Sempre que abre um livro, o leitor já o faz predisposto a acreditar em tudo o que lerá: ninguém se aventura num romance, por exemplo, só pelo prazer de ficar horas duvidando do que tem à frente. Uma estranheza pode advir já na primeira frase, como no célebre início de A metamorfose de Kafka: “Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Uma vez passado o susto, avaliada ou não a possibilidade de tal situação acontecer no plano real, abre-se a porta da fantasia e nosso crédulo leitor acaba por aceitar o impossível como verdade absoluta, e junto com ele todo o resto que lhe for apresentado até o desfecho da história. Comerá todos os pratos que lhe forem servidos, sem questionar seus ingredientes nem pedir para conhecer a cozinha, estalando a língua de prazer ao final do banquete.
É de se esperar que personagens mintam, traiam, trapaceiem, dissimulem, tudo isso faz parte de sua humanidade, e sem ela não existe literatura. Quando um narrador possui tais características, contudo, ele deixa de ser confiável, ao mesmo tempo em que se torna um dos mais ardilosos e interessantes da literatura de ficção. Jogar com a credulidade intrínseca do leitor pode ser um exercício fascinante, e é, mas também um dos mais perigosos. Uma vez que o leitor perceba que alguém o faz de tolo — e essa é uma situação algo comum de acontecer em certos tipos de literatura, notadamente a policial e a de suspense —, ele chispa da raia, e adeus confiança. Noutras palavras, ao leitor não importa ser ludibriado, e ele até gosta de algo que faz parte do jogo dessa maravilhosa fantasia, desde que a enganação seja muito boa ou faça muito sentido.
Trilogia dos gêmeos
Inevitável pensar na não-confiabilidade de um narrador depois de vencidos os três volumes da estupenda Trilogia dos gêmeos, também conhecida como Trilogia da cidade de K. ou Trilogia do caderno, obra-prima da húngara naturalizada suíça Ágota Kristof, com ótima tradução de Diego Grando. Três romances curtos, desses que se leem muito rápido, pois não lhes faltam ação, e que seduzem de pronto o leitor, são suficientes para compor uma obra monumental, que muito deve de sua originalidade e beleza à eleição certeira das diversas vozes que se revezam para contar a história.
No primeiro livro, O grande caderno, um peculiaríssimo narrador em primeira pessoa no plural une e confunde as vozes de dois meninos gêmeos que, nos últimos e mais brutais meses da Segunda Guerra, num lugarejo inominado da Europa Oriental, possivelmente na Hungria, são entregues pela mãe à avó para que sejam cuidados até o fim do conflito, pois a capital onde vivem está sob fogo cerrado. A avó despreza a filha e seus rebentos, aceita as duas crianças de má vontade para em seguida sujeitá-los a toda sorte de provações. Os meninos, tratados pela avó por “filhos de uma cadela”, conseguem sobreviver às hostilidades a que são submetidos unindo-se de uma forma que transcende a condição natural de qualquer par de gêmeos ao praticar exercícios que os capacitem a vencer a dor, seja ela física ou moral; o ápice desse autoimposto treinamento é eliminar a que seria para eles a maior de todas as dores, aquela decorrente de sua própria separação. Os garotos são proibidos de frequentar a escola, mas têm muita vontade de ler e aprender. Carregam consigo um dicionário que herdaram do pai e que significa para eles um tesouro — na realidade, o único bem que lhes resta depois de a avó ter dado fim a todos os seus outros poucos pertences. Tudo o que querem é ter acesso aos livros, e estes são escassos numa comunidade depauperada pelos efeitos da guerra. Querem também registrar seu infortúnio e começam a escrever um misto de diário e relatos ficcionais no caderno que dá título ao romance.
Os capítulos são muito curtos, de duas ou três páginas. A linguagem, simples e direta, chega ao essencial sem se perder em sofisticações estilísticas, resultando numa dureza que não poupa o leitor e o fustiga tanto quanto a vida maltrata os personagens. Outra peculiaridade desse narrador é ser uma voz infantil, de duas crianças que tiveram de amadurecer a fórceps, algo que o discurso reflete à perfeição. Muita coisa acontece desde que os gêmeos chegam à casa da avó até o final dessa parte da história, anos depois da chegada. Num ambiente corrompido pelo sofrimento e a carestia, exercitando-se até às últimas consequências para resistir à dor, os dois meninos acabam por alcançar a amoralidade e um senso de justiça muito peculiar. Algumas situações beiram o surrealismo e podem chocar o leitor, menos pelas situações em si e mais pela naturalidade com que entram no discurso de duas crianças.
O doloroso processo de crescimento pelo qual passam os garotos ao longo dos anos sugere um romance de formação. Essa seria a aposta mais segura, não quisesse um narrador não-confiável embaralhar os passos do leitor no meio do caminho. A pergunta chega a ser óbvia: o quanto pode ser confiável um narrador infantil que tenha passado pelo trauma do abandono durante uma guerra? Soma-se a isso, o fato de o narrador ser duplo, pois o leitor não tem nunca certeza de quem está narrando o quê, e de eles se dedicarem a escrever — e reescrever — o tal caderno.
O resultado desse, digamos, imbróglio narrativo é o leitor chegar ao final do volume sem ter certeza sobre nada o que leu até ali, mas querendo muito descobrir a verdadeira história. Golpe de mestre de Ágota Kristof. Uma conclusão a que chega o leitor é a de que realidade e ficção não se mesclam apenas no caderno que os meninos escrevem e cujo conteúdo não se tem acesso, ou talvez se tenha: poderia o teor do livro ser o mesmo do caderno, com várias páginas passadas a limpo?
Outro aspecto interessante que não é claramente explicado: o vilarejo onde se passa a história fica muito próximo à fronteira com outro país, fortemente guardada nos tempos de guerra e uma ameaça à vida de quem tenta cruzá-la. O idioma falado no país vizinho é o mesmo usado por alguns militares que servem do lado de cá, o que sugere uma ocupação estrangeira, embora não se entenda o propósito. Os garotos, por sua curiosidade natural somada a um aguçado instinto de sobrevivência, aprendem muito rápido a língua dos forasteiros, e a existência dos dois idiomas será frequentemente referida no decorrer de toda a história, sempre a traçar uma bem definida linha divisória entre os dois povos.
A prova
Segundo livro da trilogia, A prova começa no exato ponto em que termina O grande caderno. Os gêmeos foram enfim separados e estão agora batizados: Lucas e Claus, não por acaso anagramas de um mesmo nome. O narrador duplo perde obviamente a razão de ser, e então entra em cena um outro narrador, agora em terceira pessoa, que mantém parte das características do antecessor, porém menos seco e agora um pouco mais adulto e cínico. A crueza da narrativa continua intacta em capítulos que ficam mais longos, assim como as frases. Várias histórias secundárias se somam à da separação, que responde pelo grande subtexto do segundo livro; ou talvez não sejam tão acessórias assim. O tema do incesto, por exemplo, que é tratado por dois interessantes prismas: o da menina molestada pelo pai depois que ele volta da guerra, e o do gêmeo que encontra a mãe na figura de uma bibliotecária viúva com a qual se relaciona. À primeira vista, o único ponto de contato entre os dois casos é eles terem o incesto como tema. Mas se olharmos com mais cuidado, há um outro elemento comum importante na equação: o efeito da guerra, que dilata os padrões da moral e da ética, levando-os a limites inimagináveis em tempos de paz.
Noutras palavras, essas e outras das várias histórias dessa segunda parte só fazem um mínimo de sentido porque o cenário continua sendo o de uma profunda disrupção social. Embora na cronologia do livro a Segunda Guerra já tenha terminado ainda no volume anterior, e com ela a ocupação nazista na Europa, a Hungria acabou atrás da Cortina de Ferro depois de findo o conflito, o que explica o cenário há pouco descrito. Saiu de um violento regime de exceção, que deportou para o extermínio milhares de judeus, para entrar em outro, patrocinado pelo socialismo soviético, numa das mais tristes páginas da História recente. Aliás, foi esse o motivo que levou Ágota e sua família, que não eram judeus, a fugir do país; na ficção, igual motivação teve László Tóth, judeu e protagonista do filme O brutalista, de Brady Corbet, que deu o Oscar de Melhor Ator a Adrien Brody neste ano. Num cenário de ocupação e traumas profundos não curados, não é difícil imaginar até que ponto pode chegar um escritor frustrado e alcoólatra que não suporta a vigilância cerrada da amantíssima irmã costureira — existe metáfora melhor para a opressão? —, ou o homem que não consegue dormir desde o assassinato da mulher pelo Partido que governa e controla tudo na vida de seus governados.
O desfecho
A terceira mentira não poderia ser um título mais apropriado ao livro que fecha a trilogia. De volta o narrador em primeira pessoa, ele agora se divide: cada gêmeo ganha sua própria voz. O livro se compõe de duas partes, uma dedicada a cada irmão. Nele enfim será revelado o grande mistério — leia-se, o grande conflito — da história. Um dos gêmeos tem por missão reencontrar o outro, de quem está separado há muitos anos. O leitor continua confuso sem saber quem é quem, ou melhor, quem foi quem e quem fez o quê. Fatos narrados no primeiro livro ganham agora uma terceira versão, depois de já terem sido reformados; aliás, desde o segundo livro a fluidez dos fatos é o grande obstáculo a ser vencido na busca do leitor pela verdade. Personagens que entraram em cena com uma identidade recebem outra, assim como uma nova função na trama.
A metáfora de um grande quebra-cabeça em que as peças mudam de forma e lugar num jogo em andamento não serve apenas ao modelo em que se estrutura a narrativa da Trilogia dos gêmeos, mas pode ser aplicada à criação literária como um todo. Há inclusive quem reconheça nesse jogo o subtexto comum aos três romances: a história que vai cambiando ao sabor da perspectiva de quem narra, e essa perspectiva também mutante por força de fatores exógenos, como o da guerra, ou psicológicos, como a excepcional conexão que sempre há entre os gêmeos. Ainda que seja metafórico, ao revelar as entranhas do processo, que em geral o escritor faz o todo o possível para esconder, Ágota se expõe de maneira surpreendente: toda sua experiência de vida está contida em seus três romances, embora levada por outros protagonistas. A seu modo, ela rende uma contundente homenagem à literatura.
Na segunda parte de A terceira mentira, tudo se arma para que a história ganhe enfim sua definitiva versão, que, pelo andar da carruagem, deverá ser muito diferente daquela que foi inicialmente apresentada. Esse movimento é construído num belíssimo crescendo, que deixa o leitor completamente entregue à história e cada vez mais ávido por conhecer seu desfecho. Este vem na forma de uma frase de raro efeito, daquelas que ficam ecoando dias em sua cabeça depois de fechado o livro.
Um soco na boca do estômago, e a certeza de que se leu algumas das mais impressionantes páginas da literatura da segunda metade do século 20.
A analfabeta
Um curiosíssimo volume de singelas 56 páginas, com o não menos curioso título de A analfabeta, contém a autobiografia de Ágota Kristof. Nela, uma jovem húngara, que sempre viveu cercada de livros e para quem a literatura era a coisa mais importante da vida, é forçada a aprender o idioma russo, que Stálin impõe como forma de apagar a herança cultural do povo que subjuga, e acaba refugiada com o marido e a filha na Suíça, trabalhando numa fábrica de relógios e tendo de usar uma terceira língua para sobreviver. Já falando o francês, volta à escola para aprender a escrever nesse idioma, com o qual escreveu toda sua obra e que nunca sentiu realmente dominar, daí o título do livro. Trata-se de uma história única e muito sofrida que Ágota relata com leveza e uma finíssima ironia. Um exercício que Amós Oz nos ensinou a não fazer, mas a exceção aqui se justifica plenamente, é reconhecer o quanto da experiência pessoal da autora está contida na Trilogia dos gêmeos.