Eppur si muove…

Em sua primeira incursão pelo romance, Marcelo Gleiser elege como tema a notável biografia de Johannes Kepler
Marcelo Gleiser discorre sobre questões complexas com simplicidade e fluidez.
01/05/2007

Ciência e religião desde sempre viveram às turras. E não haveria como ser diferente. Enquanto a prospecção do novo é o que impulsiona o pensamento científico, a fé religiosa está necessariamente atada à tradição. Noutras palavras, a ciência caminha focada no futuro e a religião, no passado. Essa divergência via de regra não impede o homem do século 21 de ter convicções firmadas em ambas, às vezes contraditórias, e de conviver com isso sem grandes dilemas. Por outro lado, nem passa pela cabeça do cientista moderno conduzir seu trabalho de forma a preservar alguma verdade canônica.

Não era assim nos tempos lúgubres da Santa Inquisição, que de santa nunca teve rigorosamente nada. Durante os séculos intermináveis em que a Igreja tinha poder de fogo e monopolizava o conhecimento no mundo ocidental, a curiosidade científica era inapelavelmente cerceada por dogmas não raro nascidos da má interpretação das Escrituras. E ai de quem ousasse ver além do que a Igreja sacramentava, com sua visão sempre míope e vocação à crueldade. Fala-se aqui obviamente da Igreja Católica. Contudo, a partir da Reforma, o protestantismo também vigiou a ciência com igual sofreguidão.

No limiar do século 17, uma notória questão balizava o avanço da astronomia. Com o advento da Contra-Reforma — a reação católica à expansão do protestantismo que, entre outras, ressuscitou a Inquisição medieval — e décadas depois de o polonês Nicolau Copérnico ter apresentado ao mundo seu modelo heliocêntrico, ambas as Igrejas faziam agora do geocentrismo de Aristóteles e Ptolomeu uma cláusula pétrea, refutando todo e qualquer raciocínio que tivesse como premissa rebaixar a Terra da posição de centro do universo. Essa orientação baseava-se mais uma vez em preceitos bíblicos bastante discutíveis — se fosse possível discuti-los àquela época sem correr o risco de ir parar na fogueira. (Anos mais tarde, coube à Igreja Católica criar o mais célebre exemplo da eterna disputa religião versus ciência, quando fez o italiano Galileu Galilei, seguidor da teoria heliocêntrica, enfrentar o Santo Ofício. Condenado a abjurar publicamente suas idéias, o astrônomo murmurou então o famoso “eppur si muove” [mas ela se move]: contudo, era a Terra que se movia, embora não pudesse dizê-lo em alto e bom som.)

Foi nesse contexto que o alemão Johannes Kepler, um luterano convicto que se preparava para seguir a carreira religiosa, descobriu seu talento para a matemática e se interessou pela astronomia. Progredindo nos estudos, logo percebeu que o modelo coperniciano era o mais lógico e que sua aceitação de forma alguma contradizia nenhum princípio de sua fé. Daí a passar incólume pela censura da Igreja, exercida no seminário por seus mentores, eram outros penosos quinhentos. Michael Maestlin, um desses mestres e importante astrônomo à época, já havia chegado antes às mesmas conclusões mas não tivera coragem de assumi-las. Tampouco apoiava agora seu discípulo. Kepler, ao contrário, lutou a vida inteira para defendê-las. E avançou na teoria de Copérnico ao propor que os planetas descreviam órbitas elípticas e não circulares. Também muito cedo conheceu o revés: antes mesmo que pudesse concluir os estudos, a universidade em Tübingen livrou-se dele indicando-o para um cargo de professor de matemática em Graz, na Áustria. Naquele momento pesava contra o aluno tão-somente sua rebeldia. Mas em seguida, com a perseguição aos protestantes recrudescendo na Europa, Graz acabou sob o domínio dos católicos. Para fugir da conversão compulsória, Kepler transferiu-se para Praga, onde trabalhou com outro astrônomo ilustre, o dinamarquês Tycho Brahe, herdando-lhe o cargo e os dados de suas pesquisas. Quando Rodolfo II renunciou ao trono da Boêmia, Kepler teve de voltar para a Áustria, estabelecendo-se então em Linz. Além dessas atribulações, sua vida foi pontuada por tragédias, que iam desde a saúde precária à perda de três filhos ainda crianças.

Essa notável biografia é o tema de A harmonia do mundo, mais recente livro de Marcelo Gleiser e sua primeira incursão pelo romance.

Entusiasta de sua profissão, Gleiser tornou-se conhecido no Brasil por um talento raríssimo no mundo da ciência: ele consegue discorrer sobre questões complexas com grande simplicidade e fluidez, popularizando um conhecimento que se costuma ver restrito a especialistas. Para compor seu novo livro, realizou um minucioso trabalho de pesquisa em documentos e manuscritos originais, na tentativa de resgatar a alma de seu biografado. Gleiser assim resume a experiência: “Segui os passos do Kepler por três semanas: Alemanha, Áustria e República Tcheca. Sentei na mesa (sic) em que ele sentava, li o livro que ele estava lendo. Tenho a correspondência trocada entre Kepler e Maestlin. Li toneladas de coisas. Tentei encarnar a vida dele”. Esse exercício resulta de fato num dos grandes méritos do romance. Gleiser foi fiel ao modelo para construir um personagem denso e humano, não cedendo à tentação de idealizá-lo, vício tão comum aos biógrafos. Em dado momento, até mesmo o descuido de Kepler com o asseio pessoal vem à baila.

Ser caricato
A harmonia do mundo estrutura-se em quatro partes, que correspondem às cidades onde Kepler viveu e produziu seus estudos: Tübingen, Graz, Praga e Linz. A narrativa tem como ponto de partida um Maestlin já octogenário às voltas com a decrepitude e o remorso de ter por várias vezes negado a Kepler o apoio do qual ele necessitava. Através de suas lembranças, avivadas na leitura recorrente das cartas e do diário do próprio discípulo, que lhe chegam no decorrer da história pelas mãos de um emissário muito especial, a trajetória de Kepler em flashback logo se impõe como o verdadeiro foco do romance. Nesse aspecto, chega a parecer óbvia a analogia entre os papéis de Maestlin e do Salieri concebido por Peter Shaffer em sua peça Amadeus, que deu origem ao estupendo filme de Milos Forman. Mas as semelhanças param por aí: enquanto Salieri é um tipo complexo e fascinante que divide a cena com Mozart, o Maestlin retratado por Gleiser personifica a mediocridade na figura de um ser caricato que serve apenas de contraponto à riqueza humana do protagonista. Repetir a mesma fórmula, mas fazendo encolher seu conteúdo, talvez não tenha sido a melhor opção.

Por outro lado, as 328 páginas são vencidas com facilidade graças à maneira objetiva com que Gleiser constrói a narrativa. Com o tempo presente fixado nos últimos dias da vida de Maestlin, a dinâmica de cortar para a história em flashback e retornar ao presente cria vários pequenos suspenses no decorrer do romance, mantendo uma discreta porém constante tensão. Quando o assunto é astronomia, Gleiser mais uma vez exerce seu reconhecido talento para tornar acessível — e agora literariamente palatável — a letra fria da ciência.

O exercício de explicar em detalhes para deixar compreensível uma idéia pode ser uma virtude em certos casos, mas talvez não funcione muito bem em literatura. Talvez seja ele indiretamente o responsável pelo calcanhar-de-aquiles da obra: o excesso. Gleiser tem o hábito de reforçar uma idéia repetindo-a com outras palavras, o que em nada parece combinar com a sofisticação do assunto. Um exemplo: “O velho mestre virou-se de lado na poltrona, tentando estimular a circulação. Urânia miou em protesto, agarrando-se às roupas do dono, insatisfeita”. Não chega a ser único, e portanto óbvio, o motivo que leva alguém a mudar de posição numa poltrona, mas será mesmo necessário explicar tintim por tintim um movimento do personagem para enfatizar a sensação de tempo transcorrido? Quanto à situação da gata que mia em protesto, existe alguma possibilidade de ela estar ao mesmo tempo satisfeita?

Como se pode confirmar pela enésima vez, o excesso enfraquece o discurso e leva inapelavelmente ao lugar-comum. E — o mais grave — não deixa margem para que o leitor exerça sua sempre ávida imaginação.

Mesmo com esses tropeços, A harmonia do mundo é uma obra séria e consistente que coloca o público brasileiro em contato com um personagem dos mais importantes e sedutores da história universal. Não será nenhuma surpresa se ela, a exemplo de seu autor, ganhar o mundo e o destaque em outras paragens.

A harmonia do mundo
Marcelo Gleiser
Companhia das Letras
327 págs.
Marcelo Gleiser
Nasceu no Rio de Janeiro, em 1959. Doutor em física pelo King’s College em Londres, atuou como pesquisador nos Estados Unidos, primeiro no Fermilab em Illinois e depois na Universidade da Califórnia. Desde 1991, é professor de física e astronomia no renomado Dartmouth College em New Hampshire. Tem diversos livros publicados em sua especialidade, dois deles merecedores do Prêmio Jabuti: A dança do universo e O fim da terra e do céu. Articulista do jornal Folha de S. Paulo, participa regularmente de programas de divulgação científica em televisões do Brasil, Estados Unidos e Inglaterra.
Luiz Paulo Faccioli

É escritor. Autor de Trocando em miúdos, Estudos das teclas pretas, entre outros.

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