O mistério do joelho

Se o Brasil tivesse a influência global dos Estados Unidos, as lojas de fast-food ao redor do mundo venderiam joelho com caldo de cana
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13/01/2021

Trata-se de mistério comparável à localização do Eldorado ou à leitura do Manuscrito Voynich: por que diabos aquele salgado feito com massa de pão recheada de queijo e presunto é chamado pelos cariocas de “joelho”? Sim, chamado desse jeito por quem nasceu ou mora no Rio, pois a iguaria recebe o nome de “italiano” em Niterói, que fica uma ponte adiante. Para os paulistas, é “bauru” ou “bauruzinho”. Mas também há quem denomine “pão-pizza”, “americano”, “enroladinho”, ou simplesmente aponte para a vitrine-estufa e peça “esse negócio aí de queijo com presunto”.

O joelho é um clássico suburbano. Talvez a presença mais certa, quando observamos o rol de salgados, nas lanchonetes dos bairros de classe média baixa ao longo do país. Atrai pela pujança de suas formas, que prometem um empanturramento imediato, e também pelo ecletismo: serve tanto para matar a fome que pinta no meio do dia quanto como substituto do almoço. Diria que, se o Brasil tivesse a influência global dos Estados Unidos, as lojas de fast-food ao redor do mundo venderiam joelho com caldo de cana, em vez de hambúrguer com refrigerante.

Quando moleque, circulava bastante entre Madureira, Cascadura, Piedade, Encantado, Méier, e fiz um mapeamento dos melhores joelhos da região. Em geral eram aqueles mais generosos no recheio. As lanchonetes costumavam servi-los em pares, ainda que o freguês pedisse apenas um. Estratégia de comércio. O outro ficava no prato, à espreita, como que suplicando por uma chance. Difícil recusar, sobretudo se a fornada terminara de sair e o queijo derretido se espraiava para fora do salgado, lânguido, quase pornográfico.

Mas voltemos à origem do termo. Conta-se que o lanche surgiu na extinta Casa Chantal, localizada na Praça Tiradentes, no Centro carioca. A loja em seus áureos tempos teria sido frequentada por personalidades como o jurista Ruy Barbosa e o escritor João do Rio. Segundo esse relato, o quitute recebia o nome de “chantalet de queijo e presunto” – uma referência direta ao título do estabelecimento comercial. E, na arrumação da vitrine, era colocado sempre na prateleira inferior à das coxinhas de galinha. O que teria inspirado o poeta Emílio de Menezes, conhecido pelos sonetos satíricos, a rebatizá-lo. Logo abaixo da coxa, afinal, fica o joelho.

Se a narrativa é verídica, não posso garantir. A referida Casa Chantal, por exemplo, desconfio que nunca existiu. Tampouco conheço a raiz das tantas e tão diferentes alcunhas do salgado. É bem provável que compreendam relatos inusitados como esse, da Chantal. Até porque o joelho não se encontra sozinho na prateleira dos alimentos com nomes sortidos e biografia insólita. O sacolé está aí que não me deixa mentir.

Chamado também de “chupe-chupe”, “flautinha”, “lili”, “legalzinho”, “brasinha”, “dim-dim”, “big-bem”, “dudu” e até de “chopp”, esse tipo peculiar de sorvete remonta à Segunda Guerra Mundial. Os marinheiros norte-americanos recebiam sua comida – congelada, processada e carregada de proteína – envolta em sacos plásticos para o consumo entre as batalhas. A ideia foi trazida para cá, onde o clima tropical e a criatividade acabaram favorecendo a conversão do que era salgado em doce. A refeição principal virou sobremesa e o sacolé, uma invenção tão brasileira quanto o avião, o relógio de pulso, o escorredor de arroz ou aquele acepipe de queijo e presunto com apelido de articulação óssea.

Um joelho para começar e, depois, o sacolé. Que os nutricionistas não me ouçam, mas o combo parece irresistível.

Marcelo Moutinho

É autor dos livros Rua de dentro (2020), Ferrugem (vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional, 2017), Na dobra do dia (2015), A palavra ausente (2011), Somos todos iguais nesta noite (2006) e do infantil A menina que perdeu as cores (2013), entre outros.

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