🔓 Azuis e vermelhos

Os encontros com amigos que trazem alguma esperança e leveza ao cotidiano
Ilustração: Thiago Lucas
28/07/2022

Sentamos no café bem embaixo de uma figueirinha-roxa.

Uma folha vermelha caiu sobre a mesa.

De repente o caboclo designer se apossou do meu corpo e, como na época em que eu ainda trabalhava com isso, guardei a folha para digitalizar em alta resolução depois. Achar imagens e texturas desse tipo na internet é fácil, mas aí a sua arte fica com aquela cara pasteurizada de quem também procurou no Google. Hoje, digitalizei apenas por motivos de belezura, sem qualquer utilidade concreta. Fiquei contente comigo mesma. Não pelo senso de oportunidade mas, ao contrário, por conseguir viver uma vida menos prática.

O encontro, que poderia ter sido com o passado – à mesa contamos com quem me pegou no colo –, foi, felizmente, com o futuro. Contei sobre a pesquisa do pós-doc e seus olhos brilharam. Falei sobre cartografia, tecnologia, literatura e outras viagens, encontrando no meu interlocutor o carinho de quem, como eu, vive com a cabeça nas nuvens.

Meu amigo, aos bem vividos quase-noventa anos, se entusiasma com grafos relacionais, mapas digitais, relações em camadas, literatura comparada e todas as outras loucuras em que me envolvo. Drogas pesadas. Não que eu precise de algum tipo de aprovação ou benção sua, mas a ternura com que recebeu as novidades que eu tinha para contar me conforta e me impulsiona.

Minha amiga me presenteia com livros que escreveu e publicou durante a pandemia. Me sinto menos sozinha por também ter encontrado no trabalho a tábua de salvação para manter o pouco de sanidade mental que me restava, durante esses dois anos que não existiram.

Me dou conta de que vivemos um biênio ficcional. Ainda vamos demorar muito tempo para elaborar o que foram esses anos. Freud que me perdoe, mas recordar e elaborar com a esperança de não repetir.

Meus amigos falam sobre cinema, teatro, livros, uma vida cultural rica e heterogênea. Falamos mal do atual governo e prometemos trocar receitas sem glúten. Bom mesmo seria receitas sem o atual governo, mas fazemos o que dá.

O cachorro me pede carinho. Namorado vai caçar um café. Minha amiga sorri e me conta dos netos. Chego até a acreditar que a paz é, afinal, possível.

Céu de brigadeiro, um azul que dói.

E a folha vermelha ali, desafiando o pragmatismo do planeta.

Carolina Vigna

Doutora em Educação, Arte e História da Cultura, é escritora, ilustradora e professora. Crítica de arte associada à ABCA. Atualmente em pós-doutoramento em Letras pela PUCRS. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho