Minha mĂŁe escrevia. Muito. Sentada na cadeira perto da janela da sala de jantar, rabiscava alguma coisa nos vĂĄrios papĂ©is e livros em cima da mesa de vidro, envolta no seu cheiro de frutas tropicais. Ăs vezes, eu achava que ela estivesse ocupada, mas estava apenas escrevendo os nomes das trĂȘs filhas como quem circunda e contorna um corpo feito de amor. Imagino que, se estivesse viva, minha mĂŁe teria, como eu, escrito livros e teria sido tambĂ©m publicada. Era muito boa. Enquanto eu escrevo, publico e me chamam de autora, penso sempre nela e no que sentiria ao ver esses traços cravados na minha vida.
AlĂ©m de escrever bem, ela adorava os livros. Uma vez, recebeu na nossa casa um autor de livros didĂĄticos. O nome dele era Davi MĂĄrcio. A mĂŁe passou uma hora com as filhas na sala avisando sobre boas maneiras. Parecia que um rei estava prestes a chegar na nossa casa para o almoço. O autor veio de Belo Horizonte. Para a mĂŁe, que detestava a conversa sobre futebol em torno da cerveja lerda que deixava melosa a fala grossa dos homens, aquele encontro de estĂmulo intelectual foi uma espĂ©cie de ĂĄpice. Tanto foi que ficou como fragmento na minha memĂłria de um dia que vi minha mĂŁe feliz; nĂŁo se desfez.
Quando ela morreu, deixou inĂșmeras caixas com escritos.
Meu pai me esperava chegar em Guarani para organizar os livros, as pastas, as caixas de papel. âNĂŁo joga nada fora, espera eu chegar.â Tudo intacto coberto por uma grossa camada de tempo. Cartas minhas com pedidos de desculpas, promessas de daqui pra frente, sonhos pulsando, frases tolas âmĂŁe, ninguĂ©m aqui fala com o sotaque que aprendi. Ă super diferente. A diferença, mĂŁe, Ă© que o âaâ demora. NĂŁo Ă© caipira. NĂŁo se fala paRk, se fala paaahkâ.
Eu lia enquanto segurava o pedaço de papel cheio de notĂcias ingĂȘnuas. O recibo da lua de mel dos meus pais no Hotel Regina, no Flamengo, na virada do ano, antes de seguirem para a ilha de PaquetĂĄ. Gastaram na adega, notei. Fiquei feliz por eles â vinho, uma noite de amor, o PĂŁo de AçĂșcar em sessenta e nove, o ano, naturalmente.
Havia livros da faculdade de direito de uma irmĂŁ, de alimentos da outra irmĂŁ. DidĂĄticos, âquem vai querer isso, pai? Ensinavam tudo errado pra gente. Educação Moral e CĂvica. Joga fora ou guarda pra museu?â.
No meio disso tudo, o dicionĂĄrio verde de inglĂȘs, capa dura. Achei jogado na casa dos meus avĂłs, aos 8 anos. Abri e nĂŁo entendi. Por isso quis ficar com ele. Minha irmĂŁ me disse que era inglĂȘs. Vou falar inglĂȘs. Quem serĂĄ que fala inglĂȘs? SerĂĄ que tem alguĂ©m no mundo que vai falar inglĂȘs comigo um dia? Camiseta nova de Natal. Escrito âeasy loveâ. JĂĄ sei o que Ă© love. TĂĄ marcado no dicionĂĄrio verde.
No dia da arrumação dos livros da mĂŁe, vejo tambĂ©m pequenos ensaios meus de futuro, prenĂșncios. Abri o dicionĂĄrio na letra L e lĂĄ estava, hĂĄ mais de trinta anos, um cĂrculo e uma observação na âpalavra mais importanteâ. Aos 8 anos o livro dos burros me ensinava. Eu era boba ou esperta demais.
Na mesma pĂĄgina o nome âLouisâ â essa vida Ă© mesmo doida â, num cĂrculo como uma bola de cristal, contornado e circundado como um corpo feito de amor. Ao ouvir âI love youâ, meu corpo se derrete como se ouvisse âeu te amoâ.