Na bela introdução a Por que ler os clássicos, Italo Calvino nos dá catorze definições de clássico que tentam ser respostas ao título de seu livro. É justamente o que trago da leitura do livro que abordo aqui: Música do mundo: introduções à poesia, de Tarso de Melo. Uma discussão sobre por que ler (e ouvir) poesia. Discussão bem equilibrada entre paixão e conhecimento, senso comum, crítica e teoria. Tarso é conhecido como poeta e editor da bem-sucedida Círculo de Poemas, e tem, portanto, experiência no trato com o leitor contemporâneo de poesia. Sim, a poesia reapareceu viva e forte no século 21, chegando inclusive à lista dos mais vendidos com o Toda poesia, de Paulo Leminski, citado bem mais de uma vez por Tarso.
Música do mundo não é, desde o início, um livro para acadêmicos especializados, daqueles que tentam entender o fenômeno lírico em algum recorte histórico ou teórico, nem um livro de crítica, dos que escolhem um autor e sua obra para discutir e apresentar teses interpretativas. É o livro de um poeta sobre poesia, um poeta que busca fazer o “leitor não especializado”, como chama na Apresentação, aproximar-se, com um olhar um pouco mais esperto, desse estranho animal feito de palavras.
Um livro sobre poesia, escrito por um poeta que não oculta sua maior fonte de inspiração e modelo para a empreitada: o mexicano Octavio Paz e seu longo ensaio O arco e a lira. Paz aparece no título e na epígrafe, na Apresentação e logo no segundo parágrafo do primeiro capítulo. Como o ganhador do Nobel, Tarso escreve cada capítulo à maneira de ensaio, no sentido forte do termo, como tentativas de aproximação a aspectos da poesia, e sem qualquer tipo de preconceito ou sectarismo. Pelo contrário, sua abordagem é sempre de amante (sem pudor em adjetivar poemas como “lindo”, “inquietante”, “clássico”) do fenômeno da poesia no sentido mais amplo que possamos entender, sem que isso implique falta de rigor — dentro das escolhas feitas pelo autor.
Introduções à poesia
Uma dessas escolhas aparece logo no subtítulo do livro: “introduções à poesia”. Esse plural rege a escrita dos capítulos como ensaios “independentes” com “indagações específicas” sobre a poesia. No entanto, mesmo que as indagações sejam específicas, os capítulos não perdem a amplitude ensaística, conferindo-lhes o sentido de introdução a alguma questão de poética.
Essas questões são explicitadas na Apresentação, mas acompanhá-las ao longo do livro é constatar não apenas sua escolha “metodológica”, mas também suas abordagens para temas que vão de “a natureza e a função” da poesia até estratégias para “a [sua] apreciação”, passando por “histórias dessa arte”, “reflexões em torno da linguagem” e “formas poéticas”.
Achei as abordagens bastante apropriadas, evitando tomar posição tanto na busca por definir o que é poesia, no primeiro capítulo, sem reduzir sua história à tradição europeia e letrada, no segundo capítulo, ao discutir questões de filosofia da linguagem, no terceiro capítulo, mostrando quase “tudo que um poema pode ser”, no quarto capítulo, e ao dar algumas estratégias de leitura de poesia, no quinto.
Destaco como Tarso soube conduzir suas “introduções”, sem avançar demasiadamente em intermináveis debates críticos, mas também sem desistir de mostrar o quanto o emaranhado de conversas, controvérsias e debates entre versos, poemas, poetas e críticos é a fonte que alimenta a própria poesia e suas infinitas potencialidades ao longo dos séculos e povos. Tarso soube como apresentar questões muitas vezes espinhosas, traduzindo-as pela experiência mais direta da linguagem na leitura de poemas:
Por ser, formar, criar e propagar a realidade, a linguagem é tão concreta, material e viva quanto qualquer outro elemento da realidade. E isso nos interessa bastante aqui, porque […] o poema pega a linguagem num determinado ponto — a que chegou, é importante lembrar, por um trabalho coletivo, social, histórico, de todos que manejam os signos dessa linguagem — e leva-a para outro ponto.
Ou então, após a afirmação, tão perigosa quanto verdadeira, de que “a linguagem poética tem um ‘voo’ a seu favor: o poema pode voar”:
É difícil definir o que é exatamente o voo do poema ou, ainda mais, sua extensão, porque cada poeta encontra novas formas de voar, novos lugares para onde levar nossa atenção, sem as condições e restrições da “razão”.
A experiência poética
Tarso traz, geralmente, bons e variados exemplos de poemas, versos, aforismas e comentários de terceiros para exemplificar seu próprio raciocínio. Mas, verdade seja dita, o autor tenta nunca submeter os exemplos a camisas de força teórico-críticas ou a afirmações muito categóricas. Aparecem sempre, vez por outra, moduladores como um “a meu ver”, um “talvez”, um “há um poema que me parece estar falando disso”, dentre outros. Ele também não faz exaustivas análises textuais ou interpretações de poemas, mas comentários breves e muitas vezes saborosos, como para Introdução à arte das montanhas, de Leonardo Fróes, ou para A vida cotidiana, de Murilo Mendes. Ou seja: Tarso consegue introduzir o eventual leitor ao complexo mundo dos poemas e poetas, sem perder a pessoalidade típica dos ensaios.
O principal mérito desse livro talvez seja jamais perder de vista seu destinatário eleito. O autor poderia, em algum momento, ter feito concessões a tradições críticas e poéticas específicas ou reduzido sua pretensão à poesia contemporânea. Manteve-se, contudo, fiel à abordagem plural e ao “leitor não especializado”, que gostaria de “saber ler melhor” poesia, ou que gosta dos nossos poetas cancionistas, ou ainda que gosta de ler “apenas” certo tipo de poesia, ou mesmo aquele grande leitor de prosa que “gostaria de gostar” de poesia. É para eles que Tarso desde o início parece escrever suas “introduções”, embora eu o veja também alcançar estudantes de graduação dos cursos de Letras — tão carentes de introduções nem novidadeiras nem conservadoras, mas tão simplesmente honestas.
Costuma-se dizer que o Instagram é a rede social ideal para os artistas. Isso também vale no campo da literatura, em especial para os poetas — amadores das palavras —, afinal, poesia é a palavra tomada com e como arte: escrita, falada, cantada ou plástico-visual. Por isso, temos hoje o curioso e compreensível fenômeno dos “poetas de Instagram”, dividindo lado a lado seguidores com poetas reconhecidos ou consagrados.
Além das bolhas
O boom da poesia no século 21 transportou vários leitores das redes sociais para os livros. Esse também é o “leitor não especializado” a que Tarso se refere e com o qual muitos poetas contemporâneos não conseguem, ou não desejam, dialogar. Isso é visível nas séries da Círculo de Poemas, pois Tarso demonstra agudeza crítica na escolha de poetas de qualidade que conseguem esse diálogo.
Por isso, também, ao final de Música do mundo, ele faz profissão de fé do livro como um objeto funcional e necessário para a apreciação das formas de poesia. E nisso, ele faz coro com as tantas editoras pequenas e médias, todas ou quase todas independentes. Assim como os poetas, muitos deles editores de poesia ou autopublicados. É com eles que Tarso parece escrever, abrindo aos leitores o horizonte da poesia para muito além de suas bolhas.
Acho que foi Baudelaire (também citado no livro) que, em uma de suas críticas, disse serem os “poetas menores” fundamentais para a poesia, pois são eles que a mantêm viva ao longo de tantos séculos e povos. É, portanto, junto com todos os amantes da tal arte da palavra que Tarso escreve esse livro. Para além da poesia contemporânea, mas junto com ela, Tarso consegue expandi-la tanto histórica quanto geograficamente, e sem perder seu foco “o leitor, esse desconhecido”.