A solidão de decidir

No romance "Cláudia Vera Feliz Natal", Mariana Salomão Carrara explora solidão, dúvida e poder ao acompanhar um juiz às voltas com decisões e afetos
Mariana Salomão Carrara, autora de “Cláudia Vera Feliz Natal”. Foto: Renato Parada
01/10/2026

No romance Cláudia Vera Feliz Natal, Mariana Salomão Carrara, defensora pública desde 2011, dá vida a um juiz jovem, inseguro e atormentado pelo peso de decidir. Estruturada como uma peça de defesa à Corregedoria, a narrativa contrapõe a solenidade da linguagem jurídica à fragilidade de um homem incapaz de conduzir a própria existência com a mesma autoridade com que decide sobre a vida dos outros. Nesta entrevista ao Rascunho, concedida por e-mail, Mariana fala sobre a construção dessa voz masculina, a pesquisa em torno do Judiciário, os limites da verdade judicial, a presença do cinema em sua escrita e os temas que atravessam seus livros, como finitude, maternidade e vínculos humanos.

• Cláudia Vera Feliz Natal apresenta-se como uma longa defesa apresentada por um juiz à Corregedoria, mas nela cabe praticamente uma vida inteira. O romance nasceu primeiro do personagem (um juiz atormentado pelo ofício), das cidades ou da ideia de transformar uma peça de defesa em narrativa literária?
O personagem surgiu da vontade de finalmente trazer minha experiência no mundo jurídico diretamente para o meu universo literário, com muita intimidade e, ao mesmo tempo, sem me ater apenas ao que eu vi e vivi no meu trabalho. Então, desde logo surgiu a vontade de deslocar o olhar para o ofício do juiz, aproveitando minha vivência para então expandir a pesquisa para os temas ligados a decidir e a ser uma pessoa conhecida por decidir a vida de todos nessas pequenas comarcas. Logo surgiu esse homem que se sente aviltado pelo processo na Corregedoria e acaba por traduzir a falência de sua vida pessoal e a angústia vocacional na linguagem técnica e rígida de uma peça de defesa. As cidades vieram logo depois, como a geografia perfeita para o isolamento desse homem. Minha escolha foi tão aleatória quanto é, na realidade, o deslocamento de profissionais aprovados em grandes concursos.

• Você é defensora pública desde 2011 e conhece o funcionamento da Justiça nos seus meandros. Em Cláudia Vera Feliz Natal, porém, colocou no centro da narrativa um juiz, justamente aquele que detém o poder de dar a palavra final. O que lhe interessava observar a partir dessa perspectiva?
Parece uma posição de enorme poder isso de ter a palavra final sobre todos os temas, decidir e determinar o destino de acusados e litigantes. Mas o juiz opera na solidão de decidir. A perspectiva do magistrado me permitiu explorar o avesso desse poder: o desamparo, a insegurança, a crise de quem tem que determinar as soluções justas quando todo o sistema construído para operar a justiça não prevê, de fato, soluções. O que os operadores da Justiça têm a oferecer à população é, na maioria das vezes, insuficiente ou essencialmente injusto. A pessoa que sentencia está condenada a ser constantemente injusta.

• Depois de construir romances conduzidos principalmente por vozes femininas, você retorna a um narrador homem. O que a escolha dessa voz narrativa — um homem tímido, solitário, inseguro e com enorme poder — lhe permitiu explorar de diferente?
Eu queria trazer um juiz muito inseguro sobre a sua vocação, perdido nas dinâmicas de poder e micropoder, que, quando é acionado por uma falta funcional, se torna, em certa medida, irracional, abrindo sua intimidade e o relato de vários anos de carreira numa peça processual formal. Se colocasse uma juíza assim frágil e perdida nas suas inseguranças, eu apenas reforçaria um estereótipo, uma impressão de que a magistratura seria uma carreira imprópria para o excesso de zelo e ponderação femininos. Assim que comecei a escrita, percebi que um homem que não performa a masculinidade dentro do formato dessas estruturas de poder e, pelo contrário, expõe suas vulnerabilidades ajudaria a mostrar a lógica por trás da autoridade — e do autoritarismo. Além disso, essa escolha me permitiu visitar um pouco os caminhos da amizade masculina, ou da difícil intimidade entre homens.

• Seu protagonista é atravessado por dúvidas: sobre a profissão, sobre suas decisões, sobre as pessoas à sua volta e até sobre o rumo da própria vida. O que mais lhe interessava nele durante o processo de escrita?
Acho que me interessava a fragilidade dele como um todo, que vinha, penso eu, principalmente da sua desconexão com os próprios sentimentos. Somente quando foi apresentado ao seu novo dia a dia é que ele se perguntou se realmente gostaria de ser juiz — decidir seria mesmo uma atividade para a vida dele? Quis mergulhar também no “pavor de decidir”, de ter a palavra final sobre todo e qualquer caso. O que me moveu foi a paralisia dessa figura que, por trás do vernáculo às vezes empolado e do tom solene, é um indivíduo cansado, isolado e sofrendo na tentativa de fazer vínculos afetivos e exercer a autoridade que pensava vir tão automaticamente com o cargo.

• Há uma contradição muito forte no personagem: ele ocupa um lugar que exige que decida sobre a vida dos outros, mas tem enorme dificuldade para tomar decisões sobre a própria existência. Essa tensão estava na origem do personagem ou foi se revelando ao longo da escrita?
Sim, acredito que essa tensão já estava no caminho desde o início. O narrador traz dificuldades de vínculo e intimidade que podemos também atribuir genericamente aos homens e aos profissionais do Direito, perdidos entre os tratamentos formais, as disputas de poder e as tradições consagradas. Ele é um sujeito peculiar, que tem muito boas intenções, mas uma dissintonia profunda com os próprios sentimentos, sendo incapaz de governar a própria rotina familiar ao mesmo tempo em que decide peremptoriamente sobre a vida de todos. Em alguns momentos, chega a se questionar se “entende de gente” o suficiente para poder trabalhar. Ele segue com a sensação de que toda a sua vida atual é provisória, de que as pessoas são transitórias e de que a própria escolha de carreira é apavorantemente questionada após anos de estudo para o concurso.

• A frase “De todas as minhas novas solidões, decidir era a mais grave” está destacada na contracapa do romance. O que há de tão solitário no ato de decidir sobre a vida dos outros?
Embora o narrador tivesse dificuldade mesmo em casos mais rotineiros, podemos tomar como exemplo o tema que os juízes que entrevistei e aqueles cujos relatos pessoais eu li mais trouxeram como uma de suas maiores angústias: a destituição do poder familiar. O juiz pode e deve consultar profissionais de outras áreas para apoiar sua decisão, mas é ele quem vai ouvir as partes e decidir, por fim, se aquela criança crescerá com sua mãe ou não. Uma pena perpétua. É o nome dele na decisão, a palavra final, que ele vai motivar com todos os termos jurídicos e argumentos fáticos; ninguém está com ele nessa decisão e nas suas consequências. Se a decisão é ditada em audiência, é a voz do juiz ou da juíza, sozinha, que vai preenchendo a sala e desenhando futuros. Não digo com isso, de forma alguma, que seja melhor ser a criança, ser a mãe sem a criança, ser um condenado. Cada posto ali tem a sua solidão.

Mariana Salomão Carrara. Foto: Renato Parada

• Ainda sobre esse tema, a OMS estima que uma em cada seis pessoas no mundo sofra com a solidão. O que a solidão faz com o seu personagem — e, por extensão, com a nossa capacidade de viver entre os outros?
A solidão gera um perene estranhamento alienígena, com breves encontros ou confrontos em relações sociais genéricas e temporárias, sem afinidade real. O juiz começa a sentir que a sua vida nem sequer está acontecendo, tamanha a falta de testemunhas do seu dia a dia, de cúmplices das suas decisões e das suas horas livres. Não se dedica propriamente à sua moradia, porque sente que também é provisória, como os vínculos que vêm e vão. Passam anos e anos “provisórios” e, mesmo quando começa uma vida conjugal, acontece o alívio da companhia, os gestos rotineiros ganham significado pela troca de afetos, mas, ainda assim, ele não alcança de fato o outro. E é a redação dessa defesa que pode ajudá-lo a alcançar pelo menos a si mesmo, a apanhar a “corda” dos seus dias.

• Em certo momento, o narrador observa que a lei, “de modo geral, não faz justiça”. Quanto dessa afirmação é do personagem e quanto é seu?
É uma constatação da minha prática de quinze anos na Defensoria Pública, em que testemunho as soluções tão estéreis que o sistema prevê para os conflitos da população mais vulnerável. A frustração com o fato de que esse prestigioso ofício não dá conta de resolver a maior parte das injustiças da nação é uma angústia real. A afirmação pertence a nós dois, porque vivenciamos como a engrenagem burocrática falha um pouco todos os dias. Mas, assim como o defensor público consegue fornecer um atendimento que ampara e pode melhorar relacionamentos familiares, por exemplo, ou dilemas de vizinhança, tudo para além do sistema de justiça, o personagem juiz também percorre um caminho até perceber, observando colegas e a atuação especial de uma promotora específica, que pode ser agente de transformação social nessas cidades.

• O romance é também muito engraçado em situações frequentemente brutais. Como você encontrou o limite entre humor e crueldade?
O ruído entre o tom solene da defesa formal e a abertura sentimental é, para mim, o humor central. Eu queria que esse livro fosse essencialmente engraçado, e isso não é o oposto de denso ou comovente; pelo contrário. O riso desarma, deixa o leitor receptivo para a próxima emoção, inclusive a dor. Dependendo da forma como olhamos os ritos jurídicos, eles podem ser ridículos, sobretudo quando são o invólucro para discussões acaloradas, fruto da atuação diária dos profissionais juntos em todas as causas. Os ânimos se acirram, e o léxico forense escalona em emoções incompatíveis com as suas solenidades, enquanto o cidadão observa sem compreender se algo ali vai, de fato, resolver sua situação ou selar o seu destino. Tudo isso pode ser ridículo, risível e, ao mesmo tempo, dolorido. O humor eleva um pouco os assuntos, permitindo que os enxerguemos com mais detalhes do que quando estão pesadamente derrubados sobre nós.

• Ao longo do romance, o narrador transforma mentalmente a própria vida em um filme e imagina uma câmera acompanhando suas cenas. Esse olhar cinematográfico diz algo também sobre a sua maneira de escrever? Que importância o cinema tem na sua formação e na sua obra?
Amo cinema e teatro, acredito que muito dos meus livros me vêm, de certa forma, em cenas. Mas, no caso do juiz, ainda há o fato de que ele se sente quase inexistente de tão “inobservado” e, por isso, começa a imaginar que isso tudo só pode ser um filme, que há uma câmera dando sentido estético e emocional à sua rotina de picar cebolas e refogá-las sozinho na sua cozinha imensa e provisória, como toda a sua vida.

• Cláudia, Vera e Feliz Natal são municípios reais do Mato Grosso, mas juntos parecem uma frase inventada. Quando você percebeu que esses três nomes formavam o título?
Foi uma conversa com um defensor de São Paulo que casualmente comentou que já tinha sido defensor no Mato Grosso, na cidade de Cláudia. Diante do meu estranhamento com o nome, falou que havia também as cidades de Vera e Feliz Natal. Comentei que isso dava um título de livro e fiquei sentindo que já formavam o nome do livro que eu ia começar. Um título com tom festivo, familiar e feminino, para uma história narrada por um homem sozinho e perdido entre processos e funcionários da Justiça.

• Nos agradecimentos, você cita juristas, funcionários, jornalistas, amigos e leitores que lhe cederam experiências e memórias. O que foi mais difícil: inventar o absurdo ou conter o absurdo da realidade?
Esse livro é bastante fiel à “verdade”. Traz muitos casos e acontecimentos muito próximos à realidade forense de modo geral ou a relatos que de fato ouvi ou presenciei, ainda que misturados, deslocados de suas origens e desvinculados das pessoas reais. Todo absurdo ali foi o que a vida trouxe para mim. Coletei depoimentos de pessoas que passaram por comarcas muito pequenas em todo o Brasil e pesquisei jurisprudência local e materiais de tribunais com memórias de magistrados. O desafio foi retratar situações que, no cotidiano forense, são tão chocantes ou caricatas que parecem sair de um olhar maniqueísta.

• No caso de Dalila e Brígida, o juiz só consegue decidir quando aceita que talvez jamais descubra qual das duas está mentindo. O romance também pode ser lido como uma exploração dos limites da verdade judicial?
É um caso verdadeiramente impossível de decidir apenas pela “verdade”, que não virá à tona, e envolve, ao mesmo tempo, a urgência do tempo da infância. Diante de um julgador de fato interessado em apurar a verdade real, são necessários outros olhares para trazer a percepção de que nem só a verdade serve de resposta quando estamos falando dos vínculos humanos. Eu quis trazer, agora com um debate jurídico, temas que costumo trazer nos livros e conversas: a amizade como família, as famílias plurais, os contornos da maternidade.

• A paternidade muda a maneira como o juiz olha para o processo de Dalila e Brígida. Até que ponto julgamos os outros com a vida que estamos vivendo?
O que mais gosto de falar nas conversas literárias sobre o trabalho na Justiça é da necessidade de exercício constante de empatia, que acredito ser muito bem estimulado por leituras, filmes e pela arte de modo geral, por nos ajudar a chegar o tempo todo à história do outro. Ainda assim, muitos operadores do Direito parecem ilhados nas suas realidades, alienados das condições pessoais e da história de quem eles condenam. No caso desse juiz, que já tem uma dificuldade própria de entender as relações e os sentimentos, as novidades na sua vida pessoal acabam sendo uma forma de investigação íntima sobre temas como a parentalidade.

• Em meio à atual crise do STF, com ministros trocando acusações publicamente, seu juiz parece o avesso da figura do magistrado infalível: ele é consumido pela dúvida. O Judiciário brasileiro precisaria duvidar mais de si mesmo?
O livro expõe o ridículo das rusgas, das pequenas disputas de poder e dos conflitos ideológicos entre os atores do Judiciário. Mostrar um juiz jovem consumido pela lentidão e pela dúvida talvez desmistifique um pouco essa imagem de ciência exata e impessoal do Direito e da lei. Mas o narrador já surge com um atributo que adoraríamos ver sempre em todo o Judiciário: ele se importa.

• Na Bienal de São Paulo, seus livros estiveram entre os mais vendidos do estande da Todavia. Como você avalia a sua evolução como autora, levando em conta ter ganhado duas vezes o Prêmio São Paulo, e alcançando um número expressivo de leitores?
Desde Se Deus me chamar não vou, publicado em 2019, comecei a conhecer o poder da literatura participando dos clubes de leitura que me chamavam para debater o livro. Descobrir tudo o que o livro vira na mão dos leitores e ser parte dessa troca foi uma novidade bem importante para o meu percurso como escritora. Desde então, tenho vivido conversas muito diferentes entre si, em clubes específicos, até pela diversidade dos temas e das minhas abordagens em cada livro. Agora, com Cláudia, Vera Feliz Natal, tem sido divertido e muito comovente conversar sobre o que eu sei do trabalho na Justiça e fazer essa conversa por meio da literatura, tanto nos ambientes institucionais jurídicos como com plateias leigas, que enriquecem muito a conversa com suas curiosidades frescas, tudo isso sensibilizado pelo poder de uma história. Os prêmios também ajudaram a expandir a carreira internacionalmente, e é fascinante acompanhar o trabalho de tradução e depois conversar com leitores de outros países.

• Seus romances mudam muito de forma, de voz e de estrutura. O que você reconhece hoje como uma espécie de obsessão que perpassa todos eles?
Acho que, de alguma forma, o medo da morte e a frustração com a finitude sempre vão me assombrar. A força e também a fragilidade dos vínculos, as culpas e as dificuldades da maternidade. Em todos os livros, em comum, vejo o fato de que são íntimos, tratados de muito perto da cabeça dos narradores, de dentro de suas casas, histórias de detalhes.

Cláudia Vera Feliz Natal
Mariana Salomão Carrara
Todavia
232 págs.
Rogério Pereira

Nasceu em Galvão (SC), em 1973. Em 2000, fundou o jornal de literatura Rascunho. É criador e coordenador do projeto Paiol Literário. De janeiro de 2011 a abril de 2019, foi diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Tem contos publicados no Brasil, na Alemanha, na França e na Finlândia. É autor dos romances Antes do silêncio (2023) e Na escuridão, amanhã (2013, 2ª edição em 2023) — finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e traduzido na Colômbia (Babel Libros) — e da coletânea de narrativas breves Toda cicatriz desaparece (2022), organizada por Luiz Ruffato.

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