A fome de um herdeiro

Em "Sonhos da pessoa física", Odorico Leal explora os efeitos da inteligência artificial e as inquietações de um futuro cada vez mais próximo
Odorico Leal, autor de “Sonhos da pessoa física”. Foto: Renato Parada
01/11/2026

Com o lançamento de Nostalgias canibais, em 2024, Odorico Leal foi rapidamente lido pela crítica a partir do conceito de antropofagia. Filiando-se, em sua estreia, a certa herança do modernismo paulista, o autor devorou um dos principais legados culturais brasileiros do século 20 por meio do riso, desafiando um cenário literário contemporâneo demasiadamente sisudo.

Já com os contos do recente Sonhos da pessoa física, Leal demonstra que sua fome ultrapassa os contornos traçados pelo grupo de São Paulo. O escritor piauiense também tem apetite por tradições compostas por nomes como o finlandês Aki Kaurismäki, o estadunidense Philip K. Dick e o argentino Jorge Luis Borges. Paladar refinado, vital para um autor que, como ele próprio afirma com fino humor, gostaria de ser herdeiro.

Nascido em 1983, em Picos (PI), Odorico Leal é escritor, tradutor, professor e doutor em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo. Nostalgias canibais, sua estreia na ficção, recebeu o prêmio de melhor livro de contos de 2024 da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Nesta entrevista concedida ao Rascunho por e-mail, Leal reflete sobre a experiência de publicar após o sucesso de seu primeiro livro, as relações intertextuais entre seus contos, a verve humorística de sua literatura e os impactos da inteligência artificial no campo artístico. Num momento em que o distópico é penosamente realista, o projeto literário em formação de Leal parece apto a encarar seu tempo. Com percepção afiada e postura despretensiosa, o autor indica que a saída para o absurdo contemporâneo é se voltar para aquilo que nos torna mais humanos e devorá-lo para combater um futuro indigesto.

• Depois de estrear com Nostalgias canibais em 2024, você retorna com mais um livro de contos, Sonhos da pessoa física. No entanto, você já afirmou em outras entrevistas não se considerar contista. O que, então, te levou a publicar dois livros de contos até o momento?
Primeiro de tudo, obrigadíssimo pelo convite e pela atenção dedicada aos livros. Quanto a ter publicado dois livros de contos, acho que às vezes me considero contista; outras vezes, acho que nunca mais terei uma ideia para um conto. Mas escrevo contos, como também escrevo crônicas e maus poemas, além de músicas e romances inacabados. Os contos foram os que ficaram mais apresentáveis.

• Outros autores já afirmaram que o mercado tem preferência pelo romance, relatando sentir certa pressão das editoras para publicar o gênero. Sua experiência é similar?
Da parte das editoras, não sofri pressão. Meus livros não vendem o suficiente para que me pressionem. É mais fácil me desestimularem: Não escreva nada, por favor! Porém, vez por outra, um amigo me pergunta sobre o novo livro, eu explico mais ou menos do que se trata, e vem a pergunta: “Então é outro livro de contos?”. Eu digo que sim e noto que se apaga o brilho no olhar do amigo.

• Nostalgias canibais foi bem recebido pela crítica, vencendo o prêmio APCA, da Associação Paulista de Críticos de Arte. Como é publicar Sonhos da pessoa física depois do sucesso alcançado com o primeiro livro?
A boa recepção do Nostalgias foi uma surpresa, e eu poderia ter ficado intimidado, obcecado com a ideia de escrever algo que tivesse a mesma acolhida do Nostalgias. Felizmente, como diz um personagem de Sonhos da pessoa física, “não tenho a grandeza dos obcecados”. O outro livro veio naturalmente, soprado por novas inquietações.

• Pode-se dizer que Nostalgias canibais é um livro voltado para o passado, aspecto presente no próprio título da obra. Já em Sonhos da pessoa física, você passa a especular sobre um futuro próximo, muito ligado aos efeitos sociais da inteligência artificial. O que motivou essa mudança?
Acho que, por um certo ângulo, Sonhos da pessoa física também é um livro tocado pela nostalgia. O protagonista do conto mais longo do livro, Luds, aprofunda o protagonista de O jardineiro, o último conto de Nostalgias. São figuras perplexas diante de um presente inominável, que recaem constantemente em rasgos nostálgicos pelo Éden perdido. Por sinal, em um trecho de O jardineiro, o protagonista é ameaçado de passagem com a sugestão, feita por um cliente, de que talvez pudesse perder o serviço para a inteligência artificial. Em Luds, tento desenvolver essa hipótese, encenar esse pesadelo, o que dá ao conto uma dimensão um pouco — infelizmente, bem pouco — futurística.

• O humor é traço comum em sua escrita, presente não só no primeiro livro, mas também em textos publicados no Substack. Inclusive, você já afirmou que “o humor é um ótimo escafandro para mergulhar no mar de patologias no Brasil”. No entanto, em Sonhos da pessoa física sobressai um tom melancólico. Isso se deve a certa falta de esperança com o futuro?
Acho que sim. O Nostalgias tem um veio satírico, um toque de deboche. E tem certa paixão pela eloquência, certo gozo da língua, que está posto muito claramente em Paraíso canibal, mas que contamina também as opiniões antipáticas do escritor de A febre dioneia ou os discursos do chefe do Getulinhos em O jardineiro. É um livro que, embora converse com a herança modernista, também paga tributo ao verbalismo bacharelesco. Então tem essa festa do idioma. E onde há festa, há esperança. Em Sonhos da pessoa física, o tom é bem outro. Não há festa. Acho que ainda tem muito humor, mas um humor com uma modulação noturna, onírica, vagante.

• Em Nostalgias canibais é perceptível o diálogo com o modernismo paulista. Sonhos da pessoa física inicia com Escritor argentino, conto em que Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares são referências importantes. Você reivindica para si uma herança modernista?
No Nostalgias, o protagonista de Paraíso canibal encarna um espírito modernista de pesquisa e construção do Brasil, que foi pujante até determinado ponto e que depois vai perdendo força e se tornando um fantasma que já não consegue penetrar na História. Termina vagando por Canoa Quebrada até ir buscar o colo da origem, num desfecho em aberto. Mas há também o diálogo com o moderníssimo Lima Barreto de Triste fim de Policarpo Quaresma, com a ironia de Machado de Assis, o humor melancólico de Carlos Drummond de Andrade. Em Sonhos da pessoa física, acho que mirei em algumas referências de fora: Philip K. Dick; certo tom meio absurdista, ao mesmo tempo comovente e humano, dos filmes de Aki Kaurismäki. E Borges. Escritor argentino escrevi quando andava lendo a Antologia da literatura fantástica. Acho que reivindico todas as heranças. Queria ser herdeiro.

Odorico Leal Foto: Renato Parada

• Uma característica que chama a atenção em Sonhos da pessoa física é a temática da beleza masculina. Ela aparece em dois contos diferentes. É um assunto que te intriga?
Desde que publiquei História da feiura no Nostalgias, eu sabia que, se viesse a lançar outro livro de contos, um dos contos se chamaria História da beleza. Só que, em História da beleza, não se trata propriamente de um homem belo, mas de um homem que foi belo, que não aceitou envelhecer e fez mil procedimentos de harmonização facial e ficou grotesco. É um conto narrado por um narrador não confiável e delirante, que não percebe que as pessoas ao redor já não estão espantadas com a suposta beleza dele, mas com a monstruosidade. Até que, no desfecho do conto, ele encontra um espelho: a mulher “loura e esbelta”, também deformada por (des)harmonizações. Então esse conto começa onde História da feiura termina: depois da harmonização facial. Só que é outro personagem, outra cidade etc. Em Arquivo de mundos inventados, sim, temos um personagem rigorosamente belo. É o verdadeiro História da beleza, porque aqui, sim, imagino um pouco a experiência da beleza propriamente dita. Só que, nesse conto, esse tema da beleza é secundário.

• No conto Luds, você traça uma paisagem devastadora dos efeitos da inteligência artificial no campo artístico. A IA é uma ameaça existencial para a arte?
Não acho que seja uma ameaça existencial, mas pode ser mais uma variável da precarização. Luds explora essa precarização. Se existe a alternativa de fazer um filme com uso pesado de inteligência artificial, subitamente as condições de exercício dos ofícios envolvidos na feitura de um filme ficam mais precárias. Um ecossistema fica abalado. Mas tudo depende da adesão ou não da sociedade.

• No conto, os tradutores são os primeiros abalados. Num trecho, o narrador diz que “o próprio vocábulo — tradutor — aos poucos foi deixando de ter como principal referente um trabalhador humano, mas a máquina. A batalha foi perdida no interior do léxico”. Além de escritor, você também atua como tradutor. Quais têm sido os efeitos da IA na área?
Já ouvi falar de editoras que andam apostando em traduções “feitas com IA”. Se houver adesão maciça, acentua-se a precarização de um campo já bastante precarizado. Resta saber se editoras e público vão optar por um livro talvez um pouco mais barato, feito por uma tradução automática sem espírito, que trafica soluções de um repertório conquistado a duras penas por humanos, ou se vão preferir continuar desfrutando da arte e da malícia da tradução humana.

• Um dos momentos mais bem-humorados do conto surge quando o narrador comenta a autoficção escrita por um dos personagens. Pode-se dizer que você não se identifica com esse tipo de escrita?
De modo algum. Eu me identifico com livros bem escritos, com uma boa prosa, de preferência com algum senso de humor e uma mirada filosófica sobre a vida. Pode ser ficção, não ficção, autoficção.

• Seus contos estabelecem relações intertextuais entre si. A autoria de Os gigantes é atribuída aos protagonistas de Escritor argentino, enquanto História da beleza funciona como contraponto a História da feiura, de Nostalgias canibais. Alguns autores contemporâneos exploram o mesmo recurso para compor romances que se aproximam de coletâneas de contos. Você imagina levar essa estratégia para um futuro romance?
No Sonhos da pessoa física, certos temas e motivos reaparecem ao longo dos contos, mas sob um novo regime de representação, portanto com outro peso. Todos os contos, por exemplo, exploram crises de identidade, só que ora em um registro fantasioso (Escritor argentino), ora realista (História da beleza), ora noir-paródico (Luds), ora mítico (Os gigantes). Ao longo da leitura, se forma uma trama temática entre os contos, de modo que o livro fica mais rico se lido como unidade, não como uma reunião de contos autônomos. A mesma lógica opera no Nostalgias, onde o primeiro conto parte de 1500 e termina no Brasil contemporâneo, onde vão se desenrolar os contos seguintes do livro. Você pode pensar que, enquanto o protagonista está em Canoa Quebrada vendo o velho xamã na tevê, os gatos estão rondando o corpo morto de Andressa, a jornalista está tentando escapar do apartamento do escritor ressentido e o jardineiro está no metrô a caminho da batalha campal na Av. Paulista. É como se todos os contos participassem do mesmo universo simbólico, que se chama Nostalgias canibais e Sonhos da pessoa física.

• Outro traço de sua escrita são os personagens não humanos. Os gatos, de Nostalgias canibais, é exemplo disso. Já em A forma mais humana, de Sonhos da pessoa física, você adota a perspectiva de uma plataforma de IA. Como foi construir um narrador assim?
A dupla de bichanos de Os gatos é uma dupla fabular, que fala e pensa como humanos, embora a partir de referências do mundo doméstico felino. A graça está nesse deslocamento de perspectiva. Mas há também a dupla de bichanos de Luds, onde os gatos são observados de fora, não como entes fabulares, mas como animais domésticos mesmo, com suas doces aproximações e recuos ariscos, sua comunicabilidade específica. Para o leitor de Nostalgias canibais, é mau sinal encontrar essa dupla de bichanos em Luds, fazendo companhia a um personagem deprimido em um apartamento em São Paulo. Felizmente, em Luds, o desfecho é menos cruel. Quanto ao conto narrado pela IA, achei divertido imaginar essa superinteligência com um tom caprichoso e insuportável, como um deus grego do Olimpo. Parece um epílogo de Luds, mas não é, porque o registro de representação ali é bem outro. É como uma paródia de Luds, uma fanfic, um spin-off tosco. Coisa de IA.

• A amizade entre homens é recorrente nos contos. Há particularidades nesse tipo de relação masculina ainda não exploradas pela literatura?
Esse é outro tema que surge em alguns contos por prismas diferentes: a amizade na inocência da juventude universitária (Escritor argentino), a amizade em um mundo de ofícios precarizados (Luds), a amizade que esconde um amor platônico (Arquivo de mundos inventados). Nos outros três — História da beleza, Os gigantes e A vida onírica etc. —, o leitor encontra figuras solitárias. Acho que sempre haverá particularidades não exploradas, pois a amizade também tem sua dimensão histórica: as convenções, a sociabilidade, as expectativas dentro da amizade também passam por transformações, são construídas e desconstruídas. Acho que, no momento, as convenções da amizade masculina estão sob escrutínio.

• Arquivo de mundos inventados talvez seja o conto mais próximo da distopia na coletânea. Entretanto, estamos numa situação em que o imaginado lá não parece tão distópico assim. Como foi escrever experiências que, por mais bizarras que fossem, ainda são infelizmente plausíveis?
O mundo de Arquivo de mundos inventados já existe; é o mundo da existência virtualizada, só que agravado pelos poderes supremos do irresistível Elmo Phantasia.

• O livro encerra numa nota melancólica, abordando os efeitos trágicos do cativeiro na vida onírica dos mamíferos. No mundo de hoje, você ainda sonha?
O narrador do último conto é um tradutor que está traduzindo um livro chamado A vida onírica dos grandes mamíferos. Ele odeia o projeto do autor, esse “escrutínio metódico” dos sonhos dos elefantes. “Escrutínio metódico” é a mesma expressão que a IA usa em A forma mais humana para se referir à pesquisa das IAs sobre os humanos. Então os luds e os elefantes se dão as mãos por aí. O próprio tradutor-protagonista é um lud. E o que ele faz? Anuncia que vai listar o que aprendeu sobre os elefantes traduzindo o tal livro. Começa a listagem com fatos, mas aos poucos vai deformando-a com uma fantasia tristíssima sobre o corpo astral dos elefantes. Esse desvirtuamento é o pequeno protesto do tradutor-protagonista contra o “escrutínio metódico”. Lembro pouquíssimo dos meus sonhos, então posso dizer que é na escrita que sonho. A escrita é um transe onírico.

Sonhos da pessoa física
Odorico Leal
Todavia
116 págs.
Allysson Casais

É doutor em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense. Publicou o ensaio Dois anos infindos: o brasileiro como estrangeiro na ficção de Luiz Ruffato (Urutau, 2025)

Rascunho