Quase cartas

Em "Cartas a um jovem escritor", Mario Vargas Llosa reúne lições sobre a construção de romances e defende o aprendizado pela leitura
Mario Vargas Llosa, autor de “Cartas a um jovem escritor”. Foto: Francesca Mantovani
01/11/2026

Em tempos de profusão de escritos e publicações, também não tem sido raro ter notícias sobre cursos, oficinas e toda sorte de aulas sobre como escrever, como ser escritor ou escritora, como publicar livros, como produzir este ou aquele gênero literário, sobretudo o romance. Cartas a um jovem escritor não pretende ser outra coisa, só que escrito por um agraciado pelo Prêmio Nobel de Literatura (2010), o peruano Mario Vargas Llosa, falecido em 2025. Se alguns poucos acumulam grande legitimidade para ensinar sobre escrita e romances, Vargas Llosa certamente é um deles, embora esta coleção fictícia de cartas não chegue a surpreender leitores e leitoras acostumados ao tema.

Cartas a um jovem escritor foi originalmente publicado em 1997, resultado de uma encomenda. Segundo o próprio autor, no texto inicial — Uma discreta autobiografia —, um editor lhe solicitara um breve livro que ensinasse sobre a escrita. A obra figuraria em uma coleção que abordaria diversas outras atividades, sendo todos os títulos assinados por especialistas convidados. O projeto, no entanto, jamais se concretizou. Vargas Llosa, então, optou por aproveitar materiais já produzidos para escrever a um “jovem escritor” imaginário, a quem dirigia cartas generosas não apenas sobre a arte e a técnica do romance, como também sobre a vida de escritor e suas armadilhas, sem poupar exemplos e demonstrações de obras bem-sucedidas de outros escritores consagrados. Cartas a um jovem escritor é, portanto, além de um manual da composição do romance, um livro que ensina a ler o texto literário, sobretudo por meio de breves análises de romances conhecidos.

Anatomia do romance
A divisão em doze capítulos curtos, em sua maioria à maneira de cartas, com vocativo e despedida, segue uma ordem que começa com quatro capítulos mais generalistas — Parábola da solitária, O catóblepa, O poder de persuasão e O estilo; continua com elementos mais específicos da narrativa romanesca — O narrador. O espaço, O tempo, O nível de realidade; segue apresentando estratégias de construção narrativa — As mudas e o salto qualitativo, A caixa chinesa, O dado escondido, Os vasos comunicantes; e finaliza com uma espécie de pós-escrito no qual Vargas Llosa reafirma o desejo de “descrever alguns recursos que os bons romancistas usam para dotar suas ficções daquele encanto que nos subjuga como leitores”. Pode-se dizer que a leitura desses capítulos gera, no mínimo, uma curiosidade por flagrar, na literatura dos autores e autoras da cena atual brasileira, o emprego de recursos e estratégias elencados nessas “cartas” e considerados índice de bons textos narrativos ficcionais.

Cartas a um jovem escritor se vale, principalmente, de exemplos. A cada elemento ou recurso abordado pelo autor, tomamos contato com trechos de romances, geralmente muito conhecidos, nos quais é possível observar, como que sob uma lupa, os aspectos comentados pelo mestre peruano, que não poupa elogios a uma avassaladora maioria de colegas homens, parte dos quais latino-americanos, entre eles apenas um brasileiro — João Guimarães Rosa. A escassez de mulheres dignas de nota é amenizada pelas presenças de Virginia Woolf, sob francos aplausos, sobretudo por Orlando, e Simone de Beauvoir, por uma “história não muito bem-sucedida”.

Escrita e aprendizagem
A despeito de começar sob a afirmação de que “os verdadeiros escritores aprendem sozinhos” e terminar declarando que “ninguém pode ensinar outra pessoa a criar; no máximo, a escrever e a ler”, Cartas a um jovem escritor se soma a um conjunto de livros dedicados ao colecionamento de exemplos modelares de boa escrita, de maneira sistematizada e informada por uma teoria literária que, de fato, sofistica e aguça o olhar não apenas do escritor e da escritora iniciantes, mas também do leitor e da leitora que, eventualmente, passem a se interessar pela criação literária. Depois de investir dezenas de páginas na ensinança de elementos da boa ficção, sem deixar de valorizar subversões estilísticas e formais notáveis e evitando o prescritivismo oco de muitos manuais, o último capítulo de Cartas a um jovem escritor se encerra com um pedido: “esqueça tudo o que leu em minhas cartas sobre a forma romanesca e comece de uma vez a escrever romances”. A incitação à prática da escrita literária é a nota final desse pequeno guia — disfarçado de conversa — para escritores e escritoras, e não apenas para os/as estreantes.

Cartas a um jovem escritor
Mario Vargas Llosa
Trad.: Ari Roitman
Alfaguara
176 págs.
Mario Vargas Llosa
Nasceu em Arequipa (Peru), em 1936. Foi professor em diversas universidades da Europa e dos Estados Unidos e publicou vasta obra literária. Por seus livros, recebeu prêmios como o Cervantes, o Príncipe de Astúrias e o Grinzane Cavour, além do Nobel de Literatura, em 2010. Seus romances foram traduzidos para o português. Morreu em 2025, aos 89 anos.
Ana Elisa Ribeiro

Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1975. É autora de livros de poesia, conto e crônica, infantis e juvenis, tendo estreado com um volume de poemas em 1997. Teve colunas fixas em algumas revistas desde 2003 e publicou quatro livros de crônicas reunidas: Chicletes, Lambidinha & outras crônicas (Escribas, 2012), Meus segredos com Capitu (Escribas, 2013, semifinalista Portugal Telecom), Doida pra escrever (Moinhos, 2021) e Nossa língua & outras encrencas (Parábola, 2023). É professora da rede federal de ensino e pesquisadora das mulheres na edição.

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