Desmemória pandêmica

A esquisita sensação de pesadelo e euforia oferecida por um difícil período fúnebre, no qual os dias se arrastam sem grandes novidades
Ilustração: Bruno Schier
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14/09/2021

Em algum momento desses dias meio iguais, uma pessoa me disse algo e eu tive a sensação de ter uma lembrança de longo, longuíssimo, tempo atrás. Não era. Fazendo as contas precisas, tinha sido algo em 2019, pré-pandemia, portanto, e minha memória já estava fortemente afetada pela demora psicológica dessa vivência intensa de crise sanitária e isolamento social (sim, porque o que andei fazendo não foi só distanciamento).

Tenho sentido o tempo de um jeito diferente, como se fosse algo mais alargado, os minutos mais extensos, as horas arrastadas, os dias idênticos, os anos como se fossem aos pares ou aos trios. Não sei se isso explica bem, mas é uma sensação, mais do que um fato contável. Não chega a me desesperar, mas causa um mal-estar notável. A única coisa — e ruim — que tem diferenciado os dias da semana dos sábados e domingos é a música alta e péssima que vem do bar sem noção da esquina, nestes dois dias que entendo serem de descanso. Isso, sim, sinto sempre, e chega a me dar certa saudade do dono anterior da birosca, aquele que tinha muito mais senso de coletividade.

Afora isso, que me atordoa sempre, não sinto saudade alguma de quase mais nada. Às vezes me perco em pensamentos meio esperançosos, querendo um futuro (esse, sim, me interessa) melhorzinho, diferente do que foi o passado recente. Logo essa esperançazinha passa e cede lugar a um sentido mais real das pessoas, das relações, da rua, das cidades maiores, do governo do país, do convívio. Melhor prestar atenção aos cães latindo e à buzina do vendedor de pão que passa de bicicleta há anos, ajudando a formar esse quadro imutável da vida num bairro antigo qualquer.

Desmemória
Esqueci algumas coisas durante a pandemia. Por exemplo: não sei mais usar sapatos fechados. Eram só o que eu usava na vida, para o pesar dos meus pés tímidos. Trabalhando (e muito) de casa, passei a ficar descalça ou de chinelos, a maior parte do tempo, sem a perspectiva de me calçar completamente novamente. Ocorre que, dias atrás, precisei sair para uma tarefa incontornável qualquer, e tive de me calçar. Meus mindinhos pareciam ter crescido! Até tirei os sapatos novamente para ver bem. Será que esses dedos incômodos sempre estiveram aí? Não é possível! Como eles cabiam no sapato antes? Ou o calçado encolheu nesses meses sem uso? Insisti e me dei mal. Os mindinhos em questão voltaram para casa ralados, quase com bolhas, vermelhos, ardendo. Esqueci como me calçar sem ter um problema em seguida.

Por outro lado, andei sentindo prazeres localizados que não sentia antes. O consumo de ovos aumentou demais em casa, decorrência clara das tragédias da economia do país, mas também um desejo súbito de comer mais proteína. Num almoço qualquer, resolvi fritar um ovo estrelado, daquele com a gema bem inteirinha no meio. O prazer que senti ao, propositadamente, furá-la sobre o arroz é indescritível. Ver aquele visco amarelo tingindo os grãos brancos em cima do prato, molhando cada bago intumescido, essa visão me deu água na boca. Abocanhei esse arroz-com-ovo com a alegria de criança e seu bolo de aniversário. Data, aliás, que passou sem que eu pudesse planejar muita coisa. Do que sei e digo é que: foi sem aglomeração.

Vade-retro
Como nunca fui pessoa dada ao toque desnecessário, o distanciamento social não me aflige. Durante a pandemia, raramente senti pesar por não poder abraçar alguém. Senti, é claro, que nem sou essa desnaturada completa, mas normalmente não sinto falta da beijação. Importante lembrar que sou mineira residente, e por aqui o costume é o de dar três (!) beijinhos quando se conhece ou encontra alguém. Na adolescência, OK, pode ter alguma serventia, em especial nas paqueras, mas na vida adulta… é um peso, um inconveniente. Isso sinto eu, com meu direito de achar.

Então essa saudade de aproximação me parece um exagero de quem anda nostálgico com a vida pré-crise. Aquela reverência com o olhar, com a cabeça ou com as mãos é bem suficiente para o cumprimento, em especial de gente pouco íntima. Desse jeito, cumprimento todo mundo na padaria, na farmácia e no supermercado, sem grandes incômodos. Na época da beijação, eu sofria um pouquinho. Isso sinto eu, de cá do meu canto de tímida social.

Fui daquelas que se incomodavam muito com gente que toca o braço, que fala investindo o rosto contra o meu, que conversa quase nariz com nariz. Eu era dessas pessoas que vão dando um, dois, três passinhos atrás. Parecia uma esgrima deselegante. Hoje já posso me considerar o “normal”. Aquela abanada de mão a dois metros parece, agora, conscienciosa e inteligente. Acho que chegou a nossa vez, irmãos e irmãs reservados(as)!

Retorcidas
Enfim, a pandemia me retorce as horas, como aquele relógio do Dalí, me dá uma sensação esquisita de pesadelo e euforia. O pesadelo tem a ver com esse sentimento de um tempo que se repete, que não nos deixa sair do lugar; a euforia é intermitente, troca de lugar com a tristeza, uma espécie de bipolaridade esperançosa/pessimista, que brinca comigo dia após dia. Talvez sejam elas as marcadoras do passar dos meses. Horas retorcidas, experiências exageradas ou insensíveis, noções suspeitas de tudo e de todos. E pior: seguindo rumo a sabe-se lá o quê. Prato cheio para uma virginiana planejadora. Desmemória incômoda e marcante.

Ana Elisa Ribeiro

Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1975. É autora de livros de poesia, conto e crônica, tendo estreado com um volume de poemas em 1997. É colunista fixa do Digestivo Cultural desde 2003 e da revista Pessoa desde 2017. Publicou dois livros de crônicas reunidas: Chicletes, Lambidinha & outras crônicas (2012) e Meus segredos com Capitu (2013). É professora do Cefet-MG, doutora em Estudos Linguísticos pela UFMG.

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