Anne Carson é uma autora capaz de deixar qualquer tradutor consciente dos riscos do seu ofício. Sua frase direta abriga uma sofisticação de pensamento em que nada parece aleatório ou gratuito. O risco é duplo: tornar o texto mais solene, mais ostensivamente elaborado do que é no original, ou perder a densidade do que está sendo dito ao procurar um registro por demais coloquial.
Gostaria de abordar essa dificuldade a partir de um poema específico de Vidro, ironia e Deus, publicado pela Relicário em tradução minha. O poema se chama A teoria de Deus sobre Cristo (no original, God’s Christ theory).
Deus não tinha emoções mas desejava temporariamente
mover-se na mente do homem
como se tivesse: Cristo.
Não paixão mas compaixão.
Com — tem o sentido de “companhia”.
Que tipo de união seria essa?
Traduza isso.
Tenho um amigo chamado Jesus,
ele é do México.
Seu pai e seu avô também se chamam Jesus.
Consideram-me uma tola com minhas perguntas sobre a Economia da Salvação.
Dizem que estão economizando para ir morar em Los Angeles.
No original:
God had no emotions but wished temporarily
to move in man’s mind
as if He did: Christ.
Not passion but compassion.
Com — means “with.”
What kind of withness would that be?
Translate it.
I have a friend named Jesus
from Mexico.
His father and grandfather are called Jesus too.
They account me a fool with my questions about salvation.
They say they are saving to move to Los Angeles.
Uma palavra inventada
Em poucos versos, Carson realiza desvios e deslocamentos sem aparente esforço. O Cristo da primeira estrofe aparece na terceira como um Jesus mexicano. Na segunda estrofe, o tradutor se depara com este verso: Com — means “with”. Que não poderia, é claro, ser traduzido por Com — significa “com”. Optei por Com — tem o sentido de “companhia”, procurando conservar a relação entre o prefixo de compaixão e a ideia de estar com (with) alguém.
É a partir dessa mesma preposição inglesa, with, que Carson forma a palavra withness, no verso seguinte, espécie de centro nevrálgico do poema inteiro. É uma palavra quase impossível de traduzir sem algum grau de perda. Withness parte de with e acrescenta o sufixo -ness, que permite formar substantivos abstratos em inglês. A palavra não é de uso corrente, mas sua formação é perfeitamente reconhecível e sugere de imediato a ideia de estar com, de estar junto. E ainda há a enorme semelhança com a palavra witness, testemunha. Ou seja: basta a inclusão de um h, de um sopro quase imperceptível, e o que antes testemunhava agora se coloca ao lado. O que só observava agora está com.
Haveria a possibilidade de inventar um neologismo em português, mas essa opção me pareceu criar um ruído desproporcional. Em inglês, withness não chama atenção por seu caráter experimental. Optei por união, embora a palavra não reproduza a construção do original e traga em si alguns sentidos que não estão necessariamente presentes no verso de Carson. União pode sugerir fusão, a transformação de dois em um. Mas também pode designar laço, vínculo afetivo, pacto, relação entre partes que permanecem distintas.
Voltei a pensar nessa palavra ao ler uma passagem de Economy of the Unlost, livro de Carson publicado em 1999. Ali, ela se detém sobre a preposição grega πρός, que, empregada com o acusativo, pode significar, entre outras coisas, “em direção a, sobre, contra, com, pronto para, face a face”. É a preposição que está no início do Evangelho de João, na descrição da relação entre Deus e o Verbo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Carson retoma a pergunta: “Que espécie de withness é essa?”
Retorno à palavra união. O Verbo estava com Deus, mas também era Deus. O versículo afirma ao mesmo tempo uma relação entre dois e uma unidade. Talvez seja justamente essa oscilação entre vínculo e identidade que torne união uma escolha defensável. E talvez a força de withness esteja em não se decidir entre proximidade e identidade, entre estar com e ser.
Salvação e economia
Segue-se um verso que soa quase como uma provocação pessoal. Logo depois de perguntar What kind of withness would that be?, Carson escreve: Translate it. Traduza isso. É difícil não ler certa ironia nessa ordem, colocada logo após uma palavra inventada, e uma palavra dessa densidade, como se a autora se dirigisse ao tradutor que um dia teria de enfrentar o problema. Mas o imperativo pertence, antes de tudo, ao próprio poema. O que se pede que seja traduzido? Uma palavra? A relação entre Deus e Cristo? O mistério de uma divindade que deseja experimentar as emoções humanas?
O que vem na estrofe seguinte talvez já seja uma tentativa de tradução: a figura de Cristo dá lugar a um Jesus mexicano, cujo pai e avô também se chamam Jesus. De um Jesus passamos a três, distintos entre si e unidos pelo nome, numa possível evocação da Trindade. Da teologia passamos a uma família que economiza para se mudar para Los Angeles, numa referência ao movimento migratório entre o México e os Estados Unidos — mais um deslocamento, mais uma travessia. A pergunta sobre a salvação encontra outra, concretíssima, sobre as possibilidades de uma vida melhor.
Chegamos, nesse momento, ao par salvation / saving, palavras que em inglês compartilham uma mesma raiz etimológica. Em português, esse parentesco desaparece: traduzimos salvation por salvação, e saving, nesse contexto, por economizando. Em inglês, to save reúne os sentidos de salvar alguém de um perigo, por exemplo, e de guardar dinheiro para o futuro.
Minha solução foi traduzir salvation por Economia da Salvação, expressão da teologia cristã que designa o plano divino para a salvação da humanidade. A inclusão da palavra economia me permitiu estabelecer uma relação entre a economia divina e a economia doméstica dos três homens chamados Jesus, não para reproduzir o jogo de Carson, mas para tentar preservar algo de seu movimento.
Talvez trazer Anne Carson ao português seja também aprender a reconhecer esses diferentes gestos e deslocamentos. A pergunta sobre withness fica em aberto, e me parece importante que assim permaneça, mesmo quando seguida por uma claríssima exortação: traduza isso.