Carnaval com chuva. Nina nĂŁo está nem aĂ. Ela nĂŁo se importa se tem bloquinho, se Ă© carnaval, se está chovendo, se o mundo está acabando. Nina quer sair, pegar bola, espantar pombo e latir para outros cachorros. Prioridades, humana, prioridades. Eu cedo, como sempre, e saĂmos. Guarda-chuva, headphones, botas e seja o que deus quiser.
Passeio curto. Mais pela ausĂŞncia de pombos para assustar do que pela chuva em si. Em casa, seco Nina com uma toalha, faço um cafĂ© e começo o dia com uma rarĂssima saudade do Rio de Janeiro. Carnaval com chuva Ă© uma instituição carioca.
O cachorro da minha infância se chamava Joaquim e era, disparado, o quadrĂşpede mais inteligente que já conheci. Ouso dizer que era inclusive mais esperto que alguns membros humanos da famĂlia. Joaquim tambĂ©m odiava pombos.
Curti bloquinho atĂ© entrar na adolescĂŞncia, em uma Ă©poca em que era possĂvel que as crianças saĂssem com os amigos e apenas com os amigos. Eu sou velha o suficiente para ter brincado na rua e ter podido andar pelo bairro de bicicleta e cachorro.
Em um carnaval qualquer, Joaquim e eu nos perdemos do bloquinho em uma rua estranha e eu entrei em pânico. Felizmente uma vizinha nos viu e estou aqui para contar a história. Até hoje tenho pesadelos de não conseguir voltar para casa. Praticamente cinquenta e dois anos e waze na cara e ainda tenho medo de, um dia, me perder o suficiente para não encontrar o caminho de volta.
Googlei para descobrir o nome dessa fobia – certamente existe – mas não encontrei. “Chama-se bom senso”, diz o meu cérebro no modo autodefesa. Uma das grandes vantagens da velhice é que a gente reconhece quando está sendo irracional ou ilógico.
Eu andava com os meninos. As brincadeiras eram mais legais e eles eram, aos meus olhos, mais livres. Desci ladeira de carrinho de rolimã e pulei o muro da escola para pegar manga. As minhas amigas meninas não podiam fazer nada disso e agradeço profundamente à educação não-sexista que tive por não ter um monte de recalques hoje.
As crianças eram umas pest… Digo, as crianças eram crianças. TĂnhamos uma noção muito clara sobre o que farĂamos quando adultos. Como vou criar meus filhos, no que vou trabalhar, onde e com quem vou viver, etc. Essa era uma conversa recorrente. Éramos um bando muito engraçado, capaz de passar, em instantes, de considerações importantes como essas Ă s estratĂ©gias necessárias para vencer o time do outro prĂ©dio no queimado.
Quando decidimos criar a nossa escola de samba, éramos seis meninos, quatro cachorros, cinco bicicletas, dois skates, uma bola, uma pipa e eu. Logo, fui eleita como porta-estandarte. O tamanho do meu descompasso e falta de ritmo é tal que, mesmo sendo a única menina, perdi o cargo no ano seguinte. Felizmente, não perdi os amigos que, bem humorados, vestiram um dos meninos mais magricelas com o vestido da irmã e lhes entregaram a bandeira improvisada da escola.
Nossa escola de samba ainda durou ainda mais um ano, somando trĂŞs ao todo, e arrefeceu quando entramos no ginásio e começaram a surgir namoros, idas ao cinema e passeios românticos que excluĂam aquele bando desordenado de visigodos que chamávamos de amigos.
De vez em quando fico sabendo de um ou de outro. Hoje, todos casados, filhos, outros cachorros. Talvez olhando a mesma chuva pela janela e lembrando da época em que chuva era só uma desculpa para derrapar de propósito com a bicicleta. Como diz a música do The Road Hammers, i’ve got the scars to prove it. E essa é uma afirmação polissêmica.
E que comece o ano.