O poeta amador e a criança cientista

Em "Aos pés da letra", Gregorio Duvivier declara seu amor à linguagem e transforma a curiosidade pelas palavras em exercício de descoberta
Gregorio Duvivier, autor de “Aos pés da letra” Foto: Ana Alexandrino
01/11/2026

No último ano, assisti a três peças no Rio de Janeiro que se destacaram por lidarem com a palavra e com a poesia. História, de Marcio Abreu, é ao mesmo tempo uma peça-ensaio sobre a violência e sobre a poesia de Waly Salomão. Trabalhando temas sobre a memória, a ficção, o esquecimento e o discurso sobre o real, seu texto culmina em uma homenagem ao poeta de Me segura qu’eu vou dar um troço (1972) e em uma reescrita do poema Remix século XX, que ficou famoso na voz de Adriana Calcanhotto, quando foi musicado no álbum Público (2000).

A segunda peça a que me refiro é O funcionário que pede para não ser identificado, de Michel Melamed, poeta conhecido por sua filiação a Oswald de Andrade desde, pelo menos, a sua Regurgitofagia (2004). Dessa vez, Melamed nos coloca diante de uma cena imaginária que acontece, provavelmente, dentro da cabeça de alguma pessoa (artista ou não, pouco importa), realizando um ensaio sobre como surgem as ideias criativas e como elas vão para o papel (ou como são colocadas em quarentena pelo superego).

A terceira peça, que ganhou notoriedade por todo o Brasil e em comunidades lusófonas em outros países, é O céu da língua, de Gregorio Duvivier. O título é revelador, já que tenta nos conduzir desde o rés do chão dos usos cotidianos da língua (brasileira, mas também das línguas em geral) até um estado epifânico de êxtase com as palavras. A peça se move entre o stand-up e a aula de poesia, em linguagem acessível e generosa, conduzindo, frequentemente, o espectador a um estado de graça, quer dizer, por fazer o espectador rir, mas também por colocá-lo em contato com uma dimensão transcendente da língua.

Erudição e amadorismo
Curiosamente, Gregorio parece também continuar os trabalhos tanto de Waly Salomão como de Oswald de Andrade, em mais de um sentido. Ambos os poetas tinham certa vocação para (e desejo de) unir o erudito e o popular em sua arte. De Waly, Gregorio parece ter herdado a inclinação para a verborragia barroca e para o espetáculo; de Oswald, a capacidade de síntese que nos legou pequenas pérolas como o poema Amor, composto de uma palavra só:

Humor

O poema é de 1927 e está no Primeiro caderno do alumno de poesia Oswald de Andrade. E, embora se coloque na posição do professor, Gregorio também nos aparece, em sua peça, como um aluno que apresenta o seu primeiro caderno. Conversa conosco sobre as teorias de linguistas e filósofos, nos ajuda a ler poemas e ouvir canções compartilhando as suas anotações, e se permite errar em interpretações absolutamente livres da etimologia das palavras, alternando entre a erudição e o amadorismo.

Com isso, Gregorio se afasta da posição do especialista, que quer se apropriar do objeto do conhecimento, como um dono. Em vez disso, opta pelo entusiasmo infantil de se empolgar com o que os outros já disseram, e brinca com isso, descobrindo, naquilo que já vimos, algo que ainda não vimos — como as crianças. O amadorismo se torna, assim, uma posição ética, política e estética. Novamente, ele me lembra Oswald de Andrade, no poema 3 de maio:

Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi.

A criança cientista
É com essa mesma posição — de criança cientista — que Gregorio Duvivier empreende a continuação de sua peça com o livro Aos pés da letra. O título, ambivalente, remete à expressão “ao pé da letra”, mas também ao título de Ana Cristina César, A teus pés. Assim, se coloca em posição de adoração da língua. De joelhos, não se apresenta como bacharel em Letras, mas, novamente, como um amador das letras. Como no verbete Bunda:

As palavras mais gostosas da nossa língua vêm da África. Marimbondo. Camundongo. Quizumba. Todas elas soam percussivas, como se acompanhadas de uma zabumba. Assim como bunda, palavra perfeita. “A bunda basta-se”, escreveu o Drummond. “A bunda é a bunda/ redunda.” Gosto que no seu longo poema sobre as nádegas o poeta evita essa palavra proparoxítona, que em nada faz jus à bunda. E também evita o trocadilho óbvio, que eu não consigo evitar: a bunda abunda. Curiosamente, no aumentativo, a bunda vira um xingamento: um bundão. Tenho vontade de rir toda vez que ouço o nome oficial da República Federativa da Alemanha: Bundesrepublik Deutschland. Só consigo pensar numa república comandada por bundões (redundância?). Mas minha palavra preferida é: moleque.

Para quem assistiu a O céu da língua, fica claro que o livro foi pensado como uma continuação da peça. Nesse sentido, é menos inventivo e um pouco direcionado ao público que já se encantou com o que acontece no palco. Mais experimental em cena do que na página, mesmo assim, Gregorio nos oferece tanta graça que somos obrigados a sorrir do início ao fim das páginas, que alternam entre a autoficção, a piada, o ensaísmo, o comentário sobre a poesia e a história da linguística. Recuperando textos fundamentais da filosofia da linguagem, como o Crátilo, de Platão, ou teóricos da linguística, como Ferdinand de Saussure, parece ser com facilidade que Gregorio nos coloca em um estado de intimidade com esses nomes que, à primeira vista, poderiam intimidar um público leigo. Como no verbete Crátilo:

No diálogo Crátilo, Platão põe, como de hábito, dois marmanjos para discordar. Enquanto Hermógenes defende que as palavras são uma convenção arbitrária, Crátilo defende que existe uma relação natural entre a coisa e seu nome. (…) A parte mais curiosa do diálogo: coube a Crátilo, logo ele, defender que as coisas são seus nomes. Se eu me chamasse Crátilo, defenderia, como Hermógenes, que não tenho nada a ver com isso. Mas não: Crátilo defende uma teoria que faz com que ele não passe de um… Crátilo. O nome me lembra um crápula, ou cretino, mas também ridículo. Um nome péssimo do ponto de vista da nomeologia.

A linguagem ameaçada
É nesse estado de intimidade que Gregorio pretende exaltar a letra. Isto é algo que tem grande valor político, a curto e a longo prazo. Vivemos em uma época de humilhação tanto das palavras como da poesia. Essa humilhação vem do uso das “inteligências” artificiais e da lógica dos algoritmos, por um lado, já que tomam o texto como mera ferramenta da economia da atenção e instrumento de reprodução do lucro (financeiro ou simbólico), a partir de expressões e sintaxes que capturam o nosso olhar através de fórmulas repetidas pelos modelos generativos.

Por outro lado, essa humilhação vem também do cinismo característico do nosso tempo: aquele de grandes empresários e de políticos, como os da família Bolsonaro e de seus aliados, que confessam os desejos mais sórdidos e corruptos de destruição da família, da nação e da democracia, ao mesmo tempo em que juram defendê-las. Os mesmos que depois negam o que de fato professam, projetando, por meio de uma retórica que só pode funcionar em um país que humilhou toda a beleza da linguagem e da comunicação, suas intenções criminosas sobre seus adversários.

É nesse contexto, ao mesmo tempo político e estético, que Gregorio Duvivier recusa a concepção instrumental da linguagem e se permite ser usado por ela. Aparenta-se, assim, ao místico, que se encontra com as palavras como com um deus misterioso e começa a falar uma língua de outro mundo. Mas também se assemelha à criança que se abre para o balbuciar como origem da linguagem. E talvez seja o caso de dizer que se parece com um amante que se dirige ao seu amor de braços abertos e diz: vem, aqui estou, a teus pés, sou todo teu.

Aos pés da letra
Gregorio Duvivier
Companhia das Letras
192 págs.
Gregorio Duvivier
Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1986. Ator, escritor e comediante, é um dos criadores do Porta dos Fundos, além de comentarista político no programa Calma Urgente. Publicou, entre outros, Ligue os pontos: poemas de amor e big bang (2013) e Sonetos de amor e sacanagem (2021), ambos pela Companhia das Letras.
Rafael Zacca

É poeta, crítico literário e professor adjunto no departamento de Filosofia da UERJ. Autor de História das crianças (Círculo de Poemas, 2025, poemas) e Formas nômades (Urutau, 2021, crítica).

Rascunho