Mais do que a própria guerra

Os ódios armazenados com carinho e cuidado, para que cresçam e se desenvolvam bem e estejam prontos para serem usados quando a revolução começar
Ilustração: Bruno Schier
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29/04/2021

Venho sofrendo de ódio retroativo. Cada vez que lembro de algo ocorrido no passado e compreendo os motivos de ter me atingido, a vontade que dá é de cobrir na pancada. Não faço por três motivos básicos: vai contra tudo o que eu acredito, sou daquelas new hippies antiviolência; tenho 1,63m de altura e; seria ridículo o sujeito lá apanhando e eu gritando “isso é pelo que você fez em 1983”.

Tenho, assim como dois terços dos brasileiros, alguns ódios bem atuais também. Esses, armazeno com carinho e cuidado, para que cresçam e se desenvolvam bem e estejam prontos para serem usados quando a revolução começar.

O budismo diz que a raiva e o apego são dois lados da mesma moeda. Infelizmente não sou budista e tenho apego à época em que ainda tínhamos governantes que não queriam nos matar. Podem me chamar de saudosista, tudo bem.

Segundo Sêneca, a ira ou o ódio nascem da sensação de que nos foi causado algum dano. Ou seja, é um desejo de vingança. Ele falava isso mas acreditava que a serenidade era algo possível e era o que havia de mais importante a ser preservado. Em teoria eu também penso assim, mas tenho cá minhas dúvidas se o Estoicismo sequer existiria se o Sêneca tivesse vivido no Brasil atual.

A frase “o ódio sem desejo de vingança é um grão caído sobre o granito”, atribuída a Honoré de Balzac, reflete bem um certo pragmatismo que penso necessário à vida.

Do meu lado, filho ri. Paro por um instante. Pauso a produção industrial de bile. De uma hora para outra, me transformo em paz e amor. Risada de filho é o antídoto para todos os males do mundo, estou convencida.

Ele nota que o observo e me mostra um meme com a reação de um gamer famoso ao perder uma partida importante. Não sei o contexto, o nome do game e nem do gamer, mas também acho engraçado.

Esqueço a Covid, o presidente, a política, a economia, os boletos a pagar e os prazos a cumprir. Esqueço de tudo que me aborrece e faço uma pipoca para ver anime debaixo das cobertas.

Recomendo ter filhos pelo motivo mais egoísta que existe: filho cura a gente de tudo, até de nós mesmos.

Essa geração de gamers – sei lá que letra tem – entende, bem melhor que as anteriores, o Estoicismo de Sêneca.

Perdeu o jogo? O personagem morreu? Tudo bem. Respira fundo e começa de novo. O que importa é o caminho, não o destino.

Lembre-se sempre que no momento em que eles começaram a ter um pouco mais de independência, veio uma pandemia mundial e os trancou de volta em casa. Ainda assim, encontram sorrisos, humor, risos e afetos. Ainda assim, encontram forças para acompanhar aulas online. Ainda assim, se mantêm atualizados. Ainda assim, todo o resto.

Do mesmo jeito que irado já significou cheio de ira / com raiva, tenho esperança que a geração gamer ressignifique também o ódio.

É uma geração de guerreiros e eu conto com eles ao meu lado nas trincheiras da vida.

Carolina Vigna

Doutora em Educação, Arte e História da Cultura, é escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

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