Saudação a Rodolfo Walsh (1927-1977) e Wander Piroli (1931-2006), gente do jornalismo feito no corpo a corpo com a vida.
Para Liliane Pelegrini
Certa vez, na fase mais aguda do golpe, por conta do envolvimento em agitações no meio estudantil, precisei me refugiar por um tempo em Belo Horizonte. E tive uma garota na cidade. Uma garota cujo nome nunca fiquei sabendo.
Ela passou para me apanhar na rodoviária num começo de noite chuvoso e abafado, dirigindo um fusca bege com um dos para-lamas amassado, porém limpo, cheiroso, talvez o carro mais asseado em que entrei na vida. Num dos vidros laterais, um adesivo de uma chapa que concorria ao diretório acadêmico da Faculdade de Direito; no oposto, o escudo do Atlético — era a época em que reinava em Minas sua majestade o rei Dadá I e único.
Eu havia decidido sair de São Paulo de ônibus, durante o dia, calculando que o aeroporto estaria mais vigiado do que a rodoviária. Eu estava queimado, não ia demorar para minha foto começar a aparecer nos cartazes de gente procurada. Na verdade, todos os envolvidos na ação do Sete de Setembro já tinham sido identificados, as quedas podiam começar a qualquer momento. Pouca gente sabia que eu me esconderia em BH até a poeira baixar.
Vi a garota logo que desembarquei com uma bolsa a tiracolo e um exemplar da revista Intervalo debaixo do braço. Estava parada no acesso à área de saída, com uma revista idêntica nas mãos. Era jovem, bem jovem. Jeans, camiseta, óculos de grau. O cabelo pintado de loiro. Militante secundarista, pelo que eu sabia. Parecia mais um assunto do juizado de menores do que dos grupos de repressão. Me chamou de Professor desde o princípio, então nem precisei confirmar o codinome que vinha usando. O nome-de-guerra dela era Laura.
No carro, pediu que eu mantivesse a cabeça abaixada, para não reconhecer o trajeto. Uma medida supérflua: era minha primeira vez na cidade, não fazia a mínima ideia de nada. Mantive os olhos nos sapatos que Laura usava, com os cadarços desamarrados, um tanto masculinos, embora houvesse graça e leveza na maneira como ela alternava os pés nos pedais do fusca.
Pouco falamos. Ela dirigia concentrada no fluxo vagaroso de veículos, e demorou até encontrar uma vaga para estacionar. Quando conseguiu, deduzi, pelo movimento intenso de gente e pela presença de bares, lojas e hotéis, que estava em algum ponto da região central. Caminhamos até uma esquina, evitei ler o nome da rua numa placa. Laura apontou um sobrado verde do outro lado da avenida. Uma pensão.
É provisório, só pra resolver essa emergência.
E me estendeu um papel com um número anotado.
Decore e jogue fora. Se precisar de alguma coisa, tem um orelhão na esquina.
Riu com um encanto juvenil.
Tá funcionando, eu testei. Só precisa de ficha.
E me entregou um punhado delas.
Depois, me deu a mão pequena e quente, desejou sorte e aguardou que eu atravessasse a rua, em meio ao tráfego indócil, e tocasse a campainha da casa. Quando abriram a porta, olhei para trás. Laura havia sumido.
Me fizeram entender que aquela pensão funcionava também como um rendez-vous as risadas e o movimento contínuo de homens e mulheres que eu ouvia no corredor, depois que me instalei num quarto nem sujo, nem limpo no andar de cima. O banheiro era coletivo.
Fiquei deitado no escuro, insone, ardendo ainda na adrenalina da viagem, tentando pensar em coisas boas para não lembrar das ruins. Numa das paradas do ônibus, cismei que um dos passageiros me observava. Um cara fortão, com cabelo de reco e ares de cana. Disfarçou quando notei que me espiava no espelho à nossa frente, enquanto lavava as mãos na pia do banheiro. A paranoia pesava bem mais que minha bagagem.
Pode ser medido em minutos, e não mais de trinta, o tempo que consegui dormir, antes que um estrondo na porta me pusesse sentado na cama, alerta. Na bolsa eu levava documentos falsos e um .38 que nem sabia usar direito. Preferi recolher e vestir a calça que estava sobre a cadeira; não seria nada elegante sair à rua algemado só de zorba, se fosse capturado vivo.
Outro esbarrão na porta. Iam invadir o quarto. Considerei a janela entreaberta, que dava para a rua molhada e escura lá embaixo, a anos-luz de distância. Garantia de fraturas múltiplas e/ou morte.
Então ouvi a voz da mulher tentando acalmar o homem. Discutiam na porta do quarto. Bêbados. Até que se afastaram pelo corredor, o que não serviu para me trazer alívio. Continuei sentado na cama, assombrado pela súbita lembrança de que, no curto tempo que consegui desligar, tinha sonhado com crianças dilaceradas. Não dormi mais depois disso.
Assim que o dia clareou, desci à rua, comprei o Estado numa banca e entrei num bar de esquina, em busca de um café. Ocupei um lugar na ponta do balcão, de onde podia examinar à vontade a fauna presente no recinto. O movimento era intenso, gente miúda a caminho do trabalho, um ou outro egresso da farra noturna, uns engravatados. A funcionária que anotava os pedidos nas mesas me olhou e sorriu com simpatia. A chuva lá fora tinha parado e a manhã prometia mais um dia abafado.
Folheei o jornal, não encontrei nada que interessasse. As notícias falavam de um país diferente daquele que se degradava ao meu redor. Até o horóscopo mentia.
Um sujeito vestido com um macacão de um posto de gasolina encostou-se ao meu lado no balcão, sobre o qual depositou algumas moedas. Foi a senha para que o balconista, sem nem mesmo trocarem um bom-dia, servisse a ele um copo americano com quatro dedos de cachaça, consumida em dois goles rápidos, arrematados por uma careta. Saiu sem dizer adeus.
Bem nessa hora reparei no rapaz do ônibus parado em frente à banca, de papo com o jornaleiro. Era ele? Não dava para ter certeza. Porém parecia muito, com a diferença de que agora usava um boné. Por que ele não me abordava e acabava com aquilo de uma vez? Na certa, por interesse nas minhas conexões na cidade. Lamentei ter deixado o revólver no quarto.
Paguei a conta e saí do bar. Enquanto atravessava a avenida, me voltei na direção da banca de jornais. O homem agora me observava sem nenhuma preocupação em dissimular. Acelerei o passo e, ao invés de retornar à pensão, segui direto até o orelhão na esquina oposta.
Laura surgiu com seu fusca para me pegar uma hora depois. Parecia mais velha num vestido verde e com o cabelo contido por uma fita — raízes castanhas brotavam em meio aos fios loiros pedindo retoque. Para facilitar o acesso aos pedais, ela suspendeu o vestido acima dos joelhos, descobrindo uma boa porção das coxas morenas. Aquilo mexeu comigo — fazia meses que eu não ficava com uma mulher. Eu não conseguia parar de olhar. Laura percebeu, sorriu de um jeito discreto.
Comentei que havia um cara me seguindo, desde São Paulo. Ela tirou por um segundo do trânsito e pôs sobre mim os olhos que as lentes dos óculos tornavam maiores, e havia ali astúcia e um leve estrabismo. Laura espiou no espelho retrovisor a rua vazia atrás de nós.
Já vamos saber.
Ela diminuiu a velocidade, parou o carro debaixo de uma árvore, puxou o freio de mão. E ali aguardamos por algum tempo, tensos, Laura atenta ao retrovisor, eu pensando no trezoitão dentro da bolsa aos meus pés. Um fruto se desprendeu do galho e ricocheteou no capô do fusca, provocando um sobressalto nos dois. Laura riu, de nervoso, depois ficou séria.
Tem certeza que estão te seguindo?
Eu não tinha como saber, e disse isso. Talvez fosse só paranoia mesmo. Uma kombi passou devagar pela rua, anunciando produtos de limpeza num alto-falante.
Você estava na ação do Sete de Setembro, não é? O que aconteceu, afinal?
O companheiro responsável pelos explosivos cometeu algum erro — a bomba explodiu antes da hora.
Naquele dia, eu estava posicionado a uma certa distância, dando cobertura, quando escutei a detonação e tudo ficou tomado pela fumaça. Tumulto, gritos, correria. O palanque onde discursariam as autoridades, que ainda nem haviam chegado, veio abaixo e virou um amontoado de madeira e ferro retorcido. Na confusão, muita gente acabou pisoteada. Duas crianças que estavam nas proximidades foram atingidas e não resistiram. Com a explosão, o companheiro que instalava a bomba perdeu um dos braços.
Pensando bem, ele teve sorte, comentei, morreu a caminho do hospital. Imagine o que fariam com ele se tivesse sobrevivido.
Laura ouviu o relato em silêncio. Então endireitou o corpo no assento e deu a partida no carro.
Bom, se tinha alguém te seguindo, acho que a gente conseguiu despistar. Vamos embora.
A casa para onde fui levado ficava numa rua sem calçamento, num bairro operário na parte alta da cidade. Era uma construção simples, sem acabamento, com um jardim descuidado na frente, no meio do qual estava fincada uma placa de “Vende-se”. O telefone de contato anunciado era o mesmo que eu havia memorizado.
Com exceção de um colchonete apoiado diretamente no chão de cimento do quarto e de um espelho preso numa das paredes, não havia qualquer móvel no interior da casa. Sobre a pia da cozinha, alguém tinha deixado um exemplar do livro A erva do diabo, então na moda, numa edição de bolso bastante manuseada. Laura vistoriou o banheiro, um cubículo apertado onde um cano fazia as vezes de chuveiro.
Evite fazer barulho, recomendou, enquanto caminhava em direção à porta. Volto mais tarde pra lhe trazer comida.
Assim que ela se foi, saí ao quintal que existia nos fundos, uma faixa de terra estreita dominada pelo matagal alto e protegida por um muro com cacos de vidro no topo. Uma péssima rota de fuga, em caso de necessidade. Além do muro, no quintal vizinho, alguém ouvia música no rádio no volume máximo. Depois, passei um tempo lendo as peripécias do índio Don Juan no livro do Castañeda. Laura me pegou cochilando no colchonete, quando chegou com a comida, no começo da noite.
Virou uma rotina nos dias seguintes: eu passava um longo tempo no quintal, ouvindo os acontecimentos do mundo no rádio do vizinho. Vigiava a rua e seu escasso movimento de gentes e carros. E dormia boa parte das horas restantes, com o 38 sob o colchonete. No fim da tarde, Laura aparecia com as marmitas que comprava num bar e, enquanto eu comia, conversávamos sobre a situação. Aquela era uma guerra perdida, a gente sabia. Nossa principal tarefa vinha sendo cuidar da sobrevivência a qualquer custo.
Não lembro direito como foi, mas um dia estávamos sentados lado a lado no colchonete, encostados na parede, e aconteceu: de repente, a gente se olhou nos olhos e, sem dizer uma palavra, se agarrou. A partir desse dia, passei a esperar a chegada de Laura com um outro tipo de fome.
Ela era mais velha do que aparentava, inclusive já tinha sido casada — seu companheiro, também militante, estava desaparecido fazia quase um ano.
A história durou até o dia em que ela me entregou, junto com as marmitas, um cartaz dobrado. E lá estava minha foto entre os “terroristas procurados”. A organização havia decidido que era hora de me tirar do país. Foi a última vez que estive com Laura. Na madrugada seguinte, uma kombi passou para me recolher, dando início a uma fuga que terminou, uma semana depois, no Chile, onde me exilei.
Só retornei ao Brasil oito anos depois. E por mais que tenha tentado, nunca consegui apurar a verdadeira identidade de Laura ou o que aconteceu com ela. Às vezes, acho que tudo aquilo não passou de um sonho. Já voltei a Belo Horizonte mais de uma vez. Numa delas, experimentei ligar para o número que memorizei tantos anos atrás. Atendeu numa ótica.
Talvez tenha mesmo sido apenas um sonho. Mais um dos vários que terminaram em pedaços.