O excesso Ă© uma forma de dar sumiço Ă s coisas. Posso chegar a essa conclusĂŁo com a ajuda de importantes filĂłsofos da pĂłs-modernidade que articulam uma lição que aprendi com Wally. Quando eu era criança, um dos meus passatempos preferidos era procurar pelo rapaz de camisa listrada e bengala nos livros Onde está Wally? Embora viajasse por lugares os mais variados, Wally sempre acabava em lugares extremamente lotados de gente. Seu poder de desaparecer a olhos vistos dependia apenas do entorno. Com suficiente excesso, Wally ficava invisĂvel (quase, ou nĂŁo haveria jogo).
O mesmo serve para a audição. O compositor e pesquisador musical Murray Schafer apontou como a superexposição a ruĂdos mecânicos e digitais gera uma surdez para os sons do mundo. Nos seus laboratĂłrios no Canadá, Schafer vem demonstrando que as pessoas estĂŁo cada vez menos capazes de distinguir sutilezas melĂłdicas, profundidade sonora e diferenças de timbres.
Lembrei de Wally e de Schafer quando li que animais marinhos estĂŁo ficando surdos por nossa culpa. Segundo conta o New York Times, os peixes-palhaço começam a vida como larvas Ă deriva no oceano. Quando eles ganham tamanho e força suficientes para nadar, eles voltam para os recifes de corais onde passarĂŁo o resto da vida. Os peixes-palhaço nĂŁo enxergam os recifes, mas eles os escutam: ouvem o barulho especĂfico da água ao redor deles, as borbulhas de ar e todos os demais sons que nĂłs, humanos, seremos incapazes de descrever com nosso vocabulário formatado para o mundo nĂŁo-submerso. EntĂŁo os peixinhos seguem os ruĂdos e chegam em casa. Exceto que eles nĂŁo conseguem mais ouvir os recifes porque nĂłs causamos um excesso de poluição sonora no oceano.
Os navios, as pesquisas sĂsmicas, a pesca com dinamite, as plataformas de perfuração e coisas do gĂŞnero tĂŞm tornado o ambiente marinho ensurdecedor. Os peixes-palhaço ficam condenados a peregrinar sem rumo para sempre. Outros animais tambĂ©m sĂŁo afetados, uma vez que muitos se comunicam por meio de sons. Nossos ruĂdos antropogĂŞnicos no mar sĂŁo como a obra de um vizinho que se arrasta por toda a eternidade.
Penso nisso quando mais uma vez pego o celular para rolar a tela de notĂcias recentes. Tento entender como Ă© possĂvel que na capa de todos os jornais haja, simultaneamente, o alarme de que os hospitais estĂŁo operando acima da capacidade e as fotos de aglomerações que a polĂcia dispersou na noite anterior. Um ano de pandemia: será que há tantas notĂcias terrĂveis que nĂŁo as enxergamos mais? É preciso desenvolver alguma insensibilidade para sobreviver ao Brasil, isso Ă© certo, mas daĂ a participar de uma festa com quinhentas pessoas Ă© um salto extremo Ă surdez.
A surdez, em todo caso, tem sido a estratĂ©gia deste governo. Quando as coisas vĂŁo mal, cria-se suficiente ruĂdo para que nĂŁo se entenda mais nada. Desde o inĂcio da pandemia, os cidadĂŁos brasileiros (os de bem e os de mal) sĂŁo deixados a esmo como os peixes-palhaço que nĂŁo encontram seus recifes. Recebemos declarações contraditĂłrias, somos submetidos a campanhas antivacina de quem deveria estar comprando mais doses, precisamos tentar organizar estatĂsticas e decretos que apontam para direções diferentes. Somos deliberadamente ensurdecidos.
Peço desculpas por esta crĂ´nica com cara de artigo de jornal. Ela revela o meu prĂłprio excesso informacional. Enquanto o estado onde vivo avança para o colapso de todo o sistema de saĂşde, eu leio obsessivamente as notĂcias, os prognĂłsticos e as análises dos especialistas. Tenho a esperança de, no meio do caos, encontrar o Wally. Me iludo com a ideia de que, se eu apenas me dedicar o suficiente, a resposta estará ali, bem debaixo do meu nariz e, depois de vĂŞ-la uma vez, nunca mais a perderei de vista. A verdade, porĂ©m, parece ser a de que nĂŁo estou procurando por Wally, mas sou o prĂłprio Wally: aquela figura desorientada que, apesar dos Ăłculos enormes, parece nunca perceber que logo Ă sua esquerda há uma casa pegando fogo, um elefante prestes a esmagar uma pessoa, um fantasma aterrorizando crianças ou uma trilha de esquiadores acidentados. Eu olho, leio, presto atenção, ouço as sirenes de ambulâncias que me acordam de madrugada, mas nĂŁo encontro sentido. AmanhĂŁ, os jornais trarĂŁo mais nĂşmeros impossĂveis. Será mais um dia de surdez.