Fotogramas da barbárie

"Em câmara lenta", de Renato Tapajós, mostra os horrores vividos por aqueles que resolveram pegar em armas e fazer oposição à ditadura
Renato Tapajós por Oliver Quinto
01/10/2023

Em abril de 2016, na votação pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o então deputado federal Jair Bolsonaro se notabilizou por louvar, em plena Câmara, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, famoso por ser um dos mais temíveis e sádicos torturadores que, durante a ditadura civil-militar (1964-1985), manchou de sangue a história brasileira.

Tal destaque dado ao torturador pelo até então inexpressivo parlamentar traria consequências desastrosas para a história do país. Daí em diante, a extrema direita percebeu o sinal de que era hora de sair do armário, Bolsonaro catalisou o enrustido desejo e virou presidente do país. Os resultados de quatro anos de (des)governo do ex-deputado nanico estão no armamento da população, no culto à violência e no reacendimento de valores fascistas na sociedade, levando o Brasil a dar um passo de cinquenta anos para trás e cair na época do nada brilhante Ulstra.

De um lado, repor em circulação o nome de um torquemada tupiniquim é doloroso e execrável. De outro, a abjeta bajulação a um torturador serviu para mostrar a irresponsabilidade do Estado que manteve impunes os que perpetraram crimes hediondos durante os 21 anos de governo antidemocrático. É claro que tem havido ações para mapear e mostrar um pouco dos vergonhosos eventos dos tempos de ditadura. Por exemplo, para que tais acontecimentos não sejam esquecidos, houve pelo menos algumas produções artísticas e literárias da época que ousaram tratar sobre o indigesto assunto e conseguiram, às vezes por certo tempo, driblar a censura. Demais, há poucos anos os relatórios bem detalhados da Comissão Nacional da Verdade expuseram as infames práticas da ditadura contra seus opositores.

Na esfera literária, algumas obras da época do regime de exceção puseram o dedo na ferida. Em Protesto e o novo romance brasileiro, o brasilianista Malcolm Silverman lista produções literárias, feitas entre 1964 até a década de 1980, que apanham — umas mais, outras menos — o espírito dessas tristes décadas. Entre as várias publicações do período que o autor apresenta, destacam-se Quatro-olhos (Renato Pompeu, 1976), O que é isso, companheiro? (Fernando Gabeira, 1979), Os carbonários (Alfredo Syrkis, 1980) e Zero (Ignácio de Loyola Brandão, 1976), romance que se aproxima da proposta de Em câmara lenta, dado seu caráter de discurso literário experimental e fragmentário.

Ver o lado dos que se engajaram na lutar armada porque não concordavam com a repressão que se seguiu ao golpe de 1964 e acabaram caçados, torturados, trucidados ou transformados em “desaparecidos políticos” pelos usurpadores do poder resume um pouco do romance Em câmara lenta, de Renato Tapajós. Na obra, o escritor mostra os horrores vividos por algumas pessoas que resolveram pegar em armas e fazer oposição à ditadura civil-militar, que só terminaria em 1985. Nas páginas finais do livro, é mostrada uma cena de tortura, ilustrando o modus operandis que Ulstra, Sérgio Fleury e outros punham em prática contra os descontentes com o regime de então.

Fragmentos narrativos
Vários fragmentos narrativos compõem o enredo de Em câmara lenta, escrito por Tapajós entre 1973 e 1974, quando cumpria pena no presídio Tiradentes por conta de sua militância política no grupo maoísta Ala Vermelha. No posfácio A força da forma desta nova edição do romance, Jayme da Costa Pinto destaca que “o texto vazou da cela para o mundo em pequenos retângulos de folha de papel envoltos em durex, e onde o escritor registrava a narrativa para depois repassar aos pais, que o visitavam regulamente no cárcere”. O fragmentário, como se percebe, caracteriza a obra desde quando vinha sendo redigida por Tapajós e ia saindo aos poucos da prisão.

Três anos após sair da detenção e juntar todos os pedaços dos textos contrabandeados para fora da cadeia, Tapajós conseguiu publicar o romance pela Alfa-Ômega em maio de 1977. Em um mês a edição se esgotou. O problema é que havia leitores e leitores. Entre estes, gente do II Exército, que não gostou da temática sobre mortes da esquerda armada efetuadas por pessoas ligadas ao regime. Resultado: em julho, o autor foi preso por policiais do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS). Após um mês de confinamento, o escritor acabou solto e pôde responder ao processo em liberdade, graças à pressão de intelectuais, OAB e imprensa. O livro não teve a mesma sorte. Em agosto, a circulação e a publicação de Em câmara lenta foram proibidas pelo ministro da Justiça. A segunda edição, pela mesma editora, só sairia em 1979, tempos de anistia e de afrouxamento da censura.

Quase cinquenta anos após o lançamento, este novo volume de Em câmara lenta traz, além do mencionado posfácio, uma entrevista de Tapajós, em maio de 2022, concedida a Jayme da Costa Pinto, Fabiano Curi e Graziella Beting, o relatório sobre o livro do DOI-CODI — órgão de repressão ligado à ditadura pós-1964 — e o parecer acerca do romance, anexado aos autos do processo contra o escritor, feito pelo renomado crítico literário Antonio Candido.

Datado de agosto de 1977, o relatório do DOI-CODI apresenta um canhestro e bizarro arremedo de análise literária do romance de Tapajós que visa acusar e julgar o escritor de ter feito um libelo para conclamar os jovens a se voltarem contra o Estado. O texto — marcado por frequentes solecismos — julga que a obra pretende pôr “o Governo no pelourinho” e conclui que o romance pretende fazer “apologia e incitação às guerras subversiva e revolucionária”, “emula o guerrilheiro e a guerrilha”, empregando “técnicas terroristas-comunistas”. Como é comum entre defensores da extrema direita, é óbvio que a menção a comunismo não poderia faltar.

O parecer de Candido é uma lição de interpretação literária e põe por terra a acusação de que Em câmara lenta fosse um livro que tivesse a intenção de promover o caos social ou que sua leitura predispusesse a atitudes ou a práticas subversivas. O crítico salienta que o volume é um romance, no qual “predomina a função poética, que visa realçar as qualidades estéticas da palavra”. Além disso, Candido reforça o “caráter de ambiguidade do discurso literário” presente no volume e explicita que foi “escrito conforme uma técnica requintada de fragmentação do real, mistura de planos temporais, visão rotativa, tudo ordenado em torno da ação que se completa aos poucos e dá nome ao livro”. Enfim, nas palavras finais da perícia a que tinha sido indicado, Candido não só nega que a obra tivesse feitio subversivo, bem como enfatiza que é possível lê-la como crítica às ações que tivessem o objetivo de convulsionar a sociedade.

Trauma e memória
O aspecto fragmentário do romance apresentado pelo narrador (ora em primeira pessoa, ora em terceira) decorre de sua experiência traumática com a violência, a desilusão, o fracasso e a tortura empregada pelo regime militar contra os que se opunham a suas diretrizes. Os leitores têm em mãos um “jogo de armar” (expressão que está em muitas páginas da obra) que foca várias narrativas que frequentemente aparecem ao longo do livro completando dados que a memória não tinha capturado num primeiro relato.

Esta reiteração da mesma narrativa que vai recebendo adições à medida que o romance avança lembra recurso semelhante que há no conto de Clarice Lispector A quinta história, publicado em A legião estrangeira (1964). A narrativa de Clarice repete variantes sobre a queixa do narrador sobre baratas, uma senhora que dá uma receita para matá-las e a morte dos insetos. Cada novo parágrafo traz acréscimos e reflexões do narrador sobre sua ação. Os parágrafos recebem títulos diferentes: “Como matar baratas”, “O assassinato”, “As estátuas”. No conto de Clarice, as baratas vão sendo humanizadas à medida que a narrativa avança. No que diz respeito ao romance de Tapajós, ocorre o contrário: as forças da repressão não reconhecem nos inimigos do Estado traços de humanidade e, consequentemente, objetiva eliminá-los sem compaixão.

Entre os relatos de Em câmara lenta, alguns são bastante impactantes e provêm da memória do narrador que procura recuperar o passado que o obseda. Um deles, bastante pungente, é o que trata sobre meia dúzia de jovens combatentes, na mata amazônica, fugindo de uma perseguição por terra e ar das forças armadas. Outra passagem importante aborda o personagem ele (com inicial minúscula), que, mesmo descrente na resistência aos militares, não consegue abandonar a luta armada e acaba morto. Aflitivas são as histórias dos personagens Sérgio, Fernando, Marta, Lúcia, todos metralhados em ação. Enfim, a repetição de fragmentos narrativos que tratam acerca da personagem ela (com inicial minúscula), morta também em confronto com as forças da repressão, produz agonia e exasperação no espírito dos leitores.

Nas páginas de Em câmara lenta, a história a respeito da personagem ela se repete seis vezes. O relato começa incompleto. Cada vez que reconta a história, o narrador vai preenchendo as lacunas. A cena inicial, que tem um quê de cinematográfico, foca o interior de um carro. Fora, há um policial. No banco traseiro, alguém segura uma maleta. No banco dianteiro, disfarçadamente ela apanha um revólver perto do freio de mão e atira. Os outros relatos em torno deste núcleo vão trazendo adições que permitem a compreensão total desta narrativa.

Nas idas e vindas que marcam a construção do texto, no espírito fragmentário que marca o romance, em cada nova aparição deste mesmo relato com a personagem ela, vão sendo justapostos acréscimos, novas informações. É a mesma história e também não é a mesma história. Tal recurso empregado pelo narrador pode ser interpretado como a dificuldade de lidar com um fato traumático que sucedeu à companheira. Afinal, a memória vai recuperando lentamente a tragédia que envolve as reminiscências do narrador. Quase no fim do romance, a história se revela na íntegra, permitindo aos leitores compreenderem o trágico desfecho sucedido à jovem ela, que “bebia a vida com sede”.

Neste romance, a memória do narrador recupera as dores físicas e psicológicas vividas por si mesmo e por seus companheiros, e é perceptível o quanto é difícil recompor tempos de sofrimento por meio de lembranças. Talvez o que tenha movido o narrador nesta recuperação de um passado marcado por mortes e violência foi a consciência de que o registro destes fatos que amalgamam realidade e ficção tenha a capacidade de evitar a repetição de tantas atrocidades.

Como o país passou recentemente por uma experiência de quase retorno a uma nova ditadura, mais válida ainda é a leitura do fragmentário e tenso Em câmara lenta. Nele, os nada saudosos fotogramas dos “anos de chumbo” que Tapajós conseguiu captar por meio de sua narrativa evidenciam o quão traumático foi viver num país em permanente estado de sítio.

Em câmara lenta
Renato Tapajós
Carambaia
192 págs.
Renato Tapajós
Nasceu em Belém do Pará em 1943. Na década de 1960, estudou no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), na Escola Politécnica, na Escola de Arte Dramática e fez Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP). Dirigiu cerca de 30 documentários para cinema. Destacam-se Vila da Barca (1968), melhor filme no Festival Internacional de Leipzig (Alemanha), Linha de montagem (1982), Em nome da segurança nacional (1984), premiado no Festival Internacional do Documentário em Oberhausen (Alemanha) e no Festival Internacional de Havana. Esteve ligado à resistência contra a ditadura civil-militar (1964-1985), o que o levou a ser preso entre 1969 a 1974. Na prisão, escreveu Em câmara lenta, cuja primeira edição saiu de 1977 e a segunda em 1979. É autor de várias obras infantojuvenis: Carapintada (1994), A infância acabou (1996), Queda livre (1998), Por um pedaço de terra (2000) e Rádio Muda (2003).
Marcos Hidemi de Lima

É professor de Literatura Brasileira na UTFPR de Pato Branco (PR). Autor de Dança de palavras e sonsMulheres de GracilianoVárias tessituras. Escreve crônicas semanais para o Diário do Sudoeste, jornal de Pato Branco.

Rascunho