* Série LeituraBR
Com este texto, minha ideia é finalizar a série de comentários leves & livres sobre os resultados da mais recente pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, que conta com gente muito mais bamba do que eu para a missão de debater e analisar. Mas que gosto do tema, ah, isso gosto. E até pode ser que ele sempre volte, porque está entranhado em tudo quanto faço na vida, inclusive e principalmente na faceta profissional.
Espiando ali pelas frestas dos relatĂłrios, deparei com um dos subtemas mais inflamáveis da pesquisa, o que nĂŁo poderia faltar e que causa burburinho por onde chega. Segundo os nĂşmeros divulgados, 92% das felizardas pessoas que leem neste paĂs preferem fazĂŞ-lo no papel. Isso em tempos recentĂssimos, nĂŁo Ă© nada que ultrapasse meia dĂ©cada, isto Ă©, já estavam na cena todos os apetrechos e devices que conhecemos hoje como suportes de leitura. Ou portadores, conforme se queira.
NĂŁo Ă© pouca coisa considerar que a cada cem indivĂduos… 92, se tiverem ali por perto um tijolinho de papel e tinta, darĂŁo preferĂŞncia a ele. E isso por quĂŞ? Por falta de mais e-books? Certamente nĂŁo. Por falta de equipamento? Talvez. Por falta de paciĂŞncia? Bem provavelmente. Porque as experiĂŞncias sĂŁo mesmo muito diferentes. E eu cá fico pensando em como as empresas de tecnologia e parte da imprensa caĂram nessa de tentar nos convencer, a nĂłs leitores e leitoras contumazes, de que uma mentalidade competitiva e exclusivista daria conta do recado. Ainda nĂŁo. Tomara que jamais.
Coisa interessante e curiosa tambĂ©m Ă© observar que as pessoas que tĂŞm entre 18 e 24 anos estĂŁo mais disponĂveis para o e-book, segundo os resultados. AtĂ© aĂ nada que nos surpreenda. 73% dessa turma lĂŞ em smartphones, o que tambĂ©m parece evidente atĂ© a olho nu, sem requintes metodolĂłgicos nem nada. Mas vejam: quando o papo Ă© comprar livros, as livrarias disparam na frente, e sĂŁo onde as pessoas preferem mesmo consumir os tĂtulos que desejam e os que ainda nem conhecem.
Bom, talvez tenha havido alguma mudança importante por conta da pandemia. Uma pesquisa situada talvez ajudasse a saber com mais nitidez. Por enquanto, vamos de suspeitas mesmo.
Livrarias e travesseirões
Livraria Ă© bom demais. De fato, fico pensando no que sinto quando me movo de um terreno ao outro, sem essa de este ou aquele. Tenho estantes cheias de obras de papel e um Kindle, atĂ© estufado de tantas outras obras. Geralmente elas nĂŁo sĂŁo as mesmas das estantes. Algumas vĂŁo passar pelo equipamento apenas por um tempo; logo serĂŁo apagadas e devolvidas ao pĂł verde limĂŁo da digitalidade lĂmbica. Outras ficarĂŁo ali, mas eu olho para elas no mostrador e me dá muita vontade de que elas estivessem em pĂ© na estante fĂsica. Por que nĂŁo estĂŁo? Porque seus preços sĂŁo proibitivos em versĂŁo de papel. SĂł por isso. Ou porque elas sĂŁo importadas (o que se relaciona fortemente com o motivo anterior) e chegam mais fácil a mim digitalmente, sem barreiras alfandegárias, monetárias e logĂsticas de maior monta. Mas a sensação mesmo Ă© de que eu nĂŁo as tenho, elas nĂŁo me pertencem e sĂł aparecem quando toco determinados botões (que sĂŁo sĂł emulações) na telinha do Kindle.
A experiĂŞncia de lĂŞ-las tambĂ©m Ă© outra. Geralmente me deito na cama, recostada em travesseirões, a fim de ler romances ou textos cientĂficos. Toco a tela com uma canetinha com ponta de borracha feita especialmente para esse fim. Limpo a tela com tecido flanelado e cuido para que nĂŁo derrubem meu equipamento do criado-mudo, trincando-lhe o vidro (carĂssimo ou sem conserto que valha a pena). Quanto aos livros de papel, tiro e retiro pelas lombadas, deixo no quarto, no banheiro e na sala, marcados com tiras de papel mais espesso, para ler sentada ou deitada, tambĂ©m em todo canto. Portabilidade, minha gente, Ă© coisa de que o livro foi precursor, e faz tempo. É uma de suas caracterĂsticas mais incrĂveis, embora seja necessário levar embaixo do braço vários deles, se a ideia for variar. No Kindle e seus assemelhados, Ă© claro que a relação Ă© diferente: mil tĂtulos ali cabem, fazendo o volume de menos que um. Mas isso sĂł Ă© possĂvel justamente porque esses livros digitais sĂŁo projeções, nĂŁo exatamente objetos. O objeto Ă© o device.
No caso dos e-readers, a relação é bastante dedicada, isto é, ele serve para pouco mais que projetar livros que alguém vai ler. Mas se as pessoas leem mais em smartphones, elas certamente estão à mercê de muitas outras coisas, como as notificações infinitas de redes sociais e outras demandas. É ainda outra experiência.
Como disse Leonardo Villa-Forte, numa tuitada que viralizou faz pouco: um livro ainda é um dos únicos lugares de leitura que não são invadidos pela propaganda. As palavras dele não foram exatamente essas, mas vale o sentido. De fato, nunca me chegou um pop-up do iFood ou de loja de sapato retrô enquanto eu lia meu calhamaço de papel.
Tudo quero, tudo posso
O barato Ă© o seguinte: enquanto a mentalidade for essa da exclusĂŁo, exclusividade, competitividade, concorrĂŞncia… vai parecer que estamos tratando livros e e-books como inimigos, como se fossem incapazes de conviver. É um modo de pensar bem interessante para quatro ou cinco empresas de tecnologia que se dĂŁo bem com consumidores antidiversidade. Para mim isso nĂŁo cola. NĂŁo entro em falsos debates e nem em polĂŞmicas fraudulentas sobre algo que as práticas sociais já dĂŁo sinais muito mais interessantes e inteligentes de como funciona. Prefiro vislumbrar as genealogias e as possibilidades conciliáveis desses objetos de ler. Numa pesquisa que fizemos com adolescentes do ensino mĂ©dio, estava lá a disponibilidade deles e delas para misturar, simplesmente interpolar, alternar, aproveitando o que for bom ou conveniente de cada tecnologia. A minha disponibilidade tambĂ©m Ă© essa. Eu sei o que quero de um jeito e o que quero de outro; o que me custa menos ou mais; o que escolho por isto ou aquilo. Sabichões que percam seu tempo discutindo oposições fake.
Cá entre nós: as gentes do livro gostam de falar em bibliodiversidade. Simpatizamos com essa ideia desde que ela foi posta, e isso tem mais de duas décadas. A ideia, incansavelmente debatida até hoje, gira em torno do fato de que é preciso evitar que poucas empresas produzam tipos limitados de obras; ou estimular que as editoras, em especial as pequenas, continuem produzindo catálogos diversos, fora do que poucos grandes grupos produzem ou definem que seja “o bom”. Enfim, uma noção bastante voltada ao conteúdo, aos temas, à diversidade das obras em seus gêneros editoriais, suas autorias etc.
De cá ainda acho mais: que Ă© preciso pensar a bibliodiversidade, no sĂ©culo 21, considerando tambĂ©m as tecnologias do livro. Se os livros vĂŁo se expandindo em termos de forma, grĂŁo, papel ou pixel, por que nĂŁo pensar tambĂ©m nisso, incluindo, em vez de excluir? Por que nĂŁo pensar que os livros de naturezas tecnolĂłgicas diversas alcançam de modo diferente as pessoas, leitores e leitoras diversos, em suas possibilidades de escolha? Por que nĂŁo admitir que ter todos os tipos de livros seja uma boa para a leitura? E parar de tratar o assunto como se fosse um campeonato ridĂculo desses em que sĂł um time pode ganhar? Ou um filme ruim em que todo mundo morre no final, restando apenas um personagem todo estropiado.
Vai ser fino quando todo livro for vários, podendo ser acessado aqui, lá e acolá; toda a gente puder escolher; e trilhar todas as leituras for muito mais legal do que não ler absolutamente nada.