Devo começar essa resenha por aqui, na mesa do escritório. As estantes revoltas ao fundo, antigos volumes em redescobrimento. Um começo comum para falar de um livro de poesia pintado com tintas de crônica. Coworking e outros poemas, a nova publicação de Heitor Ferraz Mello, está à minha frente e me orienta logo pela manhã.
Vamos trabalhando juntos algumas memórias, relâmpagos de releituras. Assim, observo que o poeta não realiza lançamentos há cerca de dez anos. O último é Meu semelhante (2016), ao passo que a estreia se dá com Resumo do dia (1996). Entre um e outro, aparecem A mesma noite (1997), Goethe nos olhos do lagarto (2001), Hoje como ontem ao meio-dia (2002), Coisas imediatas (2004 — reunindo os quatro primeiros e acrescentando o inédito Pré-desperto), Um a menos (2009) e o infantojuvenil Bichos da cidade (2015). No escorrer contínuo do tempo, despontam questões usuais na literatura de Heitor Ferraz Mello: o cotidiano doméstico, a vida na metrópole estranhada pela ótica não raro interiorana, a coloquialidade, o uso prosaico do verso livre e da rima, a preferência pelo sintético e pelo fragmentado. Ligados a essas tópicas, os diálogos com poesias brasileiras, especialmente revisitações de tendências dos modernismos (Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, por exemplo) e de escritores das décadas de 1960 e 1970 (alguns deles agremiados em 26 poetas hoje, de Heloísa Teixeira, mas não podendo esquecer, ademais, Alcides Villaça e Armando Freitas Filho).
Heitor Ferraz Mello está incluído pela mesma Heloísa Teixeira na heterogênea seleção Esses poetas: uma antologia dos anos 90. Trilhando destino individual, o autor mostra proximidades com a possível geração — valendo destacar suas relações com Augusto Massi e Carlito Azevedo — e lembra outros vinculados à época e ausentes na referida antologia, caso de Fabio Weintraub e Tarso de Melo. À sua maneira, Ferraz Mello se alinha a uma espécie de safra de (anti-)líricos interessados no cotidiano, marcada por formações acadêmicas consistentes, já distante das ousadias e dos enfrentamentos vistos nos Anos de Chumbo (1964-1985). A dita Geração 90 escreve um pouco pós-tudo, mostrando vozes singulares e menos altissonantes; dentro do possível do dia a dia, lida com os problemas do capitalismo que abocanha o mundo, atada a conflitos sociais percebidos do fundo de corpos demasiado humanos, pequenos e precários.
Uma épica menor
A afinação menor permanece no recente Coworking e outros poemas, além de haver nele certa expressão tensionada com a última década do Brasil e do globo, conferindo ao livro cromatismos particulares ao atravessar um trânsito incomum de acontecimentos. Notícias como a pandemia de covid-19 e seus estragos — melancolia, pesadelo, morte, luto, esgotamento — chegam esfaceladas e esfacelantes agora, sendo que essas texturas fantasmagóricas surgem balanceadas por alguma leveza irônica e galhofa. A poética de Heitor Ferraz Mello convive, há muito, com um desencantamento do mundo, aspecto aprofundado no volume recente, quando decadência e despedaçamento vão se acumulando nas temáticas abordadas, nas imagens construídas com outono e natureza morta, nos modos de hospedar gêneros literários.
Atrelados a esse momento mundial de descoberta e destruição, os textos elencados perfazem certos gêneros literários, embora retornar a um deles não seja nunca voltar exatamente ao mesmo lugar. A obra está aberta a interações com cânones, ecoa vozes antigas despertas, a exemplo de Ilíada e de Os lusíadas, porém carcomendo o tom grandiloquente, acolhendo o íntimo. Em Medir o mundo, propõe:
É um épico
em tamanho menor
crônica que se faz e refaz
uma noite que abocanha tudo
O tempo largado
no centro do chão
um menino tão pequeno
quanto seu gigantismo
Nesse épico menor, evita teodiceias ou grandes feitos de grandes homens, enquanto reveste com poesia os trabalhos e os dias. Talvez a alma encantadora dessas páginas esteja na vida ao rés-do-chão, olhando álbuns, portões, janelas. Os versos de Parque, aliás, parecem retramar de maneira sutil o clássico O pavão, crônica de Rubem Braga:
Passo um tempo observando
um pavão
no parque da Água Branca
Ele de repente ganha impulso
e sobe numa árvore
Não precisa de dinheiro para pagar as contas
nem para se alimentar
mas precisa de seu leque de olhos pintados e cores
Sabe que todos embaixo o esperam
como a um velho ator
que domina os truques banais de sua arte
[…]
O olhar prosaico
O eu lírico fotografa um breve episódio. A voz íntima que narra a cena não esplende nem delira, não se cobre de glórias nem se faz magnífica. O sujeito até se põe de costas. Que importa a paisagem, a Água Branca, o paetê, o brilho do espetáculo? O poeta vê apenas a cloaca.
Nesse poema aparentemente composto ao correr da pena, segue a dicção de cronista. Uma vida prosaica, um ritmo prosaico, sem lances espetaculares, mesmo que apareça algum “de repente”. Nos escritos do professor de Jornalismo Literário, despertam opções pela síntese do dia a dia, pelas coisas imediatas, corroendo os traços épicos não abandonados de todo, entretanto. Há muito ele está fazendo e refazendo desencantada metafísica de quinquilharia, próximo das histórias em cousas miúdas publicadas por Machado de Assis na imprensa. O mencionado Velho Braga também se deixa notar, havendo nele e em Heitor Ferraz Mello um volume de matizes atingido com poucos elementos. Nessa linhagem, alumbra bastante do poeta menor Manuel Bandeira e da interpretação dele produzida por Davi Arrigucci Jr.: o estilo humilde obtido em Coworking e outros poemas permite admirar profundidades no que é simples, e nos versos inéditos a reescritura de tradições de rodapés. Localizável ainda no novo lançamento, no trajeto do autor e nos seus pavões complexos, a influência de Francisco Alvim. Pelo menos é o que vejo, sentado no escritório daqui de casa, com o corpo imóvel, olhando para a estante, o lago, a montanha, e borrando o horizonte da lembrança.
No entanto, se retorno ao livro, retorno como quem encontra um ponto onde há o risco de naufragar essa dicção materialista tão atraída pelo prosaico tirado das notícias dos jornais. Há uma dobradiça que range e emperra o previsível. Está visto que o poeta elabora uma literatura sem auréola, círculo dourado perdido desde pelo menos Charles Baudelaire. Simultaneamente, Coworking e outros poemas leva em sua mochila livros sagrados feito o Eclesiastes, a exemplo do que nota em Tempo de colher. Nesse sentido, Hipótese anuncia:
Há uma palavra
que circula
clandestina
pelo miolo do livro
Quase se esgueira
entre as páginas
Uma palavra
que se articula
mas se coagula
Seu eco percorre
as mãos, os dentes
uma tarde qualquer
entre palmeiras
[…]
Fagulhas de revelação
A palavra não dita — mas que flerta com a revelação, com o alumbramento bandeiriano — transita por Hipótese e pela obra um tanto física de Heitor Ferraz Mello. São constantes as referências ao corpo, termo que se repete nos poemas O homem sem pele, O corpo escrito, Diálogos, Árvore do tempo, Homem dormindo, Cativo, Vila Formosa, Heranças, além de alusões a mãos, dedos, pés, sífilis, espancamentos. O poeta tem ainda afinidades com objetos, em especial os cigarros. E fica vigilante ao trânsito aéreo da fumaça que talvez se revele onde quer.
Apreciar essa tensão entre o comum das cinzas e o espanto com o percurso do sopro do cigarro é, quem sabe, um modo de começar a ler Heitor Ferraz Mello. Nele, imediato e imprevisível se acumulam na arcada dentária das estrofes. Se às vezes tudo parece a experiência diluída do dia a dia, aqui e ali o corpo do poema procura um ponto de fuga, um lugar onde resguardar “fagulha de revelação que pode surgir da fruição estética”, como ilumina Renan Nuernberger na orelha da obra. O livro Coworking e outros poemas (cujo termo em inglês remete a espaços de trabalho compartilhado) divide os seus cômodos em quatro seções: Coworking, Hóspedes invisíveis, Medir o mundo e Uma enquete. E o sujeito lírico esfarelado, assinalado por um sentimento do transitório, trisca mínimos estranhamentos e, no seu último texto, Como eu escrevo, fratura as páginas ao dizer:
Cada poema é provisório
As folhas soltas andam pela casa
Podem aparecer espalhadas no chão
para que eu veja melhor parte do conjunto
ou reunidas numa prancheta
que fica ao lado do computador
E nas brechas de um trabalho
e de outro (…)
Os poemas vão se esfacelando
eu mesmo me esfarelo
Quem sabe amanhã acordo disposto a
Quem sabe amanhã acordo
Quem sabe amanhã
Quem sabe
Quem?