No romance Cláudia Vera Feliz Natal, Mariana Salomão Carrara, defensora pública desde 2011, dá vida a um juiz jovem, inseguro e atormentado pelo peso de decidir. Estruturada como uma peça de defesa à Corregedoria, a narrativa contrapõe a solenidade da linguagem jurídica à fragilidade de um homem incapaz de conduzir a própria existência com a mesma autoridade com que decide sobre a vida dos outros. Nesta entrevista ao Rascunho, concedida por e-mail, Mariana fala sobre a construção dessa voz masculina, a pesquisa em torno do Judiciário, os limites da verdade judicial, a presença do cinema em sua escrita e os temas que atravessam seus livros, como finitude, maternidade e vínculos humanos.
• Cláudia Vera Feliz Natal apresenta-se como uma longa defesa apresentada por um juiz à Corregedoria, mas nela cabe praticamente uma vida inteira. O romance nasceu primeiro do personagem (um juiz atormentado pelo ofício), das cidades ou da ideia de transformar uma peça de defesa em narrativa literária?
O personagem surgiu da vontade de finalmente trazer minha experiência no mundo jurídico diretamente para o meu universo literário, com muita intimidade e, ao mesmo tempo, sem me ater apenas ao que eu vi e vivi no meu trabalho. Então, desde logo surgiu a vontade de deslocar o olhar para o ofício do juiz, aproveitando minha vivência para então expandir a pesquisa para os temas ligados a decidir e a ser uma pessoa conhecida por decidir a vida de todos nessas pequenas comarcas. Logo surgiu esse homem que se sente aviltado pelo processo na Corregedoria e acaba por traduzir a falência de sua vida pessoal e a angústia vocacional na linguagem técnica e rígida de uma peça de defesa. As cidades vieram logo depois, como a geografia perfeita para o isolamento desse homem. Minha escolha foi tão aleatória quanto é, na realidade, o deslocamento de profissionais aprovados em grandes concursos.
• Você é defensora pública desde 2011 e conhece o funcionamento da Justiça nos seus meandros. Em Cláudia Vera Feliz Natal, porém, colocou no centro da narrativa um juiz, justamente aquele que detém o poder de dar a palavra final. O que lhe interessava observar a partir dessa perspectiva?
Parece uma posição de enorme poder isso de ter a palavra final sobre todos os temas, decidir e determinar o destino de acusados e litigantes. Mas o juiz opera na solidão de decidir. A perspectiva do magistrado me permitiu explorar o avesso desse poder: o desamparo, a insegurança, a crise de quem tem que determinar as soluções justas quando todo o sistema construído para operar a justiça não prevê, de fato, soluções. O que os operadores da Justiça têm a oferecer à população é, na maioria das vezes, insuficiente ou essencialmente injusto. A pessoa que sentencia está condenada a ser constantemente injusta.
• Depois de construir romances conduzidos principalmente por vozes femininas, você retorna a um narrador homem. O que a escolha dessa voz narrativa — um homem tímido, solitário, inseguro e com enorme poder — lhe permitiu explorar de diferente?
Eu queria trazer um juiz muito inseguro sobre a sua vocação, perdido nas dinâmicas de poder e micropoder, que, quando é acionado por uma falta funcional, se torna, em certa medida, irracional, abrindo sua intimidade e o relato de vários anos de carreira numa peça processual formal. Se colocasse uma juíza assim frágil e perdida nas suas inseguranças, eu apenas reforçaria um estereótipo, uma impressão de que a magistratura seria uma carreira imprópria para o excesso de zelo e ponderação femininos. Assim que comecei a escrita, percebi que um homem que não performa a masculinidade dentro do formato dessas estruturas de poder e, pelo contrário, expõe suas vulnerabilidades ajudaria a mostrar a lógica por trás da autoridade — e do autoritarismo. Além disso, essa escolha me permitiu visitar um pouco os caminhos da amizade masculina, ou da difícil intimidade entre homens.
• Seu protagonista é atravessado por dúvidas: sobre a profissão, sobre suas decisões, sobre as pessoas à sua volta e até sobre o rumo da própria vida. O que mais lhe interessava nele durante o processo de escrita?
Acho que me interessava a fragilidade dele como um todo, que vinha, penso eu, principalmente da sua desconexão com os próprios sentimentos. Somente quando foi apresentado ao seu novo dia a dia é que ele se perguntou se realmente gostaria de ser juiz — decidir seria mesmo uma atividade para a vida dele? Quis mergulhar também no “pavor de decidir”, de ter a palavra final sobre todo e qualquer caso. O que me moveu foi a paralisia dessa figura que, por trás do vernáculo às vezes empolado e do tom solene, é um indivíduo cansado, isolado e sofrendo na tentativa de fazer vínculos afetivos e exercer a autoridade que pensava vir tão automaticamente com o cargo.
• Há uma contradição muito forte no personagem: ele ocupa um lugar que exige que decida sobre a vida dos outros, mas tem enorme dificuldade para tomar decisões sobre a própria existência. Essa tensão estava na origem do personagem ou foi se revelando ao longo da escrita?
Sim, acredito que essa tensão já estava no caminho desde o início. O narrador traz dificuldades de vínculo e intimidade que podemos também atribuir genericamente aos homens e aos profissionais do Direito, perdidos entre os tratamentos formais, as disputas de poder e as tradições consagradas. Ele é um sujeito peculiar, que tem muito boas intenções, mas uma dissintonia profunda com os próprios sentimentos, sendo incapaz de governar a própria rotina familiar ao mesmo tempo em que decide peremptoriamente sobre a vida de todos. Em alguns momentos, chega a se questionar se “entende de gente” o suficiente para poder trabalhar. Ele segue com a sensação de que toda a sua vida atual é provisória, de que as pessoas são transitórias e de que a própria escolha de carreira é apavorantemente questionada após anos de estudo para o concurso.
• A frase “De todas as minhas novas solidões, decidir era a mais grave” está destacada na contracapa do romance. O que há de tão solitário no ato de decidir sobre a vida dos outros?
Embora o narrador tivesse dificuldade mesmo em casos mais rotineiros, podemos tomar como exemplo o tema que os juízes que entrevistei e aqueles cujos relatos pessoais eu li mais trouxeram como uma de suas maiores angústias: a destituição do poder familiar. O juiz pode e deve consultar profissionais de outras áreas para apoiar sua decisão, mas é ele quem vai ouvir as partes e decidir, por fim, se aquela criança crescerá com sua mãe ou não. Uma pena perpétua. É o nome dele na decisão, a palavra final, que ele vai motivar com todos os termos jurídicos e argumentos fáticos; ninguém está com ele nessa decisão e nas suas consequências. Se a decisão é ditada em audiência, é a voz do juiz ou da juíza, sozinha, que vai preenchendo a sala e desenhando futuros. Não digo com isso, de forma alguma, que seja melhor ser a criança, ser a mãe sem a criança, ser um condenado. Cada posto ali tem a sua solidão.

• Ainda sobre esse tema, a OMS estima que uma em cada seis pessoas no mundo sofra com a solidão. O que a solidão faz com o seu personagem — e, por extensão, com a nossa capacidade de viver entre os outros?
A solidão gera um perene estranhamento alienígena, com breves encontros ou confrontos em relações sociais genéricas e temporárias, sem afinidade real. O juiz começa a sentir que a sua vida nem sequer está acontecendo, tamanha a falta de testemunhas do seu dia a dia, de cúmplices das suas decisões e das suas horas livres. Não se dedica propriamente à sua moradia, porque sente que também é provisória, como os vínculos que vêm e vão. Passam anos e anos “provisórios” e, mesmo quando começa uma vida conjugal, acontece o alívio da companhia, os gestos rotineiros ganham significado pela troca de afetos, mas, ainda assim, ele não alcança de fato o outro. E é a redação dessa defesa que pode ajudá-lo a alcançar pelo menos a si mesmo, a apanhar a “corda” dos seus dias.
• Em certo momento, o narrador observa que a lei, “de modo geral, não faz justiça”. Quanto dessa afirmação é do personagem e quanto é seu?
É uma constatação da minha prática de quinze anos na Defensoria Pública, em que testemunho as soluções tão estéreis que o sistema prevê para os conflitos da população mais vulnerável. A frustração com o fato de que esse prestigioso ofício não dá conta de resolver a maior parte das injustiças da nação é uma angústia real. A afirmação pertence a nós dois, porque vivenciamos como a engrenagem burocrática falha um pouco todos os dias. Mas, assim como o defensor público consegue fornecer um atendimento que ampara e pode melhorar relacionamentos familiares, por exemplo, ou dilemas de vizinhança, tudo para além do sistema de justiça, o personagem juiz também percorre um caminho até perceber, observando colegas e a atuação especial de uma promotora específica, que pode ser agente de transformação social nessas cidades.
• O romance é também muito engraçado em situações frequentemente brutais. Como você encontrou o limite entre humor e crueldade?
O ruído entre o tom solene da defesa formal e a abertura sentimental é, para mim, o humor central. Eu queria que esse livro fosse essencialmente engraçado, e isso não é o oposto de denso ou comovente; pelo contrário. O riso desarma, deixa o leitor receptivo para a próxima emoção, inclusive a dor. Dependendo da forma como olhamos os ritos jurídicos, eles podem ser ridículos, sobretudo quando são o invólucro para discussões acaloradas, fruto da atuação diária dos profissionais juntos em todas as causas. Os ânimos se acirram, e o léxico forense escalona em emoções incompatíveis com as suas solenidades, enquanto o cidadão observa sem compreender se algo ali vai, de fato, resolver sua situação ou selar o seu destino. Tudo isso pode ser ridículo, risível e, ao mesmo tempo, dolorido. O humor eleva um pouco os assuntos, permitindo que os enxerguemos com mais detalhes do que quando estão pesadamente derrubados sobre nós.
• Ao longo do romance, o narrador transforma mentalmente a própria vida em um filme e imagina uma câmera acompanhando suas cenas. Esse olhar cinematográfico diz algo também sobre a sua maneira de escrever? Que importância o cinema tem na sua formação e na sua obra?
Amo cinema e teatro, acredito que muito dos meus livros me vêm, de certa forma, em cenas. Mas, no caso do juiz, ainda há o fato de que ele se sente quase inexistente de tão “inobservado” e, por isso, começa a imaginar que isso tudo só pode ser um filme, que há uma câmera dando sentido estético e emocional à sua rotina de picar cebolas e refogá-las sozinho na sua cozinha imensa e provisória, como toda a sua vida.
• Cláudia, Vera e Feliz Natal são municípios reais do Mato Grosso, mas juntos parecem uma frase inventada. Quando você percebeu que esses três nomes formavam o título?
Foi uma conversa com um defensor de São Paulo que casualmente comentou que já tinha sido defensor no Mato Grosso, na cidade de Cláudia. Diante do meu estranhamento com o nome, falou que havia também as cidades de Vera e Feliz Natal. Comentei que isso dava um título de livro e fiquei sentindo que já formavam o nome do livro que eu ia começar. Um título com tom festivo, familiar e feminino, para uma história narrada por um homem sozinho e perdido entre processos e funcionários da Justiça.
• Nos agradecimentos, você cita juristas, funcionários, jornalistas, amigos e leitores que lhe cederam experiências e memórias. O que foi mais difícil: inventar o absurdo ou conter o absurdo da realidade?
Esse livro é bastante fiel à “verdade”. Traz muitos casos e acontecimentos muito próximos à realidade forense de modo geral ou a relatos que de fato ouvi ou presenciei, ainda que misturados, deslocados de suas origens e desvinculados das pessoas reais. Todo absurdo ali foi o que a vida trouxe para mim. Coletei depoimentos de pessoas que passaram por comarcas muito pequenas em todo o Brasil e pesquisei jurisprudência local e materiais de tribunais com memórias de magistrados. O desafio foi retratar situações que, no cotidiano forense, são tão chocantes ou caricatas que parecem sair de um olhar maniqueísta.
• No caso de Dalila e Brígida, o juiz só consegue decidir quando aceita que talvez jamais descubra qual das duas está mentindo. O romance também pode ser lido como uma exploração dos limites da verdade judicial?
É um caso verdadeiramente impossível de decidir apenas pela “verdade”, que não virá à tona, e envolve, ao mesmo tempo, a urgência do tempo da infância. Diante de um julgador de fato interessado em apurar a verdade real, são necessários outros olhares para trazer a percepção de que nem só a verdade serve de resposta quando estamos falando dos vínculos humanos. Eu quis trazer, agora com um debate jurídico, temas que costumo trazer nos livros e conversas: a amizade como família, as famílias plurais, os contornos da maternidade.
• A paternidade muda a maneira como o juiz olha para o processo de Dalila e Brígida. Até que ponto julgamos os outros com a vida que estamos vivendo?
O que mais gosto de falar nas conversas literárias sobre o trabalho na Justiça é da necessidade de exercício constante de empatia, que acredito ser muito bem estimulado por leituras, filmes e pela arte de modo geral, por nos ajudar a chegar o tempo todo à história do outro. Ainda assim, muitos operadores do Direito parecem ilhados nas suas realidades, alienados das condições pessoais e da história de quem eles condenam. No caso desse juiz, que já tem uma dificuldade própria de entender as relações e os sentimentos, as novidades na sua vida pessoal acabam sendo uma forma de investigação íntima sobre temas como a parentalidade.
• Em meio à atual crise do STF, com ministros trocando acusações publicamente, seu juiz parece o avesso da figura do magistrado infalível: ele é consumido pela dúvida. O Judiciário brasileiro precisaria duvidar mais de si mesmo?
O livro expõe o ridículo das rusgas, das pequenas disputas de poder e dos conflitos ideológicos entre os atores do Judiciário. Mostrar um juiz jovem consumido pela lentidão e pela dúvida talvez desmistifique um pouco essa imagem de ciência exata e impessoal do Direito e da lei. Mas o narrador já surge com um atributo que adoraríamos ver sempre em todo o Judiciário: ele se importa.
• Na Bienal de São Paulo, seus livros estiveram entre os mais vendidos do estande da Todavia. Como você avalia a sua evolução como autora, levando em conta ter ganhado duas vezes o Prêmio São Paulo, e alcançando um número expressivo de leitores?
Desde Se Deus me chamar não vou, publicado em 2019, comecei a conhecer o poder da literatura participando dos clubes de leitura que me chamavam para debater o livro. Descobrir tudo o que o livro vira na mão dos leitores e ser parte dessa troca foi uma novidade bem importante para o meu percurso como escritora. Desde então, tenho vivido conversas muito diferentes entre si, em clubes específicos, até pela diversidade dos temas e das minhas abordagens em cada livro. Agora, com Cláudia, Vera Feliz Natal, tem sido divertido e muito comovente conversar sobre o que eu sei do trabalho na Justiça e fazer essa conversa por meio da literatura, tanto nos ambientes institucionais jurídicos como com plateias leigas, que enriquecem muito a conversa com suas curiosidades frescas, tudo isso sensibilizado pelo poder de uma história. Os prêmios também ajudaram a expandir a carreira internacionalmente, e é fascinante acompanhar o trabalho de tradução e depois conversar com leitores de outros países.
• Seus romances mudam muito de forma, de voz e de estrutura. O que você reconhece hoje como uma espécie de obsessão que perpassa todos eles?
Acho que, de alguma forma, o medo da morte e a frustração com a finitude sempre vão me assombrar. A força e também a fragilidade dos vínculos, as culpas e as dificuldades da maternidade. Em todos os livros, em comum, vejo o fato de que são íntimos, tratados de muito perto da cabeça dos narradores, de dentro de suas casas, histórias de detalhes.