Talvez a técnica que mais se aproxime do romance-montagem de Ivan Angelo — A festa, 1976 — seja a empregada por Diego Velázquez em Las meninas (1656). Nesta tela metalinguística, a busca por uma inovação de perspectivas cria, por espelhamento múltiplo, uma ilusão de tridimensionalidade. É também um jogo em que se tenta saber quem olha a cena que está sendo retratada. Nos dois casos, na tela e no romance, nada é dado de forma direta ao fruidor, exigindo um esforço de construção do que lhe foi entregue de forma compartimentada.
No romance, embora esta palavra não caiba em um livro que declara uma dualidade à la Guimarães Rosa no subtítulo — “romance : contos” —, falta justamente o enredo, cuja invenção é delegada ao leitor. É uma narrativa nascida de sucessivos arquivamentos de passagens, dados, citações, falas, contos, diálogos etc. Em uma análise superficial, chegaríamos à conclusão de que o livro é um rosário de contas desemparceiradas, agrupadas de maneira aleatória ao longo das páginas. O leitor recebe uma caixa com vários fragmentos juntados em certa sequência pelo escritor, embora mesmo esta figura seja instável na obra. Quem é o escritor que aparece em trechos em itálico, falando do projeto de um romance intitulado O judeu refratário? Não seria o mesmo que, no final, meio que assume internamente o status autoral do livro que estamos decifrando? Ou seria um alter ego de Ivan Angelo? A festa, como um todo, é uma proposta de esburacar a narrativa e sua autoria. Em última instância, o livro se quer próximo de um documentário cinematográfico, em que o eu/autor se reduz ao papel de montador.
O fato fundante do romance é que o tema central da obra, a festa, não se manifesta no corpo narrativo. É um oco que fica pulsando em um estado de inexistência — “um pão sem miolo”. Tudo converge para ela, mas ela não é narrada porque só caberia em um projeto de naturalismo representativo extremo, em que tudo pudesse acontecer ao mesmo tempo, em um registro totalizante dos episódios.
A narrativa ausente
No capítulo/conto Antes da festa, o escritor/personagem diz que escreve “um livro chamado Se eu quisesse escrever um livro”. O bloqueio não é para a escrita em si, e sim para um tipo de escrita episódica que estava, naquela altura, totalmente desgastada. Havia fatores internacionais, como a onda do Nouveau Roman, que fazia a crítica demolidora dos modelos literários, movimento de maior prestígio nas letras ocidentais dos anos 1960 e 1970, e também a circunstância da censura no Brasil. Estes dois elementos epocais, a necessidade de não dizer o mesmo e a inviabilidade de dizer o social, compõem o making of que é A festa. Nesta circunstância, o que era para ser narrado não o é por uma questão de obsolescência técnica e também de segurança, de autocensura.
Não se pode ignorar que, sendo jornalista militante, Ivan Angelo tinha uma vivência interna dos procedimentos de publicação durante a ditadura militar, quando os jornais estampavam trechos de obras literárias clássicas ou deixavam espaços vazios no lugar de matérias censuradas, o que era bem entendido pelo leitor, funcionando como um código para se saber que algo fora cortado do noticiário. Então, a omissão da festa na narrativa tem um sentido de crítica social muito forte, ao mesmo tempo em que problematiza a própria narração. Vale destacar que, neste período, o herói padrão era o jornalista, que se arriscava para fazer reportagens que seriam amputadas. Em A festa, o repórter funciona como mártir, sacrificado pelos militares no cerco contra retirantes nordestinos chegados à estação de trem de Belo Horizonte. Este é mais um dos escritores que aparecem no romance.
A aventura da escrita
A pergunta que o bom leitor deve fazer diante desta obra não é sobre o seu enredo. Mas sobre a falta dele. É um livro sobre a ausência do livro nos moldes tradicionais. Embora Gabriel García Márquez e outros sejam citados nas reflexões do escritor/personagem sobre como escrever aquela realidade, o modelo oculto do livro está em Alain Robbe-Grillet e em Michel Butor, dois mestres do Nouveau Roman, também citados. Ivan Angelo paga tributo à sua época, executando uma das máximas do período, criada por outro integrante deste movimento, Jean Ricardou, que cunhou uma fórmula para definir a literatura moderna: “O romance já não é a escrita de uma aventura, mas a aventura de uma escrita” (Problèmes du Nouveau Roman, 1967).
Esta aventura da escrita é obtida em A festa de maneira selvagem, para usar o conceito de outro francês (Claude Lévi-Strauss) que, em O pensamento selvagem (1962), diz que os indígenas se manifestam a partir de objetos, colecionados de forma obsessiva, que formam assim um pensamento com coisas, um pensamento concreto, e não por meio de abstrações. Eis a definição de bricolage, muito praticada pelas vanguardas.
A impossibilidade do romance
Em várias camadas, vemos que o tema do romance de Ivan Angelo é a impossibilidade de escrever romances. Seja nos dilemas do escritor dentro da narrativa-tronco, seja na inviabilidade social do romance-verdade, do romance total da vida de uma mulher (a colunista Andreia), que clandestinamente o repórter Samuel Aparecido Fereszin empreendia antes de ser morto pelos militares, seja na narrativa futura de um dos retirantes, que tinge de misticismo o triste episódio do qual fez parte, seja no hermetismo árido do poeta Esdras. Este era um problema geracional: não é mais possível escrever a verdade. Então, Ivan Angelo amarra estes fragmentos para demonstrar empiricamente isso.
A festa é um livro que se lê aos solavancos porque tenta despertar o leitor para os problemas de linguagem, cumprindo uma função crítica e estética em renúncia ao prazer da fruição. A genialidade do livro está na transformação de um modelo literário e seus pressupostos em uma forma de falar de nossos problemas sociais em uma época de censura. Nele, as técnicas do Nouveau Roman funcionam como uma alegoria do período da ditadura, e as abstrações estéticas ganham concretude social, o que o torna uma obra única na tradição brasileira do romance.