L de amor

Ao vasculhar os livros e anotações da mãe — uma pessoa apaixonada pela palavra escrita —, a cronista encontra pequenos prenúncios de seu próprio futuro
Ilustração: Thiago Lucas
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21/09/2021

Minha mãe escrevia. Muito. Sentada na cadeira perto da janela da sala de jantar, rabiscava alguma coisa nos vários papéis e livros em cima da mesa de vidro, envolta no seu cheiro de frutas tropicais. Às vezes, eu achava que ela estivesse ocupada, mas estava apenas escrevendo os nomes das três filhas como quem circunda e contorna um corpo feito de amor. Imagino que, se estivesse viva, minha mãe teria, como eu, escrito livros e teria sido também publicada. Era muito boa. Enquanto eu escrevo, publico e me chamam de autora, penso sempre nela e no que sentiria ao ver esses traços cravados na minha vida.

Além de escrever bem, ela adorava os livros. Uma vez, recebeu na nossa casa um autor de livros didáticos. O nome dele era Davi Márcio. A mãe passou uma hora com as filhas na sala avisando sobre boas maneiras. Parecia que um rei estava prestes a chegar na nossa casa para o almoço. O autor veio de Belo Horizonte. Para a mãe, que detestava a conversa sobre futebol em torno da cerveja lerda que deixava melosa a fala grossa dos homens, aquele encontro de estímulo intelectual foi uma espécie de ápice. Tanto foi que ficou como fragmento na minha memória de um dia que vi minha mãe feliz; não se desfez.

Quando ela morreu, deixou inúmeras caixas com escritos.

Meu pai me esperava chegar em Guarani para organizar os livros, as pastas, as caixas de papel. “Não joga nada fora, espera eu chegar.” Tudo intacto coberto por uma grossa camada de tempo. Cartas minhas com pedidos de desculpas, promessas de daqui pra frente, sonhos pulsando, frases tolas “mãe, ninguém aqui fala com o sotaque que aprendi. É super diferente. A diferença, mãe, é que o ‘a’ demora. Não é caipira. Não se fala paRk, se fala paaahk”.

Eu lia enquanto segurava o pedaço de papel cheio de notícias ingênuas. O recibo da lua de mel dos meus pais no Hotel Regina, no Flamengo, na virada do ano, antes de seguirem para a ilha de Paquetá. Gastaram na adega, notei. Fiquei feliz por eles — vinho, uma noite de amor, o Pão de Açúcar em sessenta e nove, o ano, naturalmente.

Havia livros da faculdade de direito de uma irmã, de alimentos da outra irmã. Didáticos, “quem vai querer isso, pai? Ensinavam tudo errado pra gente. Educação Moral e Cívica. Joga fora ou guarda pra museu?”.

No meio disso tudo, o dicionário verde de inglês, capa dura. Achei jogado na casa dos meus avós, aos 8 anos. Abri e não entendi. Por isso quis ficar com ele. Minha irmã me disse que era inglês. Vou falar inglês. Quem será que fala inglês? Será que tem alguém no mundo que vai falar inglês comigo um dia? Camiseta nova de Natal. Escrito “easy love”. Já sei o que é love. Tá marcado no dicionário verde.

No dia da arrumação dos livros da mãe, vejo também pequenos ensaios meus de futuro, prenúncios. Abri o dicionário na letra L e lá estava, há mais de trinta anos, um círculo e uma observação na “palavra mais importante”. Aos 8 anos o livro dos burros me ensinava. Eu era boba ou esperta demais.

Na mesma página o nome “Louis” — essa vida é mesmo doida —, num círculo como uma bola de cristal, contornado e circundado como um corpo feito de amor. Ao ouvir “I love you”, meu corpo se derrete como se ouvisse “eu te amo”.

Nara Vidal

É mineira, formada em Letras pela UFRJ e Mestre em Artes pela London Met University. É escritora, tradutora e editora. Autora de livros infantis e ficção adulta. Seu romance de estreia, Sorte (Moinhos), traduzido na Holanda, foi um dos vencedores do Prêmio Oceanos em 2019. Seu livro mais recente é a coletânea de contos Mapas para desaparecer (Faria e Silva).

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