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A descoberta da ilha Qeqertaq Avannarleq, o lugar mais ao norte do planeta, mesmo com o norte fazendo as malas para outras paragens
Ilustração: Denise Gonçalves
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02/09/2021

Leio no jornal que uma expedição de cientistas descobriu uma ilha nova.

A ilha destitui Oodaaq, próxima dali, como o lugar mais ao norte do planeta. Tem 60 x 30m e foi formada pelo acúmulo de lama e sedimentos de geleiras.

Ou seja, é um prédio no Tártaro, precisando de faxina. Os apartamentos são pequenos, não tem vaga e a Amazon não entrega, mas a vizinhança é silenciosa e tem uma vista linda. Talvez os vizinhos queiram te comer, mas pelo menos eles não escutam sertanejo no domingo de manhã.

A destronada Oodaaq, segundo Google, significa “de saibro” e fica perto da minha ilha favorita de todos os tempos, Kaffeklubben (clube do café).

Em uma inegável demonstração da criatividade dos cientistas-descobridores, a novinha recebeu o nome de Qeqertaq Avannarleq, que significa “ilha mais ao norte”.

Como se não bastasse, descobriram a ilha por engano. Eles pensaram ter chegado a Oodaaq (descoberta em 1978). Estou muito surpresa por não terem trocado espelhinhos com as focas dinamarquesas.

Muitas questões surgem a partir desse descobrimento.

A primeira questão é a mais óbvia: ainda é possível descobrir territórios novos nesse planeta? Eu podia jurar que tínhamos tantos satélites sobre nós que eu seria presa em flagrante caso decidisse plantar um vasinho de cannabis na varanda. Coisa pequena, ali ao lado do coentro. Pergunta hipotética, claro. Pergunto para um amigo. É para o meu TCC.

A segunda é a noção de norte. E nem falo em termos socioculturais, não. No assunto, recomendo o artista Joaquín Torres García e sua genial América invertida (1943). Falo sobre a parte magnética mesmo, a direção para onde aponta a agulha imantada da bússola. Segundo uma equipe de pesquisadores da Universidade de Leeds, na Inglaterra, o eixo magnético da Terra está migrando do Canadá para a Rússia. As mudanças na direção do campo magnético atingem até 1 grau por ano. Difícil defender o cara que abre mão de um Justin Trudeau por um Vladimir Putin, mas é o suficiente para questionar se a ilhota está mesmo no ponto mais ao norte porque, bem, porque o norte fez as malas e se mudou.

A terceira questão é se isso significa que ainda podemos ter esperança em encontrar vida inteligente no Palácio do Planalto. Lama e sedimentos nós já sabemos que tem. Talvez esteja na hora de comprar um barquinho.

A última questão é pessoal. Eu uso o GPS no caminho que faço todo santo dia, ida e volta. Esse trajeto, quero crer, sou capaz de fazer sem guia. Mas e o pânico de encontrar algum desvio, algum impedimento, e ser obrigada a entrar em uma rua desconhecida? Vou parar em Madagascar. Tenho o senso de direção de um ouriço bêbado. Os caras vão lá, entram num barquinho no meio do gelo e sem nem sequer um Starbucks para usar como ponto de referência, descobrem terra nova em 2021.

Nunca me senti tão incompetente.

Carolina Vigna

Doutora em Educação, Arte e História da Cultura, é escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

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