A capa da nova edição do livro Nego tudo: ficções súbitas, de Andréa del Fuego, tem uma fotografia com duas mulheres, uma cochichando no ouvido da outra. A que conta o segredo está de lado e é possível ver somente o seu perfil. A que escuta tem o seu rosto partido ao meio e o restante de sua face só se revela se abrirmos a orelha do livro. Esse detalhe — um acerto do projeto gráfico — já antecipa o que o leitor vai encontrar no livro, reeditado em 2025, vinte anos depois de sua publicação original.
O segredo, o não dito, o que não está em cena, ou no texto, é o que move o livro de Del Fuego. A obra de narrativas breves foi publicada pela primeira vez em 2005, pela Fina Flor, numa edição artesanal, numerada e restrita a amigos, e ganhou uma nova versão em 2025, com direito a novos contos, narrativas reescritas e textos substituídos.
Logo no início do livro, Andréa del Fuego nos dá uma dica do funcionamento dos seus textos ao trazer o nome que a escritora argentina Ana María Shua deu à narrativa curta: “ficção súbita”. “Eu também diria que é um binóculo, um comentário no elevador que despenca, a fotografia de um impasse e os amores de estufa”, acrescenta Del Fuego.
E me permito destacar o seguinte fragmento da frase da autora: “um comentário no elevador que despenca”. Esse pequeno trecho de seis palavras basta para a minha cabeça, involuntariamente, produzir ao menos meia dúzia de perguntas: qual foi esse comentário? Quem são essas duas pessoas? Elas já tinham se visto antes? Elas morreram? Tocava alguma música no elevador? Se sim, qual?
Às vezes como um convite, às vezes como uma sugestão ou até um empurrão, a autora provoca o leitor a ir além do que está contido nas páginas. O livro está recheado de frases e parágrafos breves, e há alguns textos um pouco maiores, mas em menor quantidade.
O que não se vê
Roland Barthes passa boa parte do seu clássico A câmara clara construindo seu pensamento sobre uma imagem que não é revelada no livro, a “Fotografia do Jardim de Inverno”, em que a mãe do autor aparece ainda criança.
Barthes desenvolve dois conceitos a partir da relação que criamos com as fotografias. O studium envolve o contexto histórico e os códigos sociais que nos vêm ao olharmos uma imagem. A partir dele, podemos compreender o assunto da foto, sua época, sua composição. Já o punctum diz respeito àquilo que atinge pessoalmente a pessoa que está diante da imagem. O escritor francês usa a metáfora da picada, da ferida, algo que sai da fotografia e alcança o espectador; o que dá à imagem a capacidade de ter um efeito particular e distinto para cada um que a olha.
Volto à fotografia que está na capa do livro de Andréa del Fuego. O studium me permite dizer que são duas mulheres jovens da década de 1950 ou 1960. As roupas, os cortes de cabelo e os penteados são característicos desse período. Já o punctum, a picada que me atinge em particular, é a cara de espanto da moça que ouve o segredo. Eu, como bom admirador de uma fofoca, não deixo de imaginar o buchicho que está sendo contado ali, naquela festa (imagino eu) em 1957 (suponho eu).
Barthes também confessou sua preferência pelos fragmentos e os chamou de “explosões breves”, termo que se aplica bem aos textos de Nego tudo. Em seu livro Um pato amado é assado, a estadunidense Lydia Davis, outra entusiasta das narrativas curtas, pontua: “No caso de Barthes, o fragmento é uma ‘explosão breve’ ou um ‘início’”.
O leitor cria
A narrativa serve como um dispositivo, um estímulo à criação do leitor. “(…) é também o leitor quem cria a obra, quem vê ou não vê uma obra, do mesmo modo como o autor — atuando como leitor, como receptor, do material — viu uma obra e a escreveu de forma que, para ele ou ela, se tornasse uma obra escrita”, destaca Davis.
E é por aí que se desenrola o funcionamento dos textos de Del Fuego. Na página 67, por exemplo, a escritora traz um breve momento da vida do autor austro-húngaro. “Kafka tem varizes na perna esquerda, a que ele arrasta a caminho da natação. Não usa touca na piscina, deixa os óculos no banco do vestiário. Nada de costas, um braço longe do outro. Na contramão, um senhor”. Quem é esse senhor? me pergunto, imediatamente. O trecho me remete à famosa passagem do diário do escritor: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, natação”. E imagino Kafka já despreocupado com os protocolos da piscina comunitária, desfazendo-se da touca e dos óculos antes de mergulhar.
Já na página 62, o primeiro dos três fotogramas apresentados pela autora — “Gafanhotos mambembes numa Kombi, dirigida por vigaristas, rumo ao Zimbábue” — me traz à cabeça um roteiro pronto de um longa-metragem de duas horas e onze minutos. Dez páginas adiante, as três palavras centralizadas na folha — “Sereia de peixaria” — provocam involuntariamente em minha mente uma imagem muito estranha de uma sereia viva se contorcendo em uma peixaria gourmet, enquanto os clientes não dão a mínima e escolhem, absortos, se levam lagosta ou salmão.
Mas não vou me prolongar nas minhas fabulações. Vou sugerir ao leitor que viva a sua própria experiência com o livro de Del Fuego. A autora, inclusive, ao final da obra, também faz o seu convite: “Vá, quem me abandona floresce”.