Durante a escrita de um livro, o autor vai descobrindo o que quer contar e como. Por mais que ele faça escaletas, escreva fichas detalhadas sobre cada capĂtulo e conte a histĂłria para amigos num bar para testá-la, ele nunca acerta de primeira.
Pelo menos, eu nunca acertei.
Por exemplo, agora, eu e Marcus Aurelius Pimenta estamos escrevendo um livro sobre a Independência. E nossa ideia mudou várias vezes.
1. A primeira versão contava apenas a vida de Maria Quitéria, a soldada baiana que se disfarçou de homem para lutar. É uma história fantástica, muito parecida com Mullan, da Disney, mas com sangue e mortes de verdade.
Escrevemos essa primeira versĂŁo. PorĂ©m, ela nos deu comichões de contar as outras guerras de independĂŞncia. Nelas tambĂ©m havia personagens espetaculares e fatos incrĂveis.
2. EntĂŁo passamos Ă segunda versĂŁo: uma conversa entre QuitĂ©ria e o almirante Thomas Cochrane, mercenário britânico que participou de algumas guerras da IndependĂŞncia. Lemos bastante sobre ele e começamos a escrever. Mas logo surgiu um problema: se QuitĂ©ria contava toda sua vida, terĂamos tambĂ©m que contar toda a vida de Cochrane. E a parte mais interessante dela se passava antes e depois de sua passagem pelo Brasil. Isso desequilibrava as coisas.
3. A solução foi trocar Cochrane por John Pascoe Grenfell, um de seus assistentes. Grenfell ficou a maior parte de sua vida no Brasil, é mais desconhecido que Cochrane, o que traz algumas vantagens, e foi importante na “Tragédia do Brigue Palhaço”, no Pará, uma das páginas mais tristes da história do Brasil.
Escrevemos esta versĂŁo e atĂ© gostamos dela. Falávamos nas guerras da Bahia, MaranhĂŁo e Pará, sempre esquecidas pelo resto do paĂs. Mas nos pareceu que tambĂ©m seria bom dizer que a IndependĂŞncia sĂł aconteceu realmente quando o Brasil pagou uma grande indenização a Portugal. E isso Grenfell nĂŁo poderia contar. Ou, pelo menos, nĂŁo poderia contar bem.
4. Decidimos trocar Grenfell por Martha Graham, uma inglesa que viveu no Brasil naquela época. Lemos tudo o que encontramos sobre ela e fizemos nossa quarta tentativa. Ela tinha o charme de ter a Independência contada por duas mulheres. E as duas realmente se encontraram. Mas Quitéria narrava o vivido e Graham, apenas o ouvido. E essa diferença acabou deixando o texto desequilibrado.
5. Na quinta versĂŁo substituĂmos Martha Graham pelo Chalaça, personagem de meu primeiro livro. Parecia a saĂda definitiva (tanto que atĂ© escrevi sobre isso há seis meses, neste mesmo espaço, me achando muito esperto). Na conversa entre os dois, QuitĂ©ria contaria o 2 de julho e Chalaça, todas as outras batalhas da IndependĂŞncia. Mas acabamos achando que requentar o Chalaça seria um golpe baixo. Uma espĂ©cie de autocaricatura. E desistimos dele.
6. A ideia seguinte foi juntar, numa sala de espera, Quitéria, Cochrane, Grenfell e Natan Rothschild, o banqueiro que emprestou dinheiro ao Brasil para que pagássemos Portugal. Os três primeiros contariam suas histórias, apostando que seriam chamados à frente dos outros para falar com D. Pedro. Mas o banqueiro é que teria esse privilégio.
Parecia uma estrutura interessante, mas ainda não bastava. Agora achávamos que havia outros momentos decisivos na Independência do Brasil, além das guerras e da compra, como a Aclamação e a Coroação.
7. Então veio uma ideia radical: e se o livro fosse, na verdade, um monte de gente falando, cada um defendendo uma data diferente para a Independência? Quitéria ficaria com o dois de julho; Cochrane contaria sua vitória no Maranhão; Grenfell diria que sua vitória no Pará é que foi decisiva; haveria alguém para defender o sete de setembro (o padre Belchior, que escreveu o relato que imortalizou data); a imperatriz Leopoldina falaria do dois de setembro, para alguns muito mais importante que o grito de cinco dias depois; Gonçalves Ledo, personagem que descobrimos no meio do caminho, falaria da Aclamação de 12 de outubro (e das tramas maçons que colaboraram para a Independência); Bonifácio contaria o três de dezembro, quando Pedro foi coroado imperador, e Rothschild falaria de seu empréstimo ao governo brasileiro.
Ficamos satisfeitos com essa proposta. Depois de uma longa caminhada, tĂnhamos percebido que nossa personagem principal nĂŁo era QuitĂ©ria, mas a IndependĂŞncia do Brasil. E que, desde o inĂcio, o que realmente desejávamos era mostrar que o sete de setembro era sĂł um sĂmbolo, que havia muito mais gente por trás, por cima e por baixo de nossa separação de Portugal.
Mas como estas oito personagens contariam suas histĂłrias? Estariam num jantar? Trocariam cartas? Cada fato seria contado de um jeito diferente: em primeira pessoa, em terceira, em forma de roteiro, como uma peça de teatro, etc…? AtĂ© gostamos desta Ăşltima ideia, mas nossos personagens eram tĂŁo fortes que pediam relatos em primeira pessoa.
Decidimos que o melhor seria tê-los como fantasmas, vagando pelo Museu do Ipiranga e olhando o quadro de Pedro Américo. Essa situação sobrenatural daria certa unidade às narrativas, possibilitaria às personagens saberem o que aconteceu com o Brasil nos últimos 200 anos e, o mais importante, tiraria o ar oficial do livro.
Hoje em dia há uma tendência a achar que o romance histórico deve contar a história exatamente como ela foi, o que me parece uma bobagem. Quem quiser saber como algo realmente aconteceu deve ler livros de História. Um romance histórico é, como o nome já diz, um romance, uma ficção. Não é a história romanceada. Não é a verdade factual contada de um jeito mais gostosinho. O romance histórico parte de fatos e personagens reais, mas não serve para estudar para o Enem.
No fim das contas, o que seria um romance sobre Maria Quitéria virou um livro de contos sobre a independência. Pelo menos, por enquanto. Porque pode ser que a gente mude de ideia de novo.