Como se forma uma artista

Sexto livro de Patti Smith publicado no Brasil, "Pão dos anjos" investe em relatos sobre infância, família e bastidores da criação artística
Patti Smith, autora de “Pão dos anjos”. Foto: Bob Wolfenson
01/11/2026

Ser uma escritora é a coisa mais importante para Patti Smith, segundo relatou em entrevista à revista Quatro Cinco Um, em março de 2026. Isso porque a conclusão de Pão dos anjos reafirmou seu prazer por escrever, quase mais do que cantar, gravar, fazer shows. A afirmação não surpreende, já que toda a obra musical de Smith tem uma ligação estreita com a literatura.

A artista vai completar 80 anos em dezembro e carrega consigo nessa trajetória, além de inúmeros discos, livros de poesia, como Babel, de 1978, e Auguries of Innocence, de 2005, e outros seis bastante autobiográficos, incluindo o sucesso Só garotos, vencedor do National Book Award, em 2010, na categoria não ficção, livro de memórias sobre sua história com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, que morreu em 1989.

Patti Smith gosta de dividir reminiscências com o público. Pão dos anjos (2026) vem na sequência de Um livro dos dias, compilado de 2023 que reúne fotos e legendas publicadas em seu perfil no Instagram. Ativa na rede social desde 2018, ela usa o espaço para compartilhar imagens de sua rotina e inspirações, no que se tornou uma memória viva de sua história. Mas o novo livro segue o estilo de outras obras anteriores, como o próprio Só garotos e o encantador Linha M, no formato de relato pessoal.

Temas como o luto, seus amores e a adoração aos ídolos da contracultura, como os poetas da geração beat, se repetem com relação às demais obras. No entanto, talvez Smith nunca tenha revelado tanto sobre sua vida familiar, decisões profissionais, bastidores da criação e, acima de tudo, sobre como a arte foi capaz de resgatá-la da tristeza e devolvê-la ao trabalho e ao público.

Memórias de infância
Smith dedica grande parte do novo livro a memórias de infância, o que nos dá a oportunidade de acessar um pouco da mente de uma criança-artista, inventiva e rebelde. A primeira parte da obra, denominada A idade da razão — resumidamente, uma referência à fase em que crianças começam a perceber o mundo a seu redor —, é sobre a influência que essas memórias mantêm ao longo de toda a vida adulta.

Com uma infância bastante humilde, a artista viveu mudanças constantes de casa com a família, que enfrentava dificuldades financeiras na Filadélfia e ainda mantinha preocupação com sua saúde frágil, em razão de doenças como broncopneumonia, tuberculose, rubéola, caxumba e catapora. Patti também era uma criança que, apesar da relação imperfeita com a mãe, era vista e incentivada na sua capacidade imaginativa. Ambas compartilhavam o amor pelos livros, capaz de aliviar os conflitos desse vínculo. Nessa época, Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, era seu favorito, o que faz muito sentido se lembrarmos de objetos e animais falantes presentes em livros da própria Patti, do tom de fábula que consegue adicionar às suas histórias. Por exemplo, há um episódio em Pão dos anjos em que ela passeia completamente sozinha pela mata e acaba encontrando — e conversando — com uma tartaruga.

Embora a doença fosse uma companheira constante, eu não me identificava com os acamados dos livros. Mary Lennox, de O jardim secreto, era o meu modelo, uma órfã briguenta que sobreviveu ao cólera que vitimou sua família e ainda incentivou o filho do tutor, que vivia em uma cadeira de rodas, a andar. Descobri que Robert Louis Stevenson e L. Frank Baum haviam ficado acamados na infância e saíram vencedores, fortalecidos pelo poder de sua imaginação monstruosamente bela.

Outro marco dessa fase de desenvolvimento de Patti Smith são seus dilemas morais. Culpa, gratidão e ressentimento são sentimentos que convivem pouco harmoniosamente no coração da artista. O livro traz histórias de conflitos íntimos em seus primeiros anos de vida, e fica claro como alguns desses problemas foram carregados por décadas. Ela também analisa a relação com os irmãos, Toddy, Linda e Kimberly, para quem representava um tipo de heroína.

Ao longo de onze capítulos, a autora intercala textos de memória e fotos ilustrativas, como é comum em outros livros. São imagens produzidas por ela mesma, por seu marido Fred “Sonic” Smith, por Annie Leibovitz, Linda Smith Bianucci, Frank Stefanko, entre outros. Essas fotografias nos conduzem até a atmosfera do seu passado, da juventude como artista e do ambiente familiar.

Arte e perdas
No livro, é possível acompanhar o contexto de criação de Horses, seu álbum clássico, de 1975. Em meio à poesia, ao punk e às experiências no Chelsea Hotel — local histórico de Nova York que abrigou diversos artistas, especialmente nas décadas de 1960 e 1970 —, ela nos relata sua devoção a Arthur Rimbaud, Bob Dylan e tantos outros que a ajudaram a se construir como cantora, compositora e poeta.

A artista viveu lutos bastante significativos durante toda a vida, seja de amigos, familiares ou amores, que aparecem na maior parte de seus livros. Em Pão dos anjos, porém, conhecemos um pouco mais sobre esses lutos e, principalmente, sobre as pessoas que a ajudaram a se fortalecer. Patti conta, por exemplo, sobre a grande rede de amigos que se aproximou para oferecer apoio após a morte de seu parceiro Fred “Sonic” Smith, em 1994. Para além da história de um drama familiar, compreendemos ali como a dor da morte de alguém amado também pode ameaçar a produção artística e como é possível seguir em frente.

Fred era durão, mas delicado. O boxeador, o revolucionário, o jogador de beisebol, o piloto. Era um homem atormentado, mas nunca consegui penetrar de verdade a natureza desses tormentos. Como alguém que voltara da guerra e nunca falava de suas experiências, mas as carregava como um casaco pesado em todas as estações. Só que Fred não havia ido à guerra. A guerra ocorria dentro dele mesmo.

Detalhes sobre as turnês, as composições, o diálogo com outros artistas em busca de inspiração são informações valiosas para os fãs da cantora. Ver a autora rememorar desde seus períodos ainda em busca da fama, lutando para fazer dinheiro com arte, até ter seu trabalho conhecido ajuda a entender o valor que ela dá à arte de modo geral.

Estamos neste tabuleiro de xadrez chamado Terra, tentamos fazer nossos movimentos, mas às vezes parece que a mão enorme de um gigante indiferente nos lança ao acaso numa trajetória de tropeços. O que fazer? Recuamos, buscamos dentro de nós o que precisa ser feito e nos adequamos da melhor forma possível.

Todos os livros de Patti Smith são confessionais. Porém, Pão dos anjos ainda toca mais profundamente em questões familiares e em decisões profissionais. A vida familiar ganha mais detalhes ainda com a revelação de uma história pouco contada: uma investigação particular sobre sua árvore genealógica. Esses trechos demonstram a dedicação constante em entender as pessoas que a cercam para buscar, no fundo, compreender a si mesma. A leitura de sua obra como um todo é uma boa recomendação para pensarmos sobre o papel transformador da arte e dos encontros.

Pão dos anjos
Patti Smith
Trad.: Camila von Holdefer
Companhia das Letras
272 págs.
Patti Smith
Nasceu em 1946, em Chicago (EUA). Ganhou reconhecimento nos anos 1970 por sua fusão revolucionária de poesia com rock, e seu disco Horses, de 1975, é considerado um dos álbuns mais influentes da história. Além da carreira musical, publicou volumes de poesia, como Babel (1978) e Auguries of innocence (2005). Dela, a Companhia das Letras publicou Só garotos, vencedor do National Book Award, além de Linha M, Devoção, O ano do macaco, Um livro dos dias e Pão dos anjos.
Gisele Barão

É jornalista

Rascunho