O ventre de Cony

Relançamento do primeiro livro de Carlos Heitor Cony, de 1958, é peça fundamental para se entender os temas que acompanhariam o escritor vida afora
Carlos Heitor Cony por Osvalter
01/11/2008

Nascido em 1926, quando o País ainda vivia sob o regime político da República Velha, com todas as respectivas implicações políticas e sociais relacionadas, o jornalista Carlos Heitor Cony representa para a literatura brasileira um tipo de escritor que dificilmente foge das expectativas de seu público leitor. Para o bem e para o mal, essa característica se relaciona com sua trajetória e remonta ao período em que nasceu. Explica-se: daquele Brasil, também se esperava muito, da mesma forma que da sua obra certa leitura crítica apostava mais, muito mais, sobretudo quando se observa o título com o qual iniciou sua participação na literatura brasileira, o elogiado O ventre, romance que ora é relançado pela editora Alfaguara, dando continuidade à reedição de toda a obra do escritor. É curioso, portanto, observar alguns detalhes interessantes a respeito desse livro que marca a estréia de Carlos Heitor Cony. Senão, vejamos: trata-se de um livro de estréia e, curiosamente, o título da obra remete às origens, o ventre. Do ventre, também, espera-se as entranhas, algo visceral, tão pungente que é capaz de delinear o sentido de uma vida; nesse caso, O ventre, lançado há 50 anos, é efetivamente um texto seminal no que se refere ao projeto literário de um escritor, assim como o é no tocante a um retrato, ainda que ficcional, da classe média urbana no Brasil. Na obra de Cony, essa seria a pedra fundamental do seu edifício literário, a despeito das questões de estilo e dos modismos temáticos.

Tomando como base este primeiro romance, é possível observar elementos que perpassam todos os demais livros do escritor, como se estes estivessem pré-articulados, à espera do arremate final. Tem-se ali um início arrebatador, curto, tal como a abertura de uma peça musical. O leitor entra em contato com um personagem, o misantropo José Severo, que narra as suas primeiras desventuras sem afetação, com realismo absolutamente verossímil, a ponto de mostrar sua condição de rejeitado, ao mesmo tempo em que o outro, o irmão, era sobremaneira incluído e incensado na sua família. Como se lê na história, o afeto se encerrara havia muito para a vida de José Severo. E antes de ser um conto cheio de som e fúria, a vida, na perspectiva deste protagonista da obra de Cony, era uma porcaria. A jornada de José Severo é propositadamente dura, cheia de percalços, sem espaço para crer em um futuro redentor. Representava o outro lado de um País que poderia dar certo. Aliás, se é verdade que a década de 1950, em especial o ano de 1958, foi um período, na visão de alguns cronistas, que não deveria acabar, em O ventre estão as fissuras não-visíveis desse suposto paraíso. Nesse caso em especial, havia como que uma espécie de predestinação para que José Severo fosse um autêntico perdedor, à margem do triunfo burguês, mas inserido na tortura existencial de seu tempo. É o próprio romancista quem acusa a influência oriunda de pensadores dessa linhagem filosófica, como Jean Paul Sartre.

As mulheres em Cony
A esse dilema existencial, surge outra questão, que seria perene na obra de Cony: a presença da mulher. Para alguns leitores mais experimentados, trata-se, de fato, da homenagem do escritor à obra machadiana, que, vez em quando, merece menção direta nas crônicas publicadas pelo jornalista na imprensa nacional. Entretanto, em recente entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Cony afirmou que prefere a literatura de Lima Barreto à de Machado de Assis. É claro que tal predileção não significa negação de Machado de Assis. Nota-se, no entanto, que nem todas as alusões são obrigatoriamente homenagens diretas. Em relação a O ventre, o que se lê é a articulação de um peculiar triângulo amoroso, com tintas bastante carregadas para a sensualidade se se imaginar a época em que o livro fora publicado. Aliás, talvez resida aí a natureza do julgamento do concurso oficial, que considerou o romance de Cony extraordinário, mas forte demais para os padrões do período (de novo, a década de 1950). O forte, em questão, pode ser traduzido em Helena, personagem que representa mistério traz consigo a malícia necessária para forjar uma espécie de triângulo amoroso. Aqui, com efeito, Machado de Assis parece estar presente, não apenas na figura do narrador, mas, principalmente, no modo como a mulher domina os corações, as mentes e os instintos mais primitivos dos homens. Nessa percepção, pode haver certo rescaldo de machismo, mas é necessário reparar que José Severo, aquele que dá as cartas na narrativa, é um pouco brutalizado pela vida.

Esse sentimento só faz aumentar à medida que a história avança e se descobre a natureza da rejeição de José Severo em relação ao irmão. O ventre pode ter sido o mesmo, mas as circunstâncias são bem distintas. E José Severo descobre, de fato, que ele é o outro. Impossível não remeter novamente ao fator existencial, uma leitura reificada, haja vista as inúmeras interpretações dadas acerca da obra de Cony. É forçoso observar, em contrapartida, que essa marca assinala o texto do escritor do início ao fim. A diferença, nesse ponto, é que Cony não faz isso de forma intelectualizada. Ao contrário. O autor prefere desconfiar da erudição e até faz troça em relação aos personagens lidos e à chamada literatura clássica. No caso de O ventre, há um trecho com uma discussão bem pertinente acerca de Eça de Queirós e Machado de Assis. Em meio ao debate de quem seria melhor, José Severo dá de ombros e permanece bestializado no tocante às letras. O retrato, nesse caso, torna-se mais verossímil, uma vez que o objeto da questão filosófica — o existencialismo — não é um discípulo ou repetidor das teorias da moda. É, sim, um representante do cidadão comum que se vê diante dos dilemas morais graves, mas que não recorre à afetação e ao saber para se decidir. Escolhe, portanto, como um homem simples.

Ocorre que a aparência de simplicidade não consegue mascarar a profundidade da literatura de Carlos Heitor Cony. É como se o autor dissesse, nas entrelinhas de seus romances, que não existem soluções fáceis, por mais recorrentes e comuns que pareçam ser os problemas. Desse modo, um triângulo amoroso, ao mesmo tempo em que não é original, toma proporções diferentes de acordo com as escolhas de cada personagem, que, em vez da histeria ou do drama, optam pela resignação, sofrendo, ao fim e ao cabo, em silêncio. Essa parece ser a ordem natural das narrativas de Cony. A redenção perde espaço para certo ar trágico, em que a tenacidade dos acontecimentos sempre determina a condição humana. Cony, entretanto, maquia essa tendência determinista utilizando recursos estilísticos bastante eficazes. Grosso modo, os personagens, em vez de autocomiseração, reagem aos acontecimentos de forma irônica e, até mesmo, sarcástica. Embora não possa ter sido pensado para isso, essa característica acaba por tornar o texto mais leve, e isso sem fazer concessão ao conteúdo das afirmações. Assim, no caso de José Severo, é natural para ele sua rejeição, já que ele mesmo não sabia por que era tão feio.

Ainda no que se refere ao estilo, também este primeiro romance exacerba algumas características do texto de Carlos Heitor Cony. Bem entendido, é uma prosa cosmopolita se se comparar com o estilo regionalista do período. Assim, toda a narrativa obedece ao cenário urbano, com as falas, os lugares e até mesmo os hábitos. O escritor torna esse entorno perceptível pela fala dos personagens e pelo texto, que, essencialmente, não articula hermetismos poéticos, tampouco arrisca novas palavras. Eis aqui outro elemento que tornaria a obra de Cony reconhecível junto a seus leitores. Dentro dessa perspectiva, não há espaço para surpresas e decepções no tocante aos temas e ao estilo. A marca definitiva da obra de Cony se dá no desfecho. Trata-se de um detalhe que já estava assinalado no começo do livro. Há aqueles que esperam por um tipo de encerramento que faça justiça ao sofrimento dos personagens. De maneira coerente, isso ocorre apenas de forma parcial. Outro aviso: mesmo o determinismo não é definitivo, parece ser a mensagem. Assim, no tocante a José Severo, o mundo não se torna melhor porque ele enfrenta seus problemas, mas, ao menos, ele aprende a conviver com suas decepções e não parece mais torturado por isso.

Carlos Heitor Cony por Osvalter

Travessia com palavras
Se em O ventre estão demarcados os elementos fundamentais da obra de Cony, nos demais romances o que se lê é a depuração de um estilo. É o que ocorre em três livros: Pessach: a travessia; Quase memória; e Antes, o verão. Embora tenham sido escritos em momentos distintos, assim como tratam de temas diferentes, é perceptível uma tendência à forma com que o autor constrói as histórias e amarra as personagens nas respectivas trajetórias. No caso de Pessach, por exemplo, temos a saga de um escritor que vive às voltas com a luta armada. A princípio, parece não querer se envolver. Entretanto, outras questões fazem com que ele se envolva com o tema, deixando de ser um mero coadjuvante. Isso não acontece sem que ele mesmo questione a posição daqueles que decidem por esse método de ação política. O livro foi escrito muito antes de o escritor Carlos Heitor Cony se meter em uma polêmica relacionada à reparação da ditadura militar. Porque havia sido demitido da redação de uma revista à época do regime de exceção, Cony, como outras pessoas, teria o direito a uma pensão vitalícia do governo. O dinheiro não veio, mas não faltou quem acusasse o jornalista e escritor de oportunismo, algo que deixaria seus personagens em posição no mínimo constrangedora.

No livro, o escritor em questão pode ser enquadrado como um alienado do ponto de vista da política. Por que então ele se deixa envolver com guerrilheiros? Um observador mais arguto e pragmático diria que, do contrário, não haveria romance. De fato, mas não se trata apenas da ação em si que torna o livro possível, mas, sobretudo, das dúvidas, expectativas, ressentimentos e anseios que nascem do protagonista em relação aos demais personagens. Outra vez, um triângulo amoroso surge para servir como história paralela e fazer com que o leitor perceba de que forma mesmo as ações de cunho social têm, muitas vezes, um quê de afeto e de egoísmo. Ademais, em Pessach a discussão moral passa por uma reflexão-chave no tocante à sua matriz. A certa altura, a personagem que sofreu abuso sexual questiona o fato do certo e errado se fundamentar na moral cristã. E o que seria, no caso deste livro, apenas um texto sobre as escolhas políticas de cada um, torna-se uma obra que disserta sobre uma questão filosófica.

Escritores usam sua voz para dar vida a histórias que os incomodam. Pelo menos, esta é a percepção que alguns têm a respeito de escritores e também da literatura. A propósito, anos atrás foi publicado um livro — Afinal, por que eles escrevem? — que trazia respostas sobre a motivação central dos escritores. Entre as respostas, é possível que esta, a de trazer à tona algo que incomoda, fosse a motivação de muitos autores. Durante pouco mais de 20 anos, Carlos Heitor Cony, para além de sua atuação no jornalismo, deu às costas ao romance. Não escreveu e, para uma geração de novos leitores, ele era apenas um jornalista. Perguntado por quê, Cony deu mais uma resposta aparentemente simples: não se sentia pessoalmente torturado por nada a ponto de escrever. Há quem confunda isso com bloqueio de escritor ou até mesmo depressão. Não era disso, no entanto, que se tratava a fase em branco de Cony. Para ele, a literatura tem uma relação absolutamente intrínseca com a angústia, sendo, portanto, esse o fator que gera a obra de arte. Nesse sentido, o retorno aos romances não poderia ser mais exemplar. Com Quase memória, a crítica e o público redescobriram Carlos Heitor Cony e suas histórias que cumprem com as expectativas dos leitores. O livro em questão, no entanto, surpreendeu porque não trouxe um autor enferrujado pelo tempo que ficou sem publicar. É como se ao longo de 20 anos a escrita, o tema e o próprio autor tivessem se fortalecido ainda mais no aspecto literário. Não se quer dizer aqui que Cony não estava pronto entre as décadas de 1950 e 1970. Trata-se tão-somente de evidenciar que a prosa do autor atingiu seu patamar mais elevado com este livro.

Qual é a história? Cony recebe um pacote, assinado por seu pai, logo pela manhã em seu escritório. Fica em dúvida se deve ou não abrir o que recebeu. A partir daí, começa a rememorar sua trajetória intelectual e de formação, resgatando as lembranças de seu pai e do tempo em que este viveu. Os anos de formação estão presentes não em forma de justificar um personagem pronto, mas, sim, no sentido de trazer à tona os detalhes que constituem uma personalidade. O caráter memorialístico, por vezes, ganha tom sentimental, uma vez que o narrador se recorda de passagens importantes sobre, por exemplo, o jornalismo no passado, em cuja galeria havia a figura do grande crítico de teatro. Em determinada passagem, o narrador conta como ele foi expurgado por não fazer mais parte integrante daquele contexto de época. De certa maneira, entende-se, é o que acontece todos os dias no tocante à troca de guarda das gerações. Houve um período em que essa movimentação foi mais natural e menos brutalizada, assim como teve uma época em que as pessoas ligavam mais para isso. Atualmente, o romance nos mostra que isso é parte de nossa quase memória.

Outro detalhe importante deste livro, que recebeu inúmeros prêmios à época de seu lançamento (em 1995), é o fato de seu estilo prender a atenção do leitor como se fosse mesmo uma conversa. Em outras palavras, a cada início de capítulo, de forma despretensiosa, o narrador tergiversa entre abrir ou não o envelope. Esse é o argumento para conduzir o leitor a mais um relato memorial e, por que não?, memorável sobre um tempo que já não existe mais. De certa forma, o livro pode ser entendido como uma espécie de acerto de contas de Cony para com sua trajetória, sua formação, mesmo que isso não tenha um caráter de julgamento. O acerto de contas, portanto, é mais existencial e não para atacar os outros ou os próprios pecados. O pacote que recebe está mais para passaporte do que para bagagem nessa viagem em torno de suas memórias, e o narrador mostra que o importante não é o que está dentro do pacote, mas as recordações que este traz consigo.

Em Antes, o verão, Cony retorna aos dilemas da classe média. E é curioso como ele se torna um dos poucos escritores a tratar desse segmento social. Como que de repente, não mais que de repente, como cantou o poeta, parece ter sido instaurada uma lei que a chamada burguesia não teria direito a ser retratada pela literatura brasileira. Repare, leitor, nos lançamentos. Há quem fale de escritores marginais, há quem discuta sobre a violência urbana do ponto de vista da exclusão social, e há até mesmo quem escreva sobre preconceito racial, mas a burguesia, essa vilã, parece ser o verdadeiro negro no mundo. Desse modo, há uma curiosa inversão: escritores — os novos, na sua maioria — se referem à classe média como que para notificar a respeito de algum problema. A corrupção existe? É culpa da classe média. Há injustiça social? É culpa da classe média, preocupada apenas com seus dramas burgueses. Onde está a inversão? A classe média, para certa literatura, é vista como a elite mandante do País, algo no mínimo questionável. Antes, o verão foge a essa suposta regra geracional. O livro traz a trajetória de uma família cujo objetivo máximo se concretiza na construção da casa de praia, localizada em Cabo Frio. O que era para ser o lugar de regozijo e deleite familiar se torna o princípio do fim.

No romance, assim como a casa começa a apresentar seus problemas pontuais, o casamento, que antes parecia estável, se mostra por um fio. A felicidade que não se compra com esses sonhos de consumo. E o detalhe que pode estragar tudo pode estar logo ao lado — no caso do relacionamento, um intruso, um hóspede que surge sem ser convidado para a primeira estada em Cabo Frio; em relação à casa, a areia que silenciosamente promete arrasar a construção. O aviso vem como um presságio: essa aparente felicidade está por um fio; é imbatível até o próximo vento minar as estruturas mais sólidas. Depois, não há nada que tornará as coisas como antes. Para uma vida que não tem soluções simples, essa parece ser a lógica inexorável. E mesmo nos relacionamentos mais duradouros tudo está prestes a acabar pelo acaso.

Aos 82 anos, Carlos Heitor Cony, de acordo com suas últimas entrevistas, diz não ter mais fôlego para um outro romance. Logo para ele, que escreve com rapidez — alguns de seus livros foram escritos em pouco mais de dez dias; e o cronista Joaquim Ferreira dos Santos disse ter presenciado uma vez Cony elaborar um texto em 20 minutos. Mesmo assim, seus romances formam um interessante universo a ser descoberto não só a respeito da imaginação literária, mas, também, no tocante às questões de fundo de seus personagens, ora torturados, ora perplexos, com o sentimento de impotência diante do caos calmo que é o cotidiano.

O ventre
Carlos Heitor Cony
Alfaguara
184 págs.
Pessach: a travessia
Carlos Heitor Cony
Alfaguara
336 págs.
Quase memória
Carlos Heitor Cony
Alfaguara
240 págs.
Antes, o verão
Carlos Heitor Cony
Alfaguara
200 págs.
Carlos Heitor Cony
Jornalista e escritor. Nascido no Rio de Janeiro, em 1026, durante a juventude foi seminarista, o que o aproximou da Filosofia, poucos anos depois. Como jornalista, profissão que exerce desde os 20 anos, já escreveu para o Correio da Manhã e para a revista Manchete. Como romancista, é autor de O ventre; Quase memória; Romance sem palavras; Pessach: a travessia; Antes, o verão, entre outros. Vencedor do Prêmio Jabuti em quatro ocasiões, foi condecorado com a Ordem das Artes e Letras pelo governo francês em 1998. Atualmente, escreve para a Folha de S. Paulo, é comentarista da rádio CBN e colunista do canal de TV BandNews.
Fabio Silvestre Cardoso

É jornalista e doutor em América Latina pela Universidade de S.Paulo. Autor de Capanema (Record, 2019)

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