Era um jantar comum, de dia de semana, quando chegou Ă mesa a comida de Lia. âHoje tem inhameâ, a mĂŁe anunciou. Foi o suficiente. A menina desembestou a gargalhar, numa estridĂȘncia que nunca havĂamos presenciado. âInhameâ, eu repeti. Ela reiniciou a crise de riso. âInhame.â Mais uma vez.
Com menos de dois anos de idade, minha filha obviamente nĂŁo distinguia significante ou significado, esses termos rebuscados da LinguĂstica. A graça, ali, era mesmo o som da palavra, que a pequena tentava reproduzir abrindo ainda mais a vogal âaâ para entĂŁo rir novamente, agora de si mesma.
Nossa relação com as palavras tem dessas coisas. Nem sempre o afeto dispensado a um vocåbulo estå ligado àquilo que ele nomeia. Pode vir da sonoridade, de uma rima interna, de seus subtextos.
Em 2009, ao lado do escritor portuguĂȘs Jorge Reis-SĂĄ, organizei uma antologia chamada DicionĂĄrio amoroso da lĂngua portuguesa. O livro reunia textos de 35 autores de diferentes paĂses em que vigora o nosso idioma. Cada qual escolheu sua palavra preferida e, a partir dela, criou um conto, poema ou pequeno ensaio.
Lembro do âdesertoâ de Tatiana Salem Levy, da âpoeiraâ de Francisco JosĂ© Viegas, da âsandĂĄliaâ de Ondjaki. TambĂ©m do poeta Paulo Henriques Britto com seu âpetelecoâ. Da âneveâ de Amilcar Bettega e de âcalicatriâ, termo que JosĂ© LuĂs Peixoto inventou â afinal, o escritor tambĂ©m Ă© um criador de palavras.
Esses vocåbulos ecoam num escaninho da memória no qual o inhame perde a materialidade do tubérculo para se transformar num enunciado: a alegria.
No DicionĂĄrio amoroso, Henrique Rodrigues elegeu a palavra âvocĂȘâ. Perguntado, treze anos depois, sobre qual indicaria hoje, dobra a ficha. âĂ a palavra contra a solidĂŁo por excelĂȘnciaâ, justifica. Marcelino Freire tambĂ©m repete a escolha. No caso dele, um substantivo autorreferente: ââPalavraâ Ă© a palavra. Porque tem lavra, tem chĂŁo, tem terra, tem pĂĄâ.
Fiquei curioso em saber os termos que outros autores incluiriam em seu Ăntimo dicionĂĄrio. Via Whatsapp â mensagem pra lĂĄ, mensagem pra cĂĄ â, o papo seguiu.
Alguns optaram pelo sentido. Houve quem preferisse a conjunção de fonemas. Na maioria das vezes, porém, essas duas qualidades se fazem presentes ao mesmo tempo.
Xico SĂĄ, por exemplo, destaca a sonoridade de âcafunĂ©â. Que, alĂ©m de tudo, traz a ideia de dengo, de carinho. JessĂ© Andarilho prefere a ambiguidade do termo âvendoâ. Ver ou vender? Ambos.
Para Cintia Moscovich, nĂŁo existe palavra mais bonita do que âauroraâ. âHĂĄ uma chuva de vogais que se abrem: o âaâ e o âoâ , mediados pela semivogal que Ă© o âuâ. E quer coisa mais linda que a aurora?â, indaga.
Giovana Madalosso pede um tempinho pra pensar e entĂŁo revela nĂŁo ter uma palavra predileta. Muda de tempos em tempos. A atual, contudo, Ă© âamplexoâ. Tanto pelo som, quanto pela sugestĂŁo âde onde partem os melhores abraçosâ: âAntes do plexo do que da cabeçaâ.
A poeta Luiza Mussnich fica em dĂșvida entre âcafunĂ©â e âabismoâ, mas acaba se decidindo pela segunda. âNĂŁo Ă© de uso corriqueiro, desnuda o sotaque do falante, quase nos faz olhar para baixo num reflexoâ, argumenta. E, de lambujem, nos traz um segundo termo, decorrente do substantivo. A expressĂŁo âabismar-seâ, que remete a surpresa, arrebatamento. âEstar diante de um abismo Ă© perigoso; mas a vista do precipĂcio pode ser belĂssimaâ, resume.
JĂĄ Luisa Geisler Ă© tĂŁo convicta quanto Ă sua preferida que a transformou em tĂtulo de livro. No vocĂĄbulo âquiçåâ, ela ressalta o sentido, a cedilha e o acento, que formam uma âprecisa simetriaâ. Luisa evoca ainda o significado, originĂĄrio do Latim âqui sapitâ (âquem sabeâ). Pra finalizar, cantarola em espanhol: âquizĂĄs, quizĂĄs, quizĂĄsâ.
Gustavo Pacheco chega Ă conversa com um diminutivo. âDevagarinhoâ, diz, Ă© uma palavra que dificilmente alguĂ©m pronunciaria com raiva ou aos gritos. âPelo contrĂĄrio, em geral ouvimos uma voz baixa e carinhosa.â Ele sublinha igualmente o som nasal, âtĂŁo gostoso e tĂŁo peculiar da LĂngua Portuguesaâ.
Outro que forma no time dos cultores do diminutivo Ă© SĂ©rgio Rodrigues. Perguntado sobre sua palavra predileta, nĂŁo hesita: âCaipirinha”. “E olha que eu digo isso sĂłbrioâ, faz questĂŁo de advertir. Cachaça e limĂŁo a parte, SĂ©rgio recorda a provĂĄvel origem tupi do termo âcaipiraâ. âHĂĄ quem diga que se relaciona com curupira e caipora. AlĂ©m disso, dĂĄ nome a um produto nacional reconhecido no mundo inteiro e, que nĂŁo menos importante, Ă© uma delĂcia.â Deu atĂ© sede aqui.
Como se tivesse ouvido lĂĄ da Tijuca o convite, Luiz Antonio Simas senta-se Ă mesa e traz a reboque a âzabumbaâ. âAdoro a mĂșsica que o vocĂĄbulo guarda. Uma delĂcia falar e cantar zabumba, lambuzando esse âbumâ com gostoâ, ressalta, antes de evocar a antropĂłloga LĂ©lia Gonzalez: âĂ um termo da âlĂngua pretuguesa.ââ
A mesma onde Eliana Alves Cruz foi buscar âdengoâ. âUma palavrinha cremosa, que derrete na bocaâ, diz. E que tem sabor de infĂąncia, eu acrescentaria, assim como o âazulâ de Edimilson de Almeida Pereira. Seu pai tinha passarinhos em casa e ele, criança, adorava um azulĂŁo que cantava na varanda, entre antĂșrios e samambaias zelosamente cuidados pela mĂŁe. âEssa atmosfera de azul, canto, pai, mĂŁe, plantas na varanda sempre me volta Ă lembrançaâ, conta o romancista e poeta.
Foi tambĂ©m na meninice que Socorro Acioli descobriu que âlumeâ significa âfogoâ e, influenciada pela tia entomĂłloga, se apaixonou por uma palavra âque se movimentaâ: âSe eu disser âvaga-lumeâ, jĂĄ acho que tem uns dez aqui na minha cabeçaâ.
Terminada a conversa com meus colegas escritores, tĂŁo marcada por esses reflexos da infĂąncia, perguntei Ă Lia se lembrava da histĂłria do inhame. Que nada.
Hoje, aos seis anos, ela jĂĄ nĂŁo ri ao ouvir o termo. Inhame se tornou apenas um alimento. Mas hĂĄ, como vimos aqui, vocĂĄbulos que atravessam a vida, sĂŁo ressignificados, se dobram, abrindo janelas para o mundo. Penso na resposta do romancista Antonio Torres, 81 anos, 18 livros publicados, nascido na aridez do sertĂŁo baiano. Quando lhe fiz a pergunta sobre a palavra mais querida, ele respondeu de pronto: âMarâ.