A péssima mãe

A filha conhece a mãe pelo barulho do teclado ao escrever um novo livro
Ilustração: Carolina Vigna
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18/05/2021

A minha filha me diz que sabe quando estou escrevendo um livro por conta do barulho que faz o teclado do computador.

Como? – eu quis saber.

“Quando você escreve livro, você bate as teclas por alguns segundos sem parar, super rápido. Daí, para durante vários segundos. Às vezes, você para por minutos. Daí, volta com toda força no teclado, e várias vezes eu escuto aquele barulho repetitivo de quando você errou e volta pra apagar. Eu sei quando você está escrevendo um livro porque você passa um tempão pensando e errando.”

Eu postei essa conversa no Facebook, outro dia e fiquei pensando sobre os vários significados inseridos nesse diálogo. A primeira coisa que eu penso é na observação aguda da minha filha. Fiquei um pouco atônita: por que ela não se ocupava de alguma coisa dentro do mundo dela, em vez de coreografar meus movimentos no teclado? Será que se sente sozinha enquanto eu me enrolo aqui nesses afazeres entre palavras que nunca me servem por completo?

Acontece que no mundo dela estou eu. São incontáveis as vezes que me frustro diante da apatia dos meus filhos quando começo a falar de literatura. Já me pediram, inclusive, para dar um tempo que ninguém aguentava mais ouvir sobre a limitada interpretação e aplicação de Romeu e Julieta. Já sabiam que Lady Macbeth não é a vilã que pintam. Mas eu, neste meu mundinho particular de delírio, continuo falando, ainda que para as paredes.

Assim eu imaginava. Até que minha filha me manda notícias: mãe, estou te vendo, estou te ouvindo, estou te entendendo. Pode não parecer, mas estou. A identificação do ritmo da minha escrita foi curiosa. Mas mais profundo ainda é essa tradução do exercício de escrever. O pensamento e o erro como minhas ferramentas inegociáveis de criação. Como pode existir autor tão seguro das suas certezas? Meu alicerce é esse constante equívoco, uma insatisfação prolongada que, por vezes, demora tanto que acabo desistindo dela e envio o texto ao seu remetente. Minha filha parece ter acertado em cheio nessa definição. Eu mesma nunca consegui formular tão satisfatoriamente esse conceito do que é escrever.

Ainda assim, essa atenção dela em relação a mim me perturbou. Há pouco tempo, ouvi um debate. Uma convidada falava da culpa que carrega como mãe enquanto escolhe escrever em vez de passar tempo com os filhos. Eu que não carrego essa culpa me senti culpada por não sentir culpa. Quando meus filhos nasceram, eu já estava aqui. E se há sempre um ajuste meu para me entender como mãe, vem existindo da parte dos meus filhos uma observação atenta para a questão de terem como mãe um indivíduo.

Outro dia minha filha queria bater papo. Achei inteligente a forma com a qual ela deu início à conversa: “mãe, você já ouviu falar em Oscar Wilde? Estou lendo na escola The importance of being Earnest. Vamos falar sobre isso?”.

Nara Vidal

É mineira, formada em Letras pela UFRJ e Mestre em Artes pela London Met University. É escritora, tradutora e editora. Autora de livros infantis e ficção adulta. Seu romance de estreia, Sorte (Moinhos), traduzido na Holanda, foi um dos vencedores do Prêmio Oceanos em 2019. Seu livro mais recente é a coletânea de contos Mapas para desaparecer (Faria e Silva).

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