A lúdica falta de inspiração

Aos 70 anos, o contista mineiro Francisco de Morais Mendes fala sobre criação literária, liberdade e os prazeres da leitura e da escrita
Francisco de Morais Mendes, autor de “A bala dos desarmados”
01/11/2026

Natural de Belo Horizonte (MG), Francisco de Morais Mendes, 70 anos, estreou na literatura em 1996, com o livro de contos Escreva, querida. Três décadas depois, em 2026, publicou seu primeiro romance, Porto Caeiro, disponível por enquanto apenas em formato digital. Autor de cinco coletâneas de contos, recebeu neste ano o Prêmio Academia Mineira de Letras por A bala dos desarmados (2025), seu décimo prêmio literário. Sua ficção explora a irrupção do absurdo no cotidiano e, mais recentemente, também as tensões da vida política. Neste Inquérito, fala sobre suas leituras, seus hábitos de escrita e a liberdade da literatura, que, para ele, não deve ter limites.

• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Na adolescência, depois de ler A metamorfose, de Franz Kafka. “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.” Esta frase mostra que a literatura pode tudo. Eu tinha 16 anos e já escrevia poesia. Mas só aos 18 anos troquei a poesia pela prosa.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Nunca terminar de ler um livro sem ter começado a ler outro. Pensar em literatura todos os dias. Ler ao menos um ensaio sobre literatura ou filosofia por mês. Mania de anotar os títulos que leio e o número de páginas.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
A poesia de Carlos Drummond de Andrade.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Lula, qual seria?
Depois da experiência do presidente Lula como leitor na prisão, pediria a ele para me indicar alguns livros. Mas eu indicaria um: Escute as feras, de Nastassja Martin.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Ter vontade de escrever, um papel e uma caneta ou um computador. E a iluminação adequada.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Ter à mão uma fila, uma sala de espera, um banco de ônibus ou uma poltrona de avião. E a iluminação adequada. No sossego e silêncio do meu escritório também funciona.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Quando avanço com uma ideia, burilando-a na cabeça porque não sou de tomar notas. Quando leio de 20 a 30 páginas de prosa ou poesia. E, claro, quando escrevo, seja um parágrafo ou várias páginas.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Avançar num espaço de névoa que só a escrita faz dissipar. Escrever sem saber aonde o texto me leva. Depois de pronto, reescrever, aparando os excessos e eliminando desvios improdutivos.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Tudo que o afasta da literatura.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
O nariz empinado, a presunção.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Na poesia de Adriane Garcia e de Fabrício Marques e na prosa de Nivaldo Tenório e de Eduardo Sabino.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível, Poesia completa, de Carlos Drummond de Andrade. Indicar um livro descartável? Prefiro não, como diria Bartleby, personagem de outro livro imprescindível.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
O excesso. Qualquer excesso.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Qualquer assunto pode ser tratado pela literatura, mas eu não escreveria sobre tortura de criança.

• Qual foi o lugar mais inusitado de onde tirou inspiração?
Diante de uma lixeira em Buenos Aires, numa noite gelada. Resultou no conto Hóspedes, de A bala dos desarmados. Não consigo me lembrar de outro lugar inusitado.

• Quando a inspiração não vem…
Escrevo assim mesmo. Escrevo frases sem sentido, para ver que sentido produzem. Ou abro um dicionário ao acaso, procurando palavras que desconheço ou para ler a definição de uma palavra que nunca precisei olhar no dicionário, como casa, água, parafuso ou sapato. Leio parágrafos também escolhidos ao acaso de um texto desconhecido. A falta de inspiração é lúdica.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
O peruano Manuel Scorza. O francês Georges Perec. O português Gonçalo M. Tavares.

• O que é um bom leitor?
Aquele que deixa o texto fluir, se entrega com prazer à leitura, mas mantém a capacidade de questionar o livro.

• O que te dá medo?
Ser impedido de escrever, por qualquer motivo. Por doença ou pelo fascismo.

• O que te faz feliz?
Terminar um texto e acreditar que ficou bom. Ter a aprovação dos amigos que leem as primeiras versões de uma história.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
A certeza de que escrever vale a pena e a dúvida sobre se o que escrevi valeu a pena. Essa dúvida é dissipada quando esses primeiros leitores a que me referi na resposta anterior aprovam o texto.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Não ceder ao que parece fácil demais, evitar os clichês, seja no tema ou no uso das palavras. E conseguir uma boa história, com algum grau de originalidade.

• A literatura tem alguma obrigação?
Nenhuma. Ou somente a de ser livre. Liberdade absoluta.

• Qual o limite da ficção?
Não consigo ver um limite para a ficção, e talvez isso seja uma limitação minha, não da ficção.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
No susto do encontro, eu o levaria à Roselena, minha companheira. Passado o susto, pediria a ele para procurar Graciliano Ramos. Isso porque estou lendo Graciliano Ramos: vida e obra, de Wander Melo Miranda, a biografia de um dos maiores escritores do país. E muito bem escrita.

• O que você espera da eternidade?
Eita, pergunta complicada. Eternidade é um tema muito vasto. Mas vamos lá: espero o mesmo que espero da vida. Que ela dure bastante.

 

A bala dos desarmados
Francisco de Morais Mendes
Sinete
192 págs.
Rascunho

O Rascunho foi fundado em 8 de abril de 2000. Nacionalmente reconhecido pela qualidade de seu conteúdo, é distribuído em edições mensais para todo o Brasil e exterior. Publica ensaios, resenhas, entrevistas, textos de ficção (contos, poemas, crônicas e trechos de romances), ilustrações e HQs.

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