As vozes do lugar mais sombrio

Com "Dança de enganos", Milton Hatoum encerra sua trilogia ao dar voz a Lina, articulando memória íntima, violência política e desilusão histórica
Milton Hatoum, autor da trilogia “O lugar mais sombrio”. Foto: Renato Parada
01/01/2026

O romance Dança de enganos encerra a trilogia O lugar mais sombrio, projeto literário de Milton Hatoum que atravessa a ditadura militar, a desagregação familiar e a formação de uma geração marcada pelo autoritarismo e pela desilusão. Após dois romances narrados por Martim — A noite da espera, de 2017, e Pontos de fuga, de 2019 —, o escritor desloca o ponto de vista narrativo para a voz de sua mãe, Lina, cujas memórias revelam dimensões íntimas e políticas que permaneciam ocultas.

Nesta entrevista ao Rascunho, concedida por e-mail, Hatoum comenta a construção das personagens, a escolha do narrador, o entrelaçamento entre violência doméstica e violência de Estado, o peso da memória e do silêncio forçado, além de refletir sobre a persistência do autoritarismo no Brasil e no mundo. “O silêncio não é um problema quando é uma opção, uma decisão pessoal. Mas o silêncio forçado, a voz ameaçada ou amordaçada é uma afronta à liberdade”, afirma o autor, para quem a literatura segue sendo um espaço de ambiguidade, imaginação e resistência, capaz de trazer ao presente aquilo que a história tentou apagar.

• Em Dança de enganos, a troca de narrador — da voz de Martim para a voz de sua mãe, Lina — é algo marcante da trilogia O lugar mais sombrio. Por que da mudança de narrador em relação aos dois romances anteriores? O que somente Lina poderia revelar sobre a história — e sobre o próprio país — que Martim não era capaz de perceber?
Essa mudança desloca o ponto de vista da narrativa. O último volume é o livro da mãe de Martim, as memórias dela. A trilogia foi pensada assim: dois volumes narrados por Martim e seus amigos, como um romance de formação. A primeira versão do Dança de enganos era uma longa carta da mãe para o filho, mas, depois de ler as observações dos meus editores, decidi transformar a carta em memórias. Quis acrescentar outras histórias, outras vozes, e isso não se ajustava a uma carta. O que Lina revela faz parte de descobertas e intuições que a mãe dela (Ondina) e o filho desconhecem. São revelações de sua vida íntima. Num certo momento, ela se dá conta do horror do contexto político do país. É como se ela vivesse num quarto escuro que, aos poucos, se ilumina. Martim, ao contrário, é envolvido pelo ambiente político bruto de Brasília. No primeiro volume [A noite da espera], ele vê o pai festejar o AI-5, que radicalizou a repressão e a censura e aboliu de vez o Estado de Direito. Lina sabe que o ex-marido (Rodolfo) é entusiasta do golpe civil-militar de 64, mas ela não percebe, naquele momento, a gravidade da situação política. Só depois ela vai adquirir consciência do terror de Estado.

Dança de enganos traz uma atenção profunda ao corpo feminino — suas dores, sua resistência. Como foi o processo de escrever a partir desta sensibilidade feminina tão íntima e tão diferente da de Martim?
Meu primeiro romance (Relato de um certo Oriente) é narrado por uma mulher. Sair de si mesmo e inventar outros é um dos aspectos fascinantes e imprescindíveis da ficção. Orlando, de Virginia Woolf, é um dos grandes exemplos da literatura ocidental. No Dança de enganos, quis dar relevância à voz de Lina e a outras personagens femininas: Aurora, Delinha, Irma, Ondina, Lisandra, dona Vidinha. Antes de começar um romance, costumo escrever sobre cada personagem, a vida e o destino de cada uma delas… Preciso entender quem ele ou ela é, como age e pensa, como se transforma etc. Muitos escritores deixam a personagem desenvolver-se no calor da escrita, e isso às vezes acontece quando escrevo. Acho que a sensibilidade em relação a personagens femininas já está em nós mesmos. De algum modo, somos também esse outro. Lembro as personagens femininas de Machado, Capitu à frente. Ou a personagem Martim, do longo e belo romance A maçã no escuro, de Clarice Lispector. E há tantos outros notáveis personagens masculinos de Clarice. A leitura de grandes romances ajuda muito… Leitura, observação, escuta, experiência…

Milton Hatoum. Foto: Renato Parada

• No início do romance, Lina afirma que “palavras ocultas podem nos separar para sempre” e decide narrar a própria versão da história. Na sua opinião, a literatura funciona como um contra-ataque a determinado tipo de silêncio, em especial um silêncio causado pela violência da ditadura?
Essa frase que você citou é o tema central do romance. O silêncio não é um problema quando é uma opção, uma decisão pessoal. Mas o silêncio forçado, a voz ameaçada ou amordaçada, é uma afronta à liberdade. Um Estado autoritário sempre tenta silenciar as vozes de dissenso. As linguagens artísticas recorrem à imaginação para desvelar essa impostura. As “palavras ocultas” aludem ao silêncio de Martim, mas o que está em jogo entre mãe e filho transcende a questão política.

• A memória familiar, a violência doméstica e o ambiente opressivo da ditadura militar se entrelaçam em Dança de enganos. Qual a importância de fazer com que as violências íntimas e as violências políticas se contaminassem mutuamente?
São tipos diferentes de violência, mas estão interligadas e aparecem nos volumes anteriores. No Pontos de fuga, a mãe de uma personagem lésbica manda sequestrar e internar a filha. Esse episódio é relembrado no Dança de enganos. A violência na célula familiar era um estorvo numa geração que viveu dos doze aos trinta anos sob a ditadura. A homossexualidade era considerada um crime, uma doença, um grave desvio de caráter. O ex-presidente — julgado e preso por vários crimes — e seus adeptos mais fanáticos deram inúmeras provas dessa desfaçatez asquerosa. Quando o Estado é autoritário, a micropolítica opressora é exacerbada no âmbito familiar.

• Um dos momentos mais fortes do início de Dança de enganos é a cena de violência policial na praça Dom José Gaspar, em que Lina presencia um menino negro ser espancado até a morte. O que esse episódio tão violento na narrativa diz sobre o Brasil dos anos 1960 — e sobre o Brasil de hoje?
Depois de presenciar esse assassinato, Lina se dá conta de que algo grave e arbitrário está acontecendo. É o primeiro indício de uma tomada de consciência da violência e do racismo. Depois ela elabora essa questão quando conhece Aurora, a empregada de Lisandra, em Ouro Preto. E reflete sobre a relação entre a mãe dela e Delinha, a caiçara órfã que trabalha no chalé, em Santos. O fato de ela mesma, Lina, ter sido violentada e humilhada pelo ex-marido faz parte desse lento movimento de conscientização da brutalidade em relação ao corpo feminino. Acho que tudo isso dialoga com o presente. O número de feminicídios no Brasil é um dos maiores do mundo.

• Em Dança de enganos, amor e culpa caminham juntos: Lina vive uma paixão luminosa e, muitas vezes, conturbada com Leonardo, mas se distancia de Martim, seu filho. Como você trabalhou essa ambiguidade moral, que evita soluções fáceis e transforma Lina numa personagem profundamente humana?
Tentei evitar o que você chamou de soluções fáceis. Enfatizei a dúvida, a hesitação, a ambiguidade nas relações humanas. É a verdade dessas relações que importa num romance. Nesse volume final, o engano pode ser também o impensado ou algo que foi recalcado, para usar uma expressão da psicanálise, ou ainda uma falta de discernimento diante de uma questão, íntima ou política. Nesse e nos outros romances, busquei um equilíbrio entre fatores externos e internos. Em 2015, quando terminei de escrever os três volumes, revisei cada um deles. A revisão do Dança de enganos foi a mais lenta e demorada: quatro anos. No fim, já estava totalmente envolvido pela mãe.

Dança de enganos traz também uma camada de ameaça constante: perseguições, prisões arbitrárias, a figura de Rodolfo como força opressora. Como foi construir a sensação de que o perigo está sempre à espreita — tanto na vida íntima quanto no contexto político?
Essa sensação é fruto da minha experiência durante a ditadura. Convivi com pessoas mais ou menos parecidas com Rodolfo (pai do Martim), com o embaixador Faisão, com colegas que se revelaram delatores, com amigos que foram presos e torturados… Aliás, devo muito aos relatos escritos e orais de alguns amigos. Eu não tomava notas nem escrevia um diário, mas, quando comecei a escrever, me lembrei vagamente de muitas coisas vivenciadas em Brasília e São Paulo, episódios que tinham sido esquecidos… No fim, quase tudo é movido pela imaginação e pela linguagem. A imaginação tem um forte teor de conhecimento, de prospecção do vivido. Ela une coisas aparentemente díspares ou desconexas e tem como cúmplice a memória do que foi supostamente esquecido. Até usei uma frase de Jorge Luis Borges: a memória escolhe o que quer esquecer.

• A trilogia O lugar mais sombrio acompanha uma geração dilacerada pela ditadura, mas também pela desagregação afetiva. Na sua opinião, que lugar a trilogia ocupa hoje na literatura brasileira sobre o período militar?
Não sei dizer. Acho que só os leitores e os críticos podem dar essa resposta.

• A trilogia se passa entre Santos, São Paulo, Brasília, Minas — paisagens sempre marcadas pela desigualdade, pela vigilância, pelo medo. O território brasileiro, em sua ficção, é também uma espécie de geografia da violência e da desigualdade que tanto marcam nosso país?
Vivi anos nessas cidades, menos em Ouro Preto. Mas eu ia para lá nos Festivais de Inverno, na década de 1970. Nos últimos anos, fui várias vezes a Ouro Preto, onde tenho muitos amigos. Revisitei lugares da cidade, repúblicas de estudantes, conversei com as pessoas. Na trilogia, as cidades fazem parte dessa geografia da violência e da brutalidade, mas são também centros simbólicos, lugares onde há movimentos culturais e de resistência, onde as personagens fazem amizades, resistem ao autoritarismo e à opressão familiar, entregam-se a relações amorosas, passionais. São lugares da solidão e da solidariedade. Em todas as cidades, Martim é possuído pela solidão. A epígrafe do primeiro volume — um verso do poema sírio Adonis — já diz muito sobre esse sentimento: “A solidão é a tinta da viagem”. Acho que é também a tinta da literatura: estar sozinho com suas obsessões, seus fantasmas, sonhos, angústias e frustrações. Estar só, com as suas lembranças: a memória de coisas amargas, mas também de coisas belas. Não lembranças excludentes, nossa vida é assim.

• Você define a trilogia — e inclui também Cinzas do Norte — como “romances da desilusão”. Por que desta definição e ela pode se estender, de alguma maneira, a toda a sua obra?
Sim, todos os meus livros, a partir do Dois irmãos, são romances da desilusão. Como se sabe, o romance é um gênero literário onívoro: cabe tudo nele. A questão é como dar forma e organicidade ao conjunto. O romance geralmente narra a trajetória de uma personagem (ou de um grupo de personagens), mas esse percurso não dá certo. Sempre aparece uma pedra no caminho. Ou um demônio. Os grandes romances do século 19 seguem esse esquema: Ilusões perdidas, O vermelho e o negro, A educação sentimental, os romances russos e os de Machado de Assis. E isso se estende até a literatura contemporânea. Grande sertão: veredas, A hora da estrela, Crônica da casa assassinada, Lavoura arcaica...

Dança de enganos ecoa um período em que o autoritarismo parecia hegemônico. Como você vê o retorno das forças de extrema direita no Brasil e no mundo? Estamos, de alguma maneira, novamente dando passos em direção ao “lugar mais sombrio”?
Sim, infelizmente. E agora é mais grave: trata-se de um fascismo escancarado. A extrema direita perdeu a vergonha de ser e de dizer o que ela é. E, o que é terrível, foi eleita em países importantes e age para destruir o meio ambiente e a democracia. Persegue imigrantes, refugiados, humilha as minorias, abandona os desvalidos. Na trilogia, as personagens mencionam o regresso do fascismo e criticam a anistia geral. Todo o aparato repressivo da ditadura ficou intacto. E não podemos esquecer que a ideologia extremista verde-amarela sempre foi muito forte por aqui. Graciliano menciona nas Memórias do cárcere o “pequenino fascismo tupiniquim”. O diminutivo é irônico.

• A violência contra pobres, jovens negros, mulheres, tão presente na trilogia, reaparece diariamente no noticiário atual. Por que o Brasil continua repetindo as mesmas formas de violência?
Porque a estrutura política conservadora e a mentalidade predadora das classes dominantes não mudaram. A Revolução de 1930 foi apenas uma reforma. Nem sequer tivemos uma verdadeira revolução burguesa. Nesse sentido, penso que o livro Os donos do poder [de Raymundo Faoro] é de uma atualidade incrível.

• Você tem feito críticas consistentes à política do Estado de Israel, sobretudo ao apartheid e genocídio contra palestinos. Como escritor e descendente de libaneses, como observa o atual estágio do conflito? Há espaço real para justiça e para a paz na região?
Minha crítica, enquanto cidadão brasileiro, não é apenas à política do Estado de Israel, mas a qualquer política colonialista, no passado e no presente. O projeto sionista sempre visou à expulsão e ao extermínio dos palestinos. Isso está fartamente documentado, com fontes de arquivos militares israelenses nos livros de Ilan Pappé (A limpeza étnica da Palestina) e de Rashid Khalidi (Palestina – Um século de guerra e resistência – 1917-2017). O genocídio em curso é a culminação de um processo de ocupação, expulsão e assassinatos que começou antes mesmo de 1948, com a atuação de milícias paramilitares sionistas que devastaram mais de 500 vilarejos e cidades. Ainda assim, muita gente por má-fé, por ideologia extremista ou fanatismo religioso ainda nega ou relativiza o genocídio. Basta ver as imagens horrendas transmitidas pela tevê e por jornalistas de Gaza. Às leitoras e aos leitores do Rascunho, indico a leitura da Resolução da situação em Gaza (31/08/2025), da Associação Internacional de Pesquisadores-Acadêmicos sobre o Genocídio. https://genocidescholars.org/wp-content/uploads/2025/08/IAGS-Resolution-on-Gaza-FINAL.pdf. Esse documento foi escrito e assinado por centenas de scholars, incluindo vários intelectuais judeus, grandes pesquisadores sobre o Holocausto. E não se trata apenas de Gaza. Recentemente, o exército ocupante destruiu mais de duas mil casas na Cisjordânia e matou centenas de pessoas, incluindo jovens. É um claro e inequívoco projeto de extermínio de um povo. Só haverá paz quando houver justiça para os palestinos. Quer dizer, um estado laico e verdadeiramente democrático, em que judeus, muçulmanos e cristãos tenham os mesmos direitos civis. Mas os colonizadores sionistas não querem isso, e afirmam reiteradamente que não admitem a criação de um estado Palestino. Querem um estado único, exclusivamente judeu. Um estado supremacista, racista. E usam o judaísmo para justificar essa aberração. Mas muitos judeus perceberam que foram enganados. Aliás, a maioria da população mundial se deu conta dessa farsa. Os palestinos nada têm a ver com o terror nazista, executado pela Alemanha, com a cumplicidade de Estados europeus, de maioria cristã.

• Ao construir personagens que atravessam rupturas e exílios, sua obra dialoga com dramas de deslocamento semelhantes aos vividos por palestinos e outros povos mundo afora. O tema do desenraizamento lhe parece algo incontornável no seu, digamos, projeto literário?
Você pode se sentir deslocado e desenraizado em sua própria terra. A literatura já é uma forma de exílio e deslocamento. Usei na epígrafe do Cinzas do Norte duas frases de Guimarães Rosa: “Eu sou donde eu nasci. Sou de outros lugares”. Meu pai e meus avós maternos migraram do Líbano para a Amazônia, mas são os refugiados e banidos de sua terra que sentem desespero e angústia. Nos meus romances, não há a “tristeza essencial do exilado”; que Edward Said cita em seu belo ensaio Reflexões sobre o exílio. Saí muito jovem de Manaus e fui morar sozinho em Brasília. Mas na minha infância e primeira juventude convivi com pessoas que, por motivos diversos, tiveram de deixar seu lugar de origem. A personagem Domingas, do Dois irmãos, foi inspirada nas mulheres indígenas que saíram ou foram forçadas a deixar sua comunidade. Nesse e em outros romances, as personagens deslocadas estão fora de seu lugar de origem, à margem da família. Esses narradores sentem algum tipo de orfandade ou são, de fato, órfãos. O único poder que eles e elas têm é contar suas histórias. Narram não apenas para sobreviver, mas também para trazer a memória ao tempo presente.

• Você foi eleito para a cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras. Que significado pessoal e literário tem esse ingresso?
Fiquei contente. Vários amigos e conhecidos, não apenas da ABL, me estimularam e apoiaram minha candidatura. É uma forma de reconhecimento da minha atividade de escritor, e uma homenagem aos leitores e aos professores e às professoras de literatura e ciências humanas que trabalham com meus romances, contos e crônicas. Vou continuar a dar palestras em escolas, universidades… Pretendo também publicar artigos e ensaios na Revista Brasileira, editada pela ABL.

• O seu nome esteve entre os autores favoritos ao Nobel de Literatura deste ano. Você acredita que a literatura brasileira já merecia ter ganhado um Nobel?
Sem dúvida, e há muito tempo. Memórias póstumas de Brás Cubas foi publicado em 1880. O primeiro prêmio Nobel de Literatura foi concedido em 1901. Depois de Machado de Assis, a Academia Sueca não premiou as obras de Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Lygia Fagundes Telles, João Cabral, Murilo Mendes, Jorge Amado… A lista é longa. Acho que os escritores não devem pensar em prêmios, quaisquer que sejam. O maior prêmio de um escritor é o leitor, principalmente o leitor de qualidade, como disse Tchekhov.

• Por que você considera a literatura como sendo o “reino da ambiguidade”?
Porque nós não somos, ou não devemos ser, donos de certezas nem de respostas definitivas, cabais. Nossa existência não se reduz ao solipsismo nem está sujeita a leis imprescritíveis. A ambiguidade faz parte de uma sondagem psicológica mais refinada, mais humana. Sem isso, você pode simplificar o modo de ser da personagem.

• As cartas — perdidas, rasgadas, censuradas — são fundamentais em Dança de enganos, algo que soa anacrônico nesta época de redes sociais e angustiantes pressa e instantaneidade. O que pode a literatura (este reino do silêncio) num mundo hiperconectado, marcado pela balbúrdia?
Olha, pensando bem… Não sei. Raduan Nassar disse que a literatura é “uma coisinha” na vasta corrente humana. Como sempre, o autor de Lavoura arcaica foi irônico e mordaz. A literatura é essencial para a formação humanista de qualquer pessoa. Essencial também para a nossa sensibilidade e imaginação. Sempre haverá leitores pacientes, concentrados e apaixonados. O poeta espanhol Juan Ramón Jiménez disse que a poesia é arte da imensa minoria. As redes sociais e as fake news são capazes de degradar a política e eleger cafajestes e facínoras, mas serão incapazes de acabar com a literatura.

• O que mais o assusta no Brasil de hoje?
Muita coisa… A adesão desavergonhada da maioria dos liberais à extrema direita. Isso é ainda mais grave porque todos sabem que o atual governo não tem nada de radical. Aliás, neste e nos dois mandatos anteriores, o governo do presidente Lula vem realizando um programa reformista, com políticas públicas direcionadas a reparações históricas e à diminuição da desigualdade social. São também assustadores o baixíssimo nível moral e intelectual de muitos deputados e senadores, o negacionismo quanto à ciência e às mudanças climáticas, a força devastadora das milícias e dos traficantes, a impunidade de governantes que, ao arrepio da lei, praticam chacinas. Tudo isso é assustador. Mas o Brasil não pode ser, por muito tempo, o que tem sido: um grande romance da desilusão.

LEIA resenha de Dança de enganos, escrita por João Almino.

Dança de enganos
Milton Hatoum
Companhia das Letras
256 págs.
Rogério Pereira

Nasceu em Galvão (SC), em 1973. Em 2000, fundou o jornal de literatura Rascunho. É criador e coordenador do projeto Paiol Literário. De janeiro de 2011 a abril de 2019, foi diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Tem contos publicados no Brasil, na Alemanha, na França e na Finlândia. É autor dos romances Antes do silêncio (2023) e Na escuridão, amanhã (2013, 2ª edição em 2023) — finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e traduzido na Colômbia (Babel Libros) — e da coletânea de narrativas breves Toda cicatriz desaparece (2022), organizada por Luiz Ruffato.

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