Admirável Natal Novo

Aldous Huxley viveu e morreu como quis e, para mim, essa é a mais importante medida de uma vida plena. É meu objetivo, meu norte
O britânico Aldous Huxley
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24/12/2020

Em uma véspera de Natal como essa, Aldous Huxley tomou LSD pela primeira de muitas vezes. O ano era 1955 e, portanto, estamos falando de um ano muito diferente do que temos hoje. A última vez foi aos 69 anos de idade, ao morrer, em sua casa, no dia 22 de novembro de 1963.

Eu não sou fã de LSD. Na verdade é o famoso não comi e não gostei, já que nunca usei. E não é essa a questão, veja bem. Falo aqui da liberdade de escolha. Eu escolho não usar LSD. Esse é um direito que me pertence. O que eu não tenho é o direito de escolher por outra pessoa.

Respeito quem consegue — desde que sem prejudicar outros — fazer o que bem entende de sua própria vida, corpo, mente, consciência, percepção, libido etc.

Huxley viveu e morreu como quis e, para mim, essa é a mais importante medida de uma vida plena. É meu objetivo, meu norte. Até agora, estou indo bem. Não que os percalços da vida me tenham sido leves, muito pelo contrário. Estou indo bem porque consigo conduzir a vida na direção que quero.

Esse querer, obviamente, não é imutável.

Já quis, por exemplo, ser bióloga.

Décadas atrás, quando ainda tinha essa ilusão e cursava biologia, não contive o piti de pânico quando entrou uma barata voadora pela janela. Infelizmente, com testemunhas. Com a ausência de cerimônia que só as pessoas mais íntimas têm, uma amiga diz “bióloga de merda”. Ela tinha razão. Nem tanto pela Blattaria Volantes que entrou sem permissão, mas pelo conjunto da obra. Fala sério, quem não foge de uma barata voadora?

Pensando bem, a década de 1950 foi marcada por revoluções comportamentais. Foi um período que contou com Elvis Presley, Little Richard, Charles Chaplin, Marcel Duchamp e Gene Kelly.

No Brasil, no finalzinho da década, Jânio Quadros proibiu o rock and roll. É o velho pensamento de que é possível simplesmente proibir aquilo que nos desagrada. Deu super certo a proibição, como vocês podem perceber.

Talvez a gente não esteja tão distante assim do Huxley.

Está mais do que na hora de começarmos a conduzir nossas vidas como queremos, pararmos de tentar proibir o rock and roll e abraçarmos logo de uma vez esse admirável novo normal.

Carolina Vigna

Doutora em Educação, Arte e História da Cultura, é escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

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