A organização do caos

A partir de Batida só, Giovana Madalosso fala sobre doença, fé, política e escrita como forma de dar sentido ao descontrole da vida
Giovana Madalosso, autora de “Batida só”. Foto: Jairo Goldfluss
01/02/2026

Batida só, de Giovana Madalosso, promete percorrer uma consistente trajetória de sucesso. Lançado no ano passado, o romance figurou nas principais listas de melhores livros organizadas por veículos da imprensa brasileira e consolida a autora como uma das vozes centrais da ficção contemporânea. Partindo de um episódio de violência seguido do diagnóstico de uma doença cardíaca, a narrativa acompanha a protagonista Maria João em um percurso marcado pela vulnerabilidade do corpo, pela perda de controle e pelas tensões entre razão, fé e desejo. Nesta entrevista, Madalosso fala sobre os temas que atravessam Batida só — doença, espiritualidade, sexualidade e amizade — e reflete sobre a potência da literatura como forma de organizar o caos da experiência humana. Comenta ainda sua trajetória, a atuação pública dos escritores e o espaço conquistado pelas mulheres na literatura brasileira.

• Batida só parte de um episódio traumático — uma agressão na rua, seguida do diagnóstico de uma doença cardíaca — para desencadear uma profunda jornada emocional e existencial da protagonista. Como a violência física e as inquietações interiores ajudam a entender a construção da narradora Maria João?
A doença revela, como poucas coisas na vida, a nossa falta de controle. Temos a ilusão de que podemos controlar tudo. E, até um certo e limitado ponto, podemos; mas então a doença aparece e mostra que não temos pulso sobre quase nada, nem sobre aquilo que parece tão do nosso domínio: o corpo. Maria João é uma personagem metódica e controladora. Não a construí dessa forma à toa: queria que a doença lhe desse uma rasteira e lhe fizesse se abrir para o inesperado. Que escritora controladora!

• No romance há uma permanente tensão entre fé e ceticismo. De um lado, a protagonista é uma ferrenha ateia. De outro, a fé move personagens em busca da cura para graves doenças. Como você enxerga essa tensão em sua própria vida e no Brasil, um país formado, em sua maioria, por católicos e evangélicos?
Vivemos em um país de fé. Minha filha enfrentou, quando era criança, uma doença cardíaca, da qual já está curada. Foi daí que nasceu a inspiração para Batida só. Na época em que o quadro estava grave, eu e ela recebemos dos nossos amigos rosários, santinhos, correntes de orações, convites para ir ao terreiro e a centros espíritas. Até aqueles que eram ateus, como eu, vinham nos propor alguma coisa, como um banho de sal. O Brasil é isso, um país de um sincretismo acolhedor, que me acolheu quando precisei, e sou grata por isso. Agora, esse mesmo país que se beneficia da fé, às vezes, também é prejudicado por ela, quando a religião entra no campo político. Esse é um assunto complexo e urgente, mas logo entendi que não teria espaço para tratar de tanto nesse romance. Escrever um livro é fazer escolhas, e decidi focar meu drama não em tal ou tal crença, mas no conflito entre ateísmo, religiosidade e espiritualidade, representados, respectivamente, por Maria João, Sara e Nico.

• Deus tem algum lugar na sua vida, levando em conta que você vem de uma família de imigrantes italianos, cujo ambiente doméstico, em geral, está muito atrelado à fé cristã?
Acho que sou ateia desde os oito anos de idade, quando meus pais e minha avó, muito católica, me intimaram a fazer a primeira comunhão na Igreja de Santa Felicidade, e eu disse que não iria porque não acreditava em Deus. De onde tirei isso? Não faço ideia. Talvez tenha sido só uma desculpa para não ir às aulas de catequese. Fato é que fui me consolidando como ateia, a ponto de passar décadas sem nem pensar nesse assunto, até a vida me confrontar com a doença da minha filha. No fundo, foi mais a minha história, e não a da minha filha, que serviu de inspiração para Batida só. O périplo que fiz por tantos centros religiosos e destinos de cura para conseguir ter alguma fé, uma migalhinha que fosse. O problema é que, em vez de me entregar, eu ficava de olhos abertos, observando tudo e só pensando: preciso escrever sobre isso. Não me surpreende que o milagre desejado não tenha acontecido (risos). Nos últimos anos, acabei me aproximando do budismo, uma crença que aceita a minha dúvida, que aceita o não crer.

• Você acha que o mundo seria um lugar melhor para se viver se Deus estivesse morto, levando-se em conta as atrocidades que o homem ainda comete em nome Dele?
Se Deus estivesse morto, o homem inventaria imediatamente outra justificativa para fazer o que deseja. O desejo é Deus.

• A amizade entre Maria João e Sara atravessa diferenças radicais de visão de mundo (razão/ceticismo x fé/religiosidade). Ao construir essa relação, quais nuances da convivência humana você mais quis destacar?
Quis destacar aquela polaridade que todo brasileiro conhece. E também aquele julgamento apressado que fazemos das pessoas, considerando que tal ou tal indivíduo presta ou não presta, baseado unicamente em suas escolhas políticas ou religiosas. Sara aparece na vida de Maria João para derrubar esses julgamentos e preconceitos dos quais eu mesma, às vezes, sou vítima; às vezes, algoz. Apesar das diferenças entre as duas personagens, Sara acaba por se mostrar uma amiga incrível, ponta firme, alguém que está ao lado de Maria João quando outros amigos, de maior afinidade ideológica, faltaram.

• Batida só lida com a vulnerabilidade, a doença, a morte e o cuidado. Em tempos em que muitos valorizam a produtividade a qualquer custo, o que o romance convida a repensar sobre a vida e a existência?
Que precisamos parar e ouvir o corpo. Sem o corpo, não há nada.

• O filósofo coreano-germano, em Sociedade do cansaço, diz que a sociedade disciplinar — aquela voltada ao dever — “gera loucos e delinquentes” e “a sociedade do desempenho [na qual vivemos], ao contrário, produz depressivos e fracassados”. Você acredita que esta visão dialoga, de alguma maneira, com Batida só?
Sim. Sociedade do cansaço é um livro que me marcou, que foi citado em várias das minhas colunas e que influenciou Batida só. Mesmo antes de ler, eu já escrevia sobre esse tema. Senti a “sociedade do cansaço” na pele, durante os anos em que trabalhei como redatora publicitária em São Paulo, com cargas horárias que iam de dez a dezoito horas por dia e, como muitos dos meus colegas, acabei adoecendo. Tanto que a crítica a esse sistema já aparece, de formas distintas, no conto A teta racional (mãe que ordenha o leite do puerpério no banheiro da empresa), nos romances Tudo pode ser roubado (“bem-sucedidos” que se esfolam de trabalhar na ilusão de felicidade prometida por mais uma e mais uma conquista material) e Suíte Tóquio (mãe que trabalha a ponto de quase não ver a filha, babá que trabalha a ponto de não conseguir gerar o próprio bebê).

• A cidade fictícia de Batida só se chama Moenda — um lugar que, ao mesmo tempo, acolhe e expõe as fragilidades e os medos dos doentes. Como moenda também se refere a um aparato ou máquina de moer ou triturar, o que este nome carrega de simbólico na narrativa?
Acredita que só pensei nesse significado bem depois? Fiquei semanas tentando inventar um nome de uma cidade que não existisse, mas que soasse factível. “Moenda” atendeu a essa expectativa e ficou bonito no papel — tenho uma obsessão gráfica e sonora com os nomes. Com a personagem Sara foi a mesma coisa. Só me toquei, muito tempo depois, que estava relacionado a “sarar”. Mas talvez eu esteja sendo inocente; talvez meu inconsciente sempre soubesse de tudo e esteja agora rindo de mim.

• Ao percorrer temas como doença, fé e relações humanas, houve algo que você descobriu sobre si mesma ao longo do processo de escritura do romance?
Assim como a personagem Maria João, aprendi que não tenho controle. Que a criação artística não aceita metas rígidas. Fiquei anos tentando escrever Batida só e não deslanchava de jeito nenhum. Só consegui evoluir quando minha filha se curou e meu coração ficou tranquilo, quando o presente virou passado. A produção artística não é como a maioria dos outros trabalhos. Tem o seu tempo, os seus mistérios, os seus processos próprios e nunca exatamente iguais. Ser humilde e aceitar esse caráter indócil, subversivo e, às vezes, fugidio da criação artística foram uma aula e me fizeram amar ainda mais o meu ofício.

• A protagonista se chama Maria João — o que inevitavelmente remete ao conto clássico dos irmãos Grimm, sobre crianças que sobrevivem à ameaça e ao abandono. Há alguma relação entre a Maria João de Batida só e as crianças da fábula? Ela é também uma sobrevivente?
Vou decepcionar novamente o entrevistador: escolhi Maria João porque tenho andado muito por Portugal, onde esse nome é comum, e porque gosto dessa coisa meio não binária que nasce da combinação entre um nome feminino e um masculino. Mas você está certo: tal qual as crianças de Grimm, ela sobrevive na floresta, e em condições piores do que João e Maria, porque está sozinha. É só quando a sua dor encontra diálogo com a dor de Nico que o alívio aparece.

• As cenas de sexo em Batida só — em especial, as de masturbação de Maria João — são intensas e, em geral, atravessadas pelo humor. Lembro de uma passagem de História da menina perdida, de Elena Ferrante, em que Lila diz que “foder é uma coisa muito superestimada”. Você concorda com essa visão ou acha que funciona mais como uma provocação?
Concordo e discordo. Em geral, o sexo é superestimado mesmo. Na literatura, no entanto, acho subestimado. Talvez aquela ideia de que é difícil escrever cenas de sexo tenha afastado muitos escritores dessa lida. Perde-se com isso uma grande oportunidade de construção narrativa, porque, além de geralmente ser gostosa de ler, a cena de sexo ajuda a construir personagem. Como trepa uma pessoa egoísta? E uma generosa? Uma boa? E uma má? Que palavras tal personagem usaria na cama, e por quê? Ou não usaria nenhuma? Além de ser uma ferramenta riquíssima para a construção de personagens, as cenas de sexo e o prazer feminino têm, ao menos para mim, um caráter político. Há pouquíssimas cenas de siririca na literatura brasileira e, quando aparecem, quase sempre são voltadas para o prazer do outro, para o personagem homem assistir. Sem falar que, até há pouco, as mulheres não podiam usar certas palavras, consideradas vulgares, quanto mais colocá-las num texto; daí a quantidade de eufemismos açucarados e desnecessários que povoam as páginas. Acredito que escrever sobre sexo também é uma forma de ocupar espaço no campo da linguagem. Não devemos ter medo de meter a língua na língua.

• Você já declarou que “sou feminista, mas minha literatura, não”. Como você define essa distinção entre sua atuação pública e sua obra?
Me coloco dessa maneira para evitar a armadilha de se definir a escrita feita por mulheres como “escrita feminina” ou “escrita feminista”. Rótulos rechaçáveis porque nos colocam de novo no canto da estante, em um nicho, em um gênero. O que fazemos é o mesmo que os homens: literatura, ponto. Com respeito à minha atuação, tento deixar a feminista do lado de fora da porta quando estou escrevendo ficção, mas, às vezes, ela aparece sem que eu perceba e mete os dedos no teclado.

• O movimento Um Grande Dia para as Escritoras, que você ajudou a organizar, evidenciou a produção literária feminina no Brasil. Além disso, hoje temos iniciativas voltadas exclusivamente à leitura de livros de autoras, como o clube Leia Mulheres. Como você avalia o espaço que as mulheres conquistaram nos últimos anos na literatura brasileira?
O público feminino é grande responsável pelo sucesso da nossa literatura contemporânea. No Brasil, 55% dos leitores são mulheres. Estima-se que, quando o assunto é ficção, essa porcentagem seja bem maior. E o que essas mulheres querem? Boas histórias, que conversem com as suas questões, mas não apenas. Como a escolha por ficção aponta, elas também estão interessadas nas histórias do outro. Apesar de as brasileiras dedicarem 9 horas a mais por semana aos serviços domésticos, em comparação com os homens, elas não só leem mais como estão escrevendo muito: uma literatura de altíssima qualidade, carregada de frescor. O que vimos no Um Grande Dia para as Escritoras foi o reflexo da explosão dessa escrita, que aconteceu graças ao interesse coletivo por novas narrativas, às autopublicações, à possibilidade de autopromoção nas redes, e, acima de tudo, ao fortalecimento das mulheres, que passaram a acreditar mais na própria voz, condição fundamental para se fazer literatura. Nosso movimento fez fotos em cidades minúsculas e, mesmo nessas, lá estava o coreto da praça cheio de escritoras com seus livros em punho.

• Em suas colunas na Folha de S. Paulo e nas redes sociais, vemos reflexões sobre temas sociais — inclusive questões de gênero e violência. Como você vê a atuação dos escritores hoje, para além da criação literária, como comentar acontecimentos sociais, influenciar debates públicos?
Não acho que os escritores tenham obrigação de se colocar sobre todos os assuntos, até porque pouquíssimos entendem de todos os assuntos. Também não acho que tenham o dever de se colocar politicamente, mas confesso que prefiro aqueles que vêm fazendo isso. No momento histórico em que estamos, o silêncio e a isenção são constrangedores.

O Brasil tem experimentado polarizações intensas na política, numa animalesca batalha entre esquerda e direita. Como escritora, de que maneira você enxerga o impacto do avanço de pautas da extrema direita na cultura, na literatura e, em especial, na vida das mulheres?
Com pavor, obviamente, mas também com a certeza de que essa é uma reação aos nossos avanços, o esperado backlash.

Giovana Madalosso, autora de “Batida só”. Foto: Renato Parada

Já que estamos abordando política e a extrema direita, como você avalia o avanço dos Estados Unidos, capitaneado por um presidente como Trump, levando em conta as ameaças de intervenção na Venezuela, os olhares cobiçosos em direção à Groenlândia e por aí afora? Você vê essas atitudes como expressão de um novo imperialismo?
Alguns analistas dizem que já estamos vivendo a Terceira Guerra Mundial, apenas não nos demos conta, já que ela vem se desenrolando em um novo formato. Não me surpreenderei se isso for verdade. O que mais me assusta — e o que torna esse momento sombriamente único — é estar assistindo a tudo isso na soleira do colapso climático, quando os Estados Unidos, uma das nações mais poluentes do mundo, deveriam estar focados em cortar os combustíveis fósseis e liderar acordos do clima, e não acirrar animosidades e correr atrás de mais petróleo. Será muito triste o que iremos assistir, em termos de desastres ambientais, nos próximos anos. Fiquei arrasada ao ler O século nômade: como a migração climática transformará o mundo, de Gaia Vince, e descobrir o que vai acontecer com o Brasil se a temperatura subir 3 ou 4 ºC, o que é bem possível que aconteça.

Voltando à literatura, quais autores habitam sua biblioteca afetiva neste momento? Há escritores que são imprescindíveis na sua rotina de leitura?
Tenho paixões que vêm e vão, mas imprescindível e indefenestrável é Roberto Bolaño, cuja obra não me canso de revisitar, e de quem tenho um retrato na parede, bem atrás da minha escrivaninha, como um padroeiro ou como aquele Deus que não consegui encontrar em outros cantos.

Em Batida só, lemos: “Sem conflito não há drama. E sem drama não há história boa”. Você acredita que a felicidade, por si só, é incapaz de gerar boa literatura?
Basta a felicidade chegar e já sentimos medo de perdê-la. Bingo, aí está o conflito. Eu acho que tudo, absolutamente tudo, pode ser boa matéria para a literatura.

• Num dos diálogos, Maria João diz: “As pessoas precisam de histórias pra organizar o caos que é viver. Pra dar sentido pro que não tem sentido”. Essas frases seriam também uma das maneiras de entender a importância da literatura?
Com certeza. Além de organizar o caos, a literatura me traz alívio. É no ginásio da literatura que essa atleta combalida exercita as suas fantasias, especialmente as mais perturbadoras, como a de ter um filho desaparecido, a de adoecer gravemente ou a da morte. E porque mato e morro diversas vezes, de diversas formas, na pele de vários personagens, esgoto ao menos um pouco essa porção de medos que a minha imaginação produz e, mortinha de tanto morrer, consigo voltar mais leve para a vida.

• Seu romance Suíte Tóquio está indicado ao Dublin Literary Award, recebeu uma ótima acolhida da crítica fora do Brasil e entrou para a lista dos 100 livros mais notáveis do The New York Times, um feito alcançado apenas por dois brasileiros, você e Clarice Lispector. Como avalia a sua recente trajetória internacional?
Estou feliz e surpresa. Primeiro porque nunca pensei que iria tão longe (há dez anos, eu estava perrengueando para publicar o meu primeiro livro). Segundo porque nunca imaginei a repercussão que tudo isso teria, o quanto poderia render em termos de reconhecimento do público, alcance midiático e número de vendas. Por fim, me surpreendeu como o Brasil, com uma literatura tão pulsante e com tantos escritores incríveis, tem tão pouca representatividade em certas listas. Eles não sabem o que estão perdendo.

>>> LEIA resenha de Batida só

Rogério Pereira

Nasceu em Galvão (SC), em 1973. Em 2000, fundou o jornal de literatura Rascunho. É criador e coordenador do projeto Paiol Literário. De janeiro de 2011 a abril de 2019, foi diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Tem contos publicados no Brasil, na Alemanha, na França e na Finlândia. É autor dos romances Antes do silêncio (2023) e Na escuridão, amanhã (2013, 2ª edição em 2023) — finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e traduzido na Colômbia (Babel Libros) — e da coletânea de narrativas breves Toda cicatriz desaparece (2022), organizada por Luiz Ruffato.

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