Utilizando diversos registros para compor o seu gênero lírico singular, Angela Melim, em Toda vida: poesia reunida, reúne sua produção poética em onze partes, desde O vidro o nome (1974) até Poemas inéditos. Há uma fortuna crítica primorosa na qual encontramos Armando Freitas Filho, Ana Cristina Cesar, Ivan Junqueira, Flora Süssekind e Leonardo Fróes.
Os versos de Angela transpiram certa agramaticalidade, não se prendem, portanto, apenas ao rigor da norma culta, valendo-se também dela, dessa forma, provocam uma pluralidade de efeitos. Sua flecha literária atinge em cheio um campo semântico que se vale da liberdade de expressão, sem a rigidez da pedra. Lança mão, também, de figuras de linguagem como assonâncias, aliterações, assim como de metáforas e comparações. A poeta utiliza tanto um registro mais descentrado quanto o padrão da língua portuguesa.
Em muitos de seus poemas, atinge o ápice por meio de comparações inusitadas. Vejamos: “Tremem antenas/ nas noites luaradas/ como violas gemem.// O ar vento parado/ lento acalanta o luto preto/ da melancolia”. Sua poesia também remete à fragmentação, unindo blocos de signos para inflar a permeabilidade de tempos conturbados no âmago da sociedade.
Agregando e, ao mesmo tempo, diversificando esses elementos, Melim costura as linhas do real e a existência do ficcional — que unem a poesia e a prosa. Em seus versos, nos deparamos com haicais, prosa poética e poesia em prosa, o lírico emerge em sua expressão mais originária, haja vista a musicalidade que flui intensamente. Além disso, flerta com a poesia concreta.
O labirinto de palavras se perfaz em jogos estruturais, cujos sentidos cabe ao leitor desvendar num processo enigmático. A imagem, para o estilo de sua poesia, está sintetizada em seu texto Coisas assim pardas, bem como em outros da mesma lavra.
Nele, a mestiçagem poética causa grande impacto. Seria uma forma de extrair o máximo de encantamento linguístico, cujos registros se incendeiam no fogo vivo das palavras, seja em tons mais refinados, seja a partir de gírias, de vários falares e dialetos, alinhavando, com precisão lingual, a fusão do popular ao mais padronizado, permeando diversas classes sociais.
Em Roteiro, uma escrita em prosa aponta para o sentido real, com a aridez de um ambiente sem “roteiros” floridos, dentro, porém, de um versar outro, o mesmo da poiesis, delineando-se no fino tecido lírico. A poesia plaina em seu voo e pousa na atmosfera dos menos favorecidos também. Seu poemário não tem nada de elitista, o que enaltece mais ainda seu engajamento social e político.
Horizonte amplificado
Com grande vigor, a natureza aparece no poema Tom agudo, cuja epígrafe é de Cecília Meireles (“diamante caído/ em lagos de neve”), e nos leva a contemplar o horizonte amplificado, de cores ambíguas, constituindo o reflexo dela em seu próprio corpo, uma brecha nos espaços em que se desenham a finitude ou a infinitude. A eternidade transpassa o corpo, sendo este o descobrimento do real: “Assim composta paisagem/ abre poros./ Duro ar de montanha, luz imensa// rasgando céus depois da chuva./ Faca que talha carnes/ em fatias finíssimas”.
Há outras formas de pensar os poemas de Angela Melim, já que os sentidos não se esgotam, antes, se ampliam, cada vez mais, a novas leituras, o que confere elasticidade poética ao corpo do texto, corpo esse que é também o da mulher. O papel do feminino transita nas órbitas do erotismo. Em sua poesia, a metáfora é carne, carne viva que transita entre o imanente e o corpóreo àquilo que os transcende.
O salto entre a terra e o céu, metáfora para o desejo e sua realização, tanto no físico quanto no cósmico, caminha para uma semiótica dual, como uma cabeça bifronte, unindo polaridades, como o concreto e o abstrato em poemas de teor filosófico que penetram na matéria de tudo. Como pensar os objetos? Cercá-los com sua visão perscrutadora e perfurante, citando o teórico Jean Baudrillard? Angela Melim tem suas respostas, cabe a cada leitor desvendá-las à sua maneira.
Outros componentes são revelados em sua poética, como o lado sensório que se embrenha pelos fios variados da sinestesia, mesclando sentidos para o penetrar profundo nos objetos, nas forças da natureza e no próprio eu, uma subjetividade aderida a outras peles, como em Mais dia menos dia. Antes de chegarmos a essa parte, vejamos os versos de Flores: “que a pasma semântica do absurdo/ colore de avesso e espanto,/ flores que explodem ao contrário”. Aqui, com densidade literária, Melim camufla e revela, em vários movimentos, tal qual a poesia transmuta o real a partir de recursos estilísticos os mais fecundos como o literário assim o requer.
No poema Homem, percebemos as artimanhas corpóreas do ser que provocam as sensações mais diversas em muitos pontos: “onde a pele fabrica linhas paralelas/ com a função de derreter o sol em várias frentes”.
Leiamos, então, trechos do poema Mais dia menos dia, para verificar que estamos diante do tempo através do sensório, com os caracteres mais poéticos amalgamados ao espaço que se forma: “Ela fazia versos rimando hifens/ — de tomara que caia azul-marinho/ mas me disse que não sabia onde acabava o poema”. Nesses versos, encontramos o processo de invenção da poesia em seu estágio de novidade literária, produzindo o inédito com as palavras existentes, utilizando, no entanto, combinações tão originais que recriam o real plenamente.
Sentidos do ser
Na parte final do livro, como em outras partes da obra, Melim atinge, com pleno domínio, a força literária dos sentidos do ser, com signos ricos e sugestivos que procuram se aderir ao ávido diálogo com o leitor: “em torno/ do poema// no alto/ leiga/ hóstia emocionada”.
Em seu livro, uma estética do indivíduo se mostra a partir do próprio de cada um, em que a lacuna, o espaço, o vazio seriam os limítrofes entre o eu e o outro: “A fresta atesta/ a aresta documenta/ o vão no tempo/ entre nós dois./ Sobra espaço/ entre o meu e o teu passo”. As forças telúricas invadem o ser numa beberagem intensa, um licor de palavras que se reinventa numa imagérie literária. Enumerações, repetições, cortes se reproduzem numa ars combinatória ainda não percebida pela subjetividade frente ao objetivo. A língua sai de sua esfera de poder para o âmbito do ser como imagem de si em sua disrupção com a outridade.
Além dos blocos de sentidos que se completam no todo do poema, Angela Melim trabalha com colagens artísticas introduzindo seus próprios textos tecidos por citações de outros autores, como em Revisita. Sua poesia não busca as vias de uma interpretação fácil, ao contrário, desafia o leitor a traduzir sua malha que se estrutura em várias camadas. Ela usa diversas caligrafias, sendo até o sentido telegráfico e epistolar uma forma de imagem no mundo. Recria frases-versos em novos arranjos, procurando sempre um ritmo único para cada texto.
Do mínimo produz o múltiplo em contos-poemas, expandidos pela incompletude da vida. Em certos momentos, até teoriza sobre seu próprio fazer poético, numa espécie de ensaio lírico. Os fios de narração, divididos em várias partes, formam um tapete ou mosaico de histórias, alinhavando um universo lúdico que seduz a vista do outro.
Podemos afirmar que a poesia de Angela Melim é uma agulha afiada a costurar os vários estilos de roupagens literárias com acerto. Os versos dos seus papéis multifacetados dançam em múltiplas direções, numa polissemia de vozes que se revelam em expressões camaleônicas.