Meridiana, de Eliana Alves Cruz, acompanha a trajetória de uma família negra que busca ascender socialmente, atravessando fronteiras simbólicas e geográficas — da favela ao Centro da cidade. A autora constrói uma narrativa polifônica, dando voz a diferentes personagens e expondo tensões entre gerações, deslocamentos e estratégias de sobrevivência em um Brasil marcado pelo racismo estrutural.
Nesta entrevista concedida por e-mail, Eliana ressalta que “nada nos blinda do racismo. Ele sempre encontra formas”, e reflete sobre como microviolências cotidianas, estéticas e linguísticas moldam muitas subjetividades. Ao mesmo tempo, afirma que escrever é “o exercício mais radical de liberdade”, revelando sua intenção de, a partir da sua ficção, investigar a vida negra no cotidiano brasileiro.
• Meridiana acompanha uma família negra que busca ascender socialmente e atravessar fronteiras dentro da cidade: da favela Matadouro para o Centro. Como surgiu a ideia do livro e como você o posiciona dentro da sua obra?
O Meridiana nasceu assim que comecei a pensar mais detalhadamente sobre uma personagem do romance anterior, o Solitária. Nele, Mabel, a filha da empregada doméstica Eunice, passa no vestibular para estudar medicina em uma universidade pública. Ela fica a um passo de subir muitos degraus na escala da mobilidade social em relação à mãe. O que acontecerá? Passei a refletir sobre a história de ascensão da minha própria família, de amigos, conhecidos… de tantas pessoas no país, e isso me trouxe uma enxurrada de reflexões. Desde as óbvias, como raça e classe, mas também envelhecimento, estética, território, gênero, sonhos, vocação, relações de trabalho, sexualidade, estratégias subjetivas de sobrevivência, relações familiares e amorosas, coletivo x individual.
• O romance é estruturado a partir da voz de diferentes personagens — Ernesto, Aurora, Zuleica, César, Augusto e Meridiana. Por que você optou por uma narrativa polifônica, com olhares distintos sobre a mesma história?
Os inúmeros pontos que rondam a ascensão social são vivenciados de formas muito distintas, às vezes, por pessoas pertencentes a um mesmo grupo familiar. Tentei muitas maneiras de narrar, vários tons e ritmos. Nenhum funcionou. Tudo parecia artificial. Reescrevi 14 vezes. Então, entendi que não conseguiria sair da superficialidade se concentrasse a história em uma voz única. Respirei fundo e vi que daria muito trabalho, mas cada um daquele grupo precisava falar por si. Foi uma experiência muito enriquecedora escrever esse livro, porque precisei refinar o olhar, as escolhas semânticas e os formatos de texto. Acho que surgiram pessoas muitos diferentes umas das outras — e muito diferentes de mim.
• Logo no início, uma dúvida mostra-se como uma das linhas de condução do romance: “Pai, é mais fácil ir ou voltar?”. De certo modo, essa questão acompanha toda a trajetória da família de Meridiana. O romance é, também, uma reflexão sobre deslocamentos e escolhas?
Sem dúvida. Ano passado dei uma cátedra na Fundação Getúlio Vargas que nomeei de Escrita na beira do cais. Acabei de escrever um artigo sobre isso. É uma escrita inquieta, que pensa e vive o deslocamento, o desenraizamento e a tentativa de pertencer o tempo inteiro. Para a população negra na diáspora, são movimentos muito conhecidos e vividos ancestralmente. Não é fácil ir e menos ainda voltar.
• Ernesto, o narrador do capítulo de abertura, acredita ferrenhamente na disciplina, no estudo e no esforço individual como caminho para superar a pobreza. Há um trecho emblemático: “No sobe e desce do dia a dia, ia pegando os serviços que surgiram, para evitar que eu precisasse trabalhar e pudesse me manter firme em direção à única saída que lhe ocorria: o estudo”. Ernesto representa, de certa forma, o ideal do brasileiro que busca romper barreiras sociais a partir da educação?
O Ernesto é o representante de gerações passadas que viam no diploma o passaporte, a chave de ingresso para um mundo de estabilidade e respeito. Ele realmente acreditava que dependia apenas do próprio esforço e que, uma vez ingressando no sonhado funcionalismo público, seus problemas mais pesados estariam resolvidos. Nunca lhe ocorreu que encontraria outros, talvez tão pesados quanto, apenas de outra natureza. Ele é um homem exausto, em busca de sentido para a própria vida.
• E falando em educação, nos últimos anos, as cotas raciais nas universidades transformaram profundamente o acesso ao ensino superior no Brasil. Como você avalia o impacto dessas políticas na formação de uma nova geração e na redução da desigualdade social?
É inegável a mudança que essa política pública trouxe. Já são mais de 20 anos de cotas universitárias. Isso significa quatro ou cinco ciclos de formaturas e de pessoas neste movimento Meridiana. É o crescimento de uma classe média negra que também se vê desafiada a entender até onde faz concessões para pertencer a determinados universos. São muitos os sinais de que a sociedade se moveu com a política de cotas, mas o maior deles é o enorme incômodo que causa em determinada elite.
• E como você encara os ataques às cotas raciais, sempre repletos de preconceito e ódio?
Encaro com a tristeza de alguém que estuda a história do seu país, que sabe do nosso passado com profundidade suficiente para entender que a política de cotas é algo mínimo diante de tanto sofrimento e destruição que as populações negra e indígena passaram ao longo dos séculos por aqui. A política de cotas é uma unha diante da quantidade de mortes, roubos e violências sofridas. Essa pequena unha está encravada e incomoda o dedo dos que preferem não enxergar que cotas sempre foram dadas aos privilegiados em todos os tempos. No entanto, essa pequena-grande medida já fez muita mudança. Imagine se o Brasil fosse um lugar que realmente buscasse reparar suas gigantes injustiças históricas e desigualdades abissais.
• Mesmo com a ascensão social da família, Meridiana reforça que ascender socialmente não significa escapar do racismo, pois será necessário enfrentá-lo em outras formas, na escola, no trabalho, na vizinhança etc. Esse enfrentamento às múltiplas formas de racismo foi uma das suas preocupações ao estruturar o romance?
Não propriamente o enfrentamento, quis mostrar as múltiplas e criativas formas que esse mal assume. A mídia e as redes sociais trazem à tona casos escabrosos, mas existem microviolências cotidianas que se acumulam, adoecem e matam. Não por acaso o antropólogo Kabengele Munanga afirma que o racismo é um crime perfeito, pois mata pelo silêncio. E consegue aniquilar, ao mesmo tempo, a consciência das vítimas e das pessoas discriminadoras. Eu queria falar dessas formas sutis, veladas e sofisticadas — como elas operam e como agem na subjetividade de quem as sofre.

• O cabelo de Meridiana e a batalha de sua mãe para alisá-lo com chapinha são muito marcantes no romance. Logo no início, lemos “O cabelo é a moldura da mulher. Tudo em você muda se o cabelo está arrumado”. Por que o cabelo — um poderoso símbolo de identidade e pertencimento — se tornou um dos elementos centrais da narrativa?
Há um dado muito cruel: as primeiras pessoas a saberem o que é o racismo são meninas, a partir dos 4 anos, por conta do bullying racista com o cabelo. Não há mulher negra neste mundo que não tenha, em algum momento da vida, tido problemas com a aceitação do seu cabelo. O alisamento do cabelo, por séculos, exigiu rituais torturantes, dolorosos, limitantes e frustrantes. No livro, ele é uma metáfora para a tentativa inglória de encaixe em um modelo estético aceito como padrão; para a busca de proteção sendo o mais possível parecida com a estética tida como aceitável; para a negação de si.
• A expressão “boa aparência”, em outro momento da narrativa, mostra que o racismo, muitas vezes, está também em linguagens aparentemente neutras. Essa é também uma reflexão que você desejou entregar aos leitores nas entrelinhas e sutilezas do texto?
São as formas sutis e sofisticadas de que falei acima. O Brasil é o lugar do eufemismo. Usam-se palavras doces e “neutras” como punhais. A linguagem racista tem uma técnica para falar sem dizer, para excluir e ferir os sujeitos que precisam ser feridos e aniquilados.
• Ernesto diz que os filhos precisam ser “três vezes melhores” para enfrentar os desafios sociais e profissionais. Essa lógica é válida para a maioria das famílias negras do Brasil?
Não é uma lógica das famílias, mas da sociedade. A cobrança por excelência atinge de forma muito mais pesada as pessoas negras. O caminho para chegar a determinados lugares é sempre mais longo. Basta olhar a pirâmide salarial: profissionais negros ganham menos, mesmo que tenham a mesma formação, competência etc. As famílias apenas tentam alertar as novas gerações para o que enfrentarão, dando ferramentas para que não sucumbam.
• Você é uma escritora e jornalista reconhecida nacionalmente, cujas ideias e reflexões impactam questões em torno do racismo, do preconceito, do feminismo. Você se sente menos suscetível ao racismo na esfera social em que se encontra?
De forma alguma. Todas essas questões me atravessam e me atingem. Ninguém sabe quem eu sou quando estou no comércio, caminhando pelas ruas do meu bairro ou por algum lugar de entretenimento. Mesmo quando sabem, não raro há uma tendência à dúvida e à desconfiança. Certa vez, me perguntaram se era eu mesma quem escrevia todos os livros. Nada nos blinda do racismo. Ele sempre encontra formas.
• Em Meridiana, há um conflito entre a geração dos pais, que lutaram para ascender socialmente, e a dos filhos, que questionam as regras e tentam se adaptar à dinâmica social. Qual é a importância dessa “luta” entre gerações para discutir o racismo ao longo da narrativa?
A consciência é uma construção complexa. No fundo, pais e filhos querem o mesmo: dignidade de vida e o direito de ser em plenitude. As estratégias que cada um adota para atingir esse objetivo, as relações interpessoais, o despertar para o entorno complicado — tudo se alicerça em existências que, apesar de únicas, precisam da coletividade. É uma luta para preservar o que os sustenta como grupo e como indivíduos, estando em um habitat em grande medida hostil.
• Em terminado momento, Ernesto diz “Eu revisitava esse passado porque estávamos em um novo ciclo, e novas etapas exigem uma revisão das anteriores para evitar a repetição de erros”. Qual é a relevância de reescrever ou compreender melhor parte da história brasileira, levando em conta o impacto da escravidão no racismo estrutural que persiste?
Considero importante saber de que material é feita a casa, para que ela não seja derrubada no primeiro vento. Cada vez que elaboramos o passado, que compreendemos melhor as estruturas que nos formaram, conseguimos mais ferramentas para construir um futuro sobre outras bases.
• Num ensaio de 1964, a italiana Natalia Ginzburg escreve: “Se existe uma certeza é que é necessário escrever sem nenhum objetivo”. Você concorda com essa ideia? Ou prefere conceder um objetivo à sua obra?
Uma grande autora. O que ela definia como “objetivo”? Caso tenha se referido a objetivo como “bandeira”, pode ser. Apenas não sei se acredito na ausência de intencionalidade quando se escreve. Não acho possível o esvaziamento de si no ato de escrever. Por que, por exemplo, no livro Léxico familiar, ela relatou as memórias de sua família letrada, judia e que lutou contra o fascismo? Não havia “objetivo” nisso? A Ginzburg escolheu uma forma de expressão que trazia certa simplicidade, sem abrir mão da profundidade — algo que tento fazer também. Não há intenção nas escolhas estéticas? Quanto a mim, escrever é algo que amo. Para mim, não dói, não considero perda de tempo, gosto do processo de pesquisa, de criação e até da revisão, mas cada história escrevo, como se diz, “de caso pensado”. Quando escolho um narrador, é com objetivo, uma estrutura de texto também e um conteúdo, idem. Não tenho nenhum medo de assumir isso. Eu quero investigar a vida negra no cotidiano miúdo no Brasil — no passado, no presente e no futuro — da maneira mais ampla que conseguir. E isso não me impede de, no meio do percurso, encontrar outros caminhos também. As regras aprisionam, e escrever, para mim, é o exercício mais radical de liberdade.
• Como você constrói as suas narrativas — contos e romances? Há rituais, horários ou métodos que você segue ao escrever?
O jornalismo me ajudou a escutar e a enxugar. Para escrever, eu “escuto” pessoas, documentos, imagens, músicas. Me cerco ao máximo de informações e seleciono a essência que me interessa abordar. A tal ponto que, na hora de escrever, consiga deixar tudo de lado para me transportar para a trama, fazendo parte dela. Algo semelhante talvez ao processo dos atores na criação de personagens. Quando começo, só paro quando termina, e fico agoniada com a história sendo escrita na cabeça. Ela não me larga até que esteja pronta para acabar. A cada nova sessão de escrita, releio o que foi feito antes. Vai ficando bem complexo e cansativo, mas isso me ajuda a dar coerência e a não deixar pontas soltas na trama. Escrevo quando dá, mas a preferência é pelo horário da manhã e preciso de música. Tenho playlists para todos os livros. Não me importo com o barulho, em alguns casos ele até me ajuda. O que não aguento é demanda. Quando começam a me interromper e demandar, por mais que retorne, não consigo manter o estado de espírito e a concentração.
• Em entrevista recente, o espanhol Javier Cercas disse que o “o didatismo/pedagogia e a propaganda dentro da ficção” estão matando a literatura. E que os escritores não devem impor como os leitores devem pensar sobre determinados assuntos. Qual é a sua opinião sobre essa assertiva?
Acho que ele está certo. O que me incomoda nessas afirmações é que a definição de propaganda parece fluida e móvel conforme quem escreve e publica. A depender disso, acontece um certo olhar enviesado, do tipo “onde está Wally?”. Onde está a propaganda, o panfleto? No meu caso, trazer as histórias que trago dá trabalho justamente para fugir da tentação de contar de forma didática e arrogante, mas… Sinceramente? Quando escrevo, levo muito pouco em conta o que acha fulano ou beltrana, por mais que admire. Escrever tentando não ser tal coisa que “cicraninho, que é um gênio, disse” é violento. Tento criar tramas inventivas, porém dentro da lógica de cada tempo, com a sinceridade que elas exigem, com personagens humanos, ou seja, contraditórios e que possuam camadas diversas. Tudo isso exige um descolamento e um trabalho colossais. Cada livro é único e tem suas próprias exigências. Tento respeitar a inteligência de quem lê e o direito que as pessoas têm de pensar de formas diversas. Acredito em muitas coisas e luto pelo que acredito, mas meus personagens nem sempre concordam comigo.
• Como se deu a sua aproximação com a leitura e a literatura? Como foi a sua trajetória de formação como leitora?
Minha mãe, Lina Maria, era professora e assistente social. Meu pai, Eloá Cruz, é advogado formado pela Nacional de Direito. Essa busca dos dois por formação é a mesma da geração do Ernesto, do Meridiana. Os dois vieram de uma realidade dura e davam à leitura um valor enorme. Meu pai colecionava livros desde a pré-adolescência, quando morava na favela, mas teve que recomeçar sua coleção quando perdeu quase tudo o que tinha em uma enchente, no ano do meu nascimento. Conto isso para que entendam de onde vem a minha aproximação com os livros. Vem de um desejo familiar por conhecimento e por abertura para outros mundos, que exigiu esforço da vontade. Meu pai sempre gostou muito de poesia. Lembro dele recitando frequentemente Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa. Quando, devido ao esforço da minha mãe professora, finalmente consegui lidar com a dislexia, passei a ler tudo o que tinha na estante de casa. Li Erico Verissimo, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa… quase todos os que minha geração aprendeu como clássicos. Li Machado de Assis ainda ensinado como autor branco. Li García Márquez, Vargas Llosa, Borges, Cortázar, Dostoiévski e outros. Então faltava algo que eu não sabia dizer o que era e só fui entender muito mais tarde, quando descobri Carolina Maria de Jesus e o estadunidense Alex Haley. Faltava nós. Lacuna que busco preencher na minha formação até hoje.
• O que mais te causa medo no mundo neste momento?
Uma certa concretude de fim de mundo. O apocalipse, neste momento, é algo muito menos imagem bíblica metafórica. As questões do clima, a degradação do planeta, os negacionismos de toda sorte de uma parcela gigante da população que podem acelerar ainda mais um fim doloroso e agoniante. Não tenho medo da morte, mas da morte tola — daquela que parecia evitável e da humanidade que acredita nas mentiras que inventa.
• No capítulo narrado por Zuleica, lemos “É um privilégio escolher de que janela contemplar o crepúsculo da vida… e esse eu conquistei”. De que janela você gostaria de contemplar o crepúsculo da vida?
Gostaria que fosse uma janela em que eu tivesse autonomia de pensamento e ação, com lucidez. Uma janela que me permitisse não apenas contemplar, mas também dizer que o crepúsculo é a hora mais linda do dia.