A perda progressiva das viagens

Quando o passeio com a cachorra que late durante um minuto para uma tartaruga se torna o acontecimento mais emocionante do dia
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06/04/2021

Minha cachorra se aproxima do laguinho imundo do parque e abaixa as patas da frente para aproximar o focinho da água. Penso em gritar para que ela saia, mas sei que seria inútil. Deixo que ela tome a água fedida do laguinho em vez da água que acabo de servir do bebedor num pote que carreguei desde a minha casa para nada. O filhote de vira-lata com quem a minha cachorra estava brincando até agora vai atrás dela. Ele também dobra as patas, mas ainda não conhece o próprio corpo e, quando inclina a cabeça para a água, perde o equilíbrio e capota para dentro do laguinho. Rio alto; mas sou a única. O dono do filhote passa por mim correndo e vai gritar atrás do cachorrinho, que a essa altura já voltou para a terra e está esfregando as costas num monte de folhas secas.

Antes do dia acabar, conto essa história para pelo menos quatro pessoas. É a coisa mais emocionante que aconteceu no meu dia.

Conquiste a atenção imediatamente! Você precisa agarrar o leitor em segundos. O primeiro parágrafo é sempre o mais importante.

Faz alguns dias encontrei um antigo caderno no qual eu tinha feito anotações durante um curso de travel writing. Não sei por que chamava travel writing em vez de escrita de viagem, mas acho que as coisas eram assim em 2008. Tampouco lembro qual era meu objetivo, exatamente. Olho para as anotações e elas parecem pertencer a outro século; também a outro planeta.

Certifique-se de ter um propósito. Algumas viagens têm um objetivo físico, como chegar ao cume do Kilimanjaro, outras podem ter um objetivo espiritual ou metafísico.

Viajar sempre foi uma parte importante da minha vida. Quando criança, meus pais colocavam os três filhos no carro, a barraca imensa no bagageiro e o resto dos aparatos de acampamento num reboque. Chegávamos a passar um mês inteiro em campings. Suponho que o tamanho generoso da barraca e nossas diferenças de idade (quando minha irmã caçula ainda era uma criança de seis anos, meu irmão mais velho já era um adolescente de quinze) tenham contribuído para garantir nossa geral sobrevivência nessas aventuras: nunca nos matamos entre os irmãos, nem meus pais se divorciaram.

Mais tarde, como era de se esperar, quis viajar sozinha. Somando diferentes períodos, passei mais de três anos com a vida organizada para caber dentro de uma única grande mochila. Isso agora também parece pertencer a outro século e a outro planeta. A pandemia não acabou apenas com as viagens, mas também com a deriva na própria cidade. Voltei a Porto Alegre há mais de oito anos e, subitamente, numa terça-feira qualquer, não consigo me lembrar das cores do céu na orla da zona sul ou do cheiro do Mercado Público.

Inclua detalhes sensoriais. Seja específico. Mostre, não descreva.

A antiga geografia do meu bairro: no meio da tarde, era possível ouvir o recreio do colégio atrás do meu prédio. O passeio das manhãs de domingo eram os preferidos da minha cachorra porque, na rua dos bares, ela encontrava restos de salsichas e pastéis caídos na sarjeta. No caminho até o parque, eu parava para cumprimentar a dona da creche, o guardador de carros, o pessoal da livraria, o bêbado na esquina da avenida e o pessoal da manutenção do parque. Todos eles andam sumidos.

Tente uma abordagem cinematográfica.

A atual geografia do meu bairro: a câmera faz um travelling até o fim da quadra, mostrando a casa alugada por meia dúzia de homens que estão fazendo churrasco enquanto se estiram em cadeiras de praia. A câmera não se demora, abrindo um panorama para a esquerda, e os espectadores podem ver os bares proibidos de receber clientes para consumo no local; eles vendem cerveja em copos de plástico e as pessoas estão de pé em rodinhas que ocupam toda a calçada. Ninguém usa máscara, e a câmera se afasta devagar. Corta para uma quadra adiante, a câmera fecha o zoom na esquina da morte: um lockdown poderia ser decretado por Deus e aqui ainda haveria um grupo de homens – velhos, todos eles velhos – sentados a uma mesa minúscula de metal, bebendo e fumando uns nas caras dos outros.

Pense numa proposta, como por exemplo: “Um salto no desconhecido” ou “Fazendo uma conexão local”. Inclua diálogos.

– Tudo bem?

– Tudo bem, dentro do possível. E tu?

– Tudo bem. Dentro do possível.

(Repetir até o fim dos tempos.)

Exponha-se mais do que você gostaria: para escrever artigos de viagem, é necessário se abrir.

No começo eu me preocupava se outras pessoas faziam carinho na cachorra. Os animais podem ser superfícies de contaminação, disseram alguns especialistas em algum lugar. Nunca mais pensei no assunto. É cada vez mais frequente que eu esqueça de limpar as patas dela na volta para casa. Já não me alarmo com isso. Faz umas semanas, ela encontrou uma tartaruga na grama do parque. Ficamos ali, e ela latiu para a tartaruga talvez ao longo de um minuto inteiro. Observei e esperei. Aquele também foi o acontecimento mais emocionante do dia.

Edite sua experiência para caber na história. Não perca tempo e não desperdice caracteres. Não há espaço para desvios.

Nesses dias tão parecidos, eu trocaria milhares de caracteres por um desvio.

Julia Dantas

Nasceu em Porto Alegre (RS). É editora, tradutora e doutoranda em Escrita Criativa pela PUCRS. É autora de Ruína y leveza (Não Editora, 2015) e organizadora de Fake Fiction: contos sobre um Brasil onde tudo pode ser verdade (Dublinense, 2020).

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