A fantasia nem sempre é um tema frequente quando falamos de literatura de língua alemã — mas não é um gênero tão ocasional assim para que essa ausência faça sentido. Da Canção dos Nibelungos, versão alemã das lendas nórdicas que mais tarde inspiraram Richard Wagner a compor as óperas que integram o ciclo Der Ring des Nibelungen, ao pacto fáustico presente na obra de vários autores, mas talvez imortalizado por Goethe, passando por O homem da areia e vários outros contos de E. T. A. Hoffmann e os textos de Franz Kafka: a literatura de língua alemã sempre foi permeada por elementos fantásticos.
Um dos momentos importantes para a fantasia de língua alemã foi o romantismo, quando o mistério, a lenda e o sobrenatural de outros períodos foram recuperados e republicados, na íntegra ou em releituras. Os contos dos irmãos Grimm são um grande exemplo disso. Os dois coletaram histórias da tradição oral de diversas fontes, registrando a cultura popular que permeia o imaginário infantil até hoje. Vale lembrar que esse ímpeto colecionador do romantismo tem suas raízes em uma necessidade de afirmação cultural em territórios de língua alemã ainda não unificados politicamente.
Essa tradição não se resume, porém, à preservação de contos populares nem se encerra no romantismo. Ela também aparece em narrativas que partem de situações absurdas para explorar as relações entre o indivíduo e o mundo ao seu redor. É nesse contexto que vale ler A extraordinária história de Peter Schlemihl, de Adelbert von Chamisso. É uma dessas histórias que se leem em uma tarde — e um exemplo de como uma tradição literária de uma língua pode chegar para quem lê de um jeito bem despretensioso e até com uma certa graça.
Uma troca absurda
Peter Schlemihl era um estudante um tanto desafortunado em busca de ajuda. Com uma carta de recomendação debaixo do braço, chega à casa do proprietário de terras Herr Thomas John. Em vez de receber uma boa acolhida, é visto com um pouco de desdém por um senhor mais preocupado em apresentar seu jardim aos convidados. Deixado de lado e se sentindo humilhado, prestes a ir embora, nosso protagonista é abordado por um sujeito suspeito, para dizer o mínimo. Entre lunetas e tapetes, o sujeito parecia capaz de tirar qualquer coisa, por maior ou mais valiosa que fosse, de seus bolsos, sem que isso parecesse causar qualquer surpresa aos demais presentes.
A proposta feita é tão absurda que nos soa cômica. O homem propõe trocar qualquer coisa que possa tirar do seu bolso pela “bela sombra” de Peter. Até o jovem fica surpreso, afinal, como poderia se separar da sua própria sombra? Que deixasse isso com ele, afirma o senhor de casaca. A troca é aceita quando uma das coisas que tira do bolso é a “bolsa da fortuna de Fortunato” — uma bolsa com dinheiro infinito. Pacto feito.
Enquanto os dois personagens fazem seu pacto, quero lembrar de outro. Estou pensando no pacto ficcional proposto por Umberto Eco: o acordo que acontece entre autor e leitor quando este aceita fingir acreditar em uma narrativa proposta, o que pode exigir uma suspensão da descrença (expressão de Samuel Taylor Coleridge, retomada por Eco, aqui para descrever a disposição de abrir mão da sensação de “isso não pode ser verdade” que pode existir dentro da literatura).
A verdade é que, acostumados que somos com a ideia do pacto fáustico, aceitamos facilmente a troca. Sim, essa figura um tanto demoníaca pede, em troca de riqueza ilimitada, algo que faz parte da constituição humana. Sabemos, por esse pacto, que o preço a ser pago é alto. E, a partir disso, já pode começar um estranhamento, afinal, uma sombra não parece tão valiosa assim. Mas é aqui que Chamisso nos leva para um lugar inesperado. Afinal, o grande absurdo é o que ainda vem: como a sociedade vai lidar com um homem sem sombra. Assim que sai da casa do proprietário de terras, as pessoas por quem passa na rua percebem que Peter não tem sua sombra. Crianças zombam dele quando passa por uma escola.
O verdadeiro assombro
Enquanto estava lendo, perguntei a duas pessoas próximas o que achariam se passassem por uma pessoa sem sombra. A resposta foi unânime: provavelmente nem perceberiam. E é exatamente a minha sensação. Alguém sem sombra passaria quase sem ser notado pela vida. Quando insisti, uma delas disse que acharia que estava sonhando. A outra, que se trataria de uma visagem. Mas, no livro de Chamisso, Peter começa a ser visto com estigma. O que um homem sem sombra pode significar? O que este homem fez? Que tipo de monstro é esse? Qual é a verdade por trás dele? As respostas ficam no ar e Peter, apesar da riqueza, perde quase tudo o que queria na vida por não ter sombra.
No posfácio, o tradutor Bruno Gambarotto tem a mesma impressão. E afirma ainda que foi a mesma impressão de Thomas Mann: o maior absurdo da novela é o quanto todos se importam com a ausência de sombra.
Gambarotto fornece ainda uma explicação anedótica para a história:
Consta que se tratava de não mais do que o resultado de um passatempo dedicado ao divertimento dos filhos de Hitzig, ao qual concorrem uma circunstância cômica — o caso de uma perda de bagagem, hiperbolizada na conversa entre amigos e questionamentos a respeito de como seria “perder a sombra” — e a lembrança de uma fábula de La Fontaine, da qual consta um certo homem capaz de sacar os mais variados objetos do bolso do casaco.
Já Otto Maria Carpeaux alega que a estigmatização da personagem e o fato de não conseguir encontrar paz e um lugar para si em uma dada sociedade derivam da experiência pessoal do autor como apátrida. Chamisso nasceu na França, mas sua família deixou o país durante a Revolução Francesa e encontrou exílio em Berlim, na Prússia.
Convenções do fantástico
Em termos narrativos, é uma novela com várias convenções de sua época. Eu acho uma delas, a narrativa-moldura, particularmente charmosa. Em um tempo de desenvolvimentos e descobertas científicas a todo vapor, a narrativa-moldura — em que alguém afirma ter ouvido ou lido uma dada história de outra fonte e que agora vai reproduzi-la — é uma forma de fazer retornar o fantástico e o fantasmagórico, então desacreditados, à literatura, criando um tom de disse-que-disse. Não sei se é verdade, mas me contaram que… É a estrutura usada por Mary Shelley em Frankenstein, livro publicado em 1818. A extraordinária história de Peter Schlemihl foi publicada em 1814.
Talvez a questão da sombra não fosse ter tanto impacto na vida de alguém. E, em termos práticos, não teve. O problema é o fato de as personagens em torno do protagonista acharem isso tão absurdo. Se, por um lado, isso resulta em uma narrativa absurda e cômica, por outro, torna a vida insustentável para o protagonista, como todo pacto fáustico.