O silêncio de todos nós

Novo livro de Elvira Vigna trabalha com uma importante questão central: quem somos diante do outro
Elvira Vigna, autora de “Como se estivéssemos em palimpsesto de putas”
10/11/2016

Entre o que você diz e o que eu percebo, tem um vão enorme. Entre os relatos e os fatos, muitas lacunas, infinitas combinatórias possíveis. E tudo o que existe está sobreposto: imagens, pessoas, palavras, acontecimentos — como em um palimpsesto — o que só dificulta ainda mais a leitura: quem sou eu e quem é você?

Neste novo e intrigante romance da Elvira Vigna, Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, são muitas as sobreposições — o “eu” em questão é uma jovem designer em busca de emprego; “você”, um homem chamado João, que trabalha em uma editora quase falida no Rio de Janeiro. Em um calor sufocante, eles são estranhos que se encontram no tal escritório — espaço impessoal, cravado de confissões. Ele conta à jovem suas experiências diárias com prostitutas. Ela não fala muito, aparentemente apenas escuta; ele diz coisas pela metade, o que dá margem a um discurso segundo, feito por ela, de imaginação e curiosidade, e que vai costurando a narrativa. “Mas sei que nada é assim (…). Então desconfio”, ela pensa. Desconfiar é aqui o mesmo que narrar. Literalmente.

Logo nas primeiras linhas, ela desmente o que irá contar, ao dizer que não sabe bem como é a história. Começa pelo fim, quando o casamento de João com Lola já desabou. E segue replicando o relato das prostitutas, em ordem não cronológica, recriando situações a partir das poucas palavras dele. As garotas povoam a vida de João; seus dias são invadidos pela eterna busca da transgressão. Assim ele pensa que transgredir é isso. A conversa é fragmentada, e o texto é prolongado pela imaginação da designer, que preenche os pontinhos do que João não disse.

A princípio, ela não sabe muito bem como absorver as confidências, sendo ainda muito jovem, mas não consegue ceder à tentação da curiosidade:

Concordo com o que ele não diz. Concordo que há coisas que podem ser encontradas nos programas com garotas de programa. Essas coisas, então, que ele acha que existem e que quer encontrar, são o motivo de ele perder o olhar na janela fechada do escritório em Botafogo. Um lugar onde eu e ele ficamos nos fins de tarde, onde ele me conta o que conta, tantas vezes, e que é um lugar que não é dele nem meu nunca será. Nós dois lá, iguais, perdidos, iguais. Tantas vezes.

Na verdade, João não queria que a narradora, escutadeira de prontidão, existisse. Ela deveria apenas escutá-lo sem interrompê-lo ou contradizê-lo. “Mas se ele queria parecer um cara porreta capaz de embarcar num jato de luz, buscar algo além desse mundo banal, eu também queria parecer ser mais do que era”. A maior transgressão da moça, então, é criar secretamente os discursos paralelos, incrementar com imaginação todos os interditos. Ele jamais poderia supor que, dentro do silêncio dela, houvesse tanta liberdade.

São inúmeras as questões essenciais que Elvira Vigna provoca neste livro crepitante. Uma delas é aquela que se coloca diante do outro que nos vê e escuta. Quem sou eu para você? A verdade é absolutamente inapreensível.

Saber o que falam os livros. Mentem. Dizer que são uma coisa, e dependendo de como se lê, de quem lê, são outra. João também, uma espécie de livro, ele próprio.

São inúmeras as questões essenciais que Elvira Vigna provoca neste livro crepitante. Uma delas é aquela que se coloca diante do outro que nos vê e escuta.

Vestígios
Como tudo está embolorado, a designer divide o apartamento com uma garota de programa chamada Mariana. Por conta dessa aproximação, João acredita que ela tem mais experiência no assunto (putaria) do que de fato tem — e por isso fica à vontade para relatar seus encontros. Pouco a pouco, as histórias que ele narra ganham mais parágrafos do que tinham na origem, pois as garotas não eram, de fato, pessoas que importassem — assim mesmo como Lola, a ex-mulher, de quem ele se sentia longe mesmo quando estava perto. Quem diz isso é a narradora a partir dos vestígios. As vidas também se entrecruzam, incluindo aí Lurian, a vizinha transexual, e o filho que João teve como Lola.

Interessante como Elvira faz o leitor desviar a atenção para o que importa — não propriamente as aventuras sexuais, mas o que não houve — o silêncio. Eis a matéria pulsante deste livro tão curioso. O que não houve é mais forte e essencial. Ela diz então coisas do tipo: “Já o que fica para mim é outra coisa”. “Quase vejo.” Ou: “Me incluo nesta cena que João conta com poucos detalhes”. Refaz os passos e os diálogos. Chega a montar as cenas de intimidade em que ele está nos quartos com as garotas — recupera o que lhe escapa. Recria o que João pensou, mas omitiu, talvez por puro desconhecimento de causa.

Em uma das vezes em que cumpre esse script, trepa, acaba a trepada, se veste, a garota já está paga de antemão, como sempre em dinheiro, ele vai embora e não sabe a razão. Não consegue atinar a razão.

Em outros momentos, ela apenas adiciona elementos que conferem mais sabor às cenas, como se estivesse criando um roteiro da vida alheia. João relata:

Pus um bombom dentro dela. Chupei. Foi legal. Mas o cheiro de chocolate atrapalhou. Não era para eu sentir cheiro de chocolate nessa hora. Juntou com Todinho, uma coisa de infância. Não sei se a minha, se a de meu filho, mas de qualquer jeito, não tinha nada a ver.

Ela acrescenta: “Bombom de frigobar. De cereja. Tinha licor. João precisou interromper um pouco o ritmo para dar um jeito no licor”.

Outras reflexões surgem à medida que João (des) conta as histórias. Ela percebe, entre os não-ditos, as mentiras, intenções ocultas, covardias. E também o lugar que o outro — como no caso da ex-mulher — ocupava na vida dele quando estavam casados. Descobre que algumas pessoas existem na vida da gente pelo negativo. “João não quer se separar de Lola. É o único momento da vida em comum deles em que Lola existe para João. Existe pelo negativo”.

A pergunta inevitável: qual é momento em que, de fato, existimos para o outro? A ideia de que as pessoas são traduções não terminadas inclui a percepção sempre vacilante que fazemos delas. Sabe-se tão pouco do outro que nos chega pela metade, imerso em silêncio e omissões — porque é sempre pela metade que chegamos ao outro, é sempre pela metade que o outro chega para nós, parece dizer a moça ao mostrar o quão falha é a verdade de João.

O romance faz parte do estranho mundo de Elvira Vigna, capaz de criar uma atmosfera literária inusitada, reticente, cheias de pontinhos que, assim como o relato de João, deve ser desacreditado para que outras interpretações aconteçam de acordo com a percepção de cada um. Porque também escrita e leitura formam um palimpsesto.

Como se estivéssemos em palimpsesto de putas
Elvira Vigna
Companhia das Letras
216 págs.
Elvira Vigna
É escritora e desenhista. Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1947, e mora em São Paulo (SP). Mestre em Comunicação pela UFRJ, publicou, pela Companhia das Letras, Deixei ele lá e vim, O que deu para fazer em matéria de história de amor e Por escrito, entre outros livros.
Claudia Nina

É jornalista e escritora, autora dos infantis A barca dos feiosos, Nina e a lamparina, A repolheira Ana-Centopeia, entre outros. Publicou os romances Esquecer-te de mim (Babel) e Paisagem de porcelana (Rocco), finalista do Prêmio Rio. Assina coluna semanal na revista Seleções. Seu trabalho mais recente é a participação na antologia Fake fiction (Dublinense). Alguns textos da coluna da Seleções estão no seu podcast, disponível no Spotfy, lidos pela própria autora.

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