinha um dia a ser a Grécia. A localização de Troia era estratégica para a navegação que atravessava do Mediterrâneo para o mar Negro, por onde passava todo o comércio de minérios.

O que veio a se tornar Grécia nessa época era uma mistura de reinos que tinha como maior cidade Micenas (pertinho de Espaaaarta). Com ajuda de Alexandre, o Grande, os gregos estavam se tornando cada vez mais importantes. Até que ponto as histórias de Homero não são um tratado econômico? É bem fácil de imaginar os gregos tentando conquistar o entreposto de Troia, estratégico para as rotas comerciais importantes da época. E Homero lá, falando ai inferno e agora como eu vou contar isso? Já sei! Vou começar com uma mulher, a mais linda de todas. Sucesso garantido.

É de se admirar o esforço em transformar uma guerra com o estopim mais provável sendo pura estratégia militar e mesquinharia econômica em uma honrosa saga por causa de uma bela mulher.

Uns sete séculos depois, Virgílio, em Eneida, associa a queda de Troia ao nascimento de Roma. O herói, Enéas, é um sobrevivente da Guerra de Troia que narra todas as tretas para Dido, rainha de Cartago. Eneida conta, justamente, a história desde a fundação de Roma até a expansão do Império Romano. Com uma certa licença poética, dá para considerar Eneida como um spin-off de Ilíada.

Eu ando tão cansada do mundo, da política, da mesquinharia e da pequenez, que adoraria que alguém inventasse um jornal homérico, contando as notícias com deuses, semideuses, heróis, mulheres maravilhosas e, por que não, um cavalinho (ou uma capivara) aqui e ali.

Começo eu:

Nhanderuvuçu, em um dia lá meio distraído com a chuva, deixa a porta aberta e Amélia, a capivara que vivia solta no quintal, entra na casa. Nhandecy, vendo aquela lama toda no sofá da sala, perde completamente a paciência.

Nhandecy então chama Tupã e Iara e pergunta onde, afinal, o mozão tinha arrumado aquela peste. Iara aponta para o Brasil.

Sabendo que o marido ia sentir falta de Amélia se ela desse um sumiço no hamster gigante, Nhandecy então diz que vai se vingar de outro jeito. E foi assim, por pura falta de uma lavadora Wap, que Nhandecy mandou a entidade maligna Jafoi para cá.

O problema é que o boto, um sujeito muito popular, jamais permitiria uma vingança dessas, ainda mais por causa de um bichano tão simpático. Nhandecy então, com a ajuda de Pirarucu, cria uma emaranhada trama de mentiras que culminam na prisão do boto. Com isso, além do apogeu da burrice, várias desgraças ambientais ocorrem simultaneamente.

Jafoi, que mal e porcamente consegue fingir ser um humano, contrata Abaçaí como seu media planner. Abaçaí consegue então deixar mais da metade da população em transe. Felizmente, o transe está finalmente passando.

Desde que o mundo é mundo, quando tudo mais falha, a mitologia nos salva.

Carolina Vigna

Doutora em Educação, Arte e História da Cultura, é escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

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