O algoritmo WATT — uma invenção de Keichi Maruyama, em homenagem ao romance de Beckett — é uma ferramenta avançada de inteligência artificial. Processando “grandes volumes de interação verbal” (em texto, voz ou imagem), o algoritmo é testado nas equipes de telemarketing de uma empresa. Depois, é usado para analisar “a totalidade da companhia”: tendências de mercado, concorrentes, consumidores, finanças, rotinas de trabalho. Algoritmo e companhia se fundem em uma única entidade. O resultado dessa fusão é um relatório poético-corporativo, com metas, gráficos e tabelas surreais. Assim é o conto Plano de transformação da companhia, uma espécie de paródia lírica, um dos melhores textos de Atemoia, de Keichi Maruyama.
O livro venceu o Prêmio Cepe Nacional de Literatura, na categoria conto. A amarração da coletânea, entretanto — baseada nos andares de um edifício comercial, com a história do prédio e seus personagens —, lembra um romance experimental. O livro se estrutura com a unidade de um mostruário, explorando a diversidade de discursos: há histórias em forma de monólogo, de entrevista, de apresentação de slides, de manual de instruções.
Nos contos do 12º e do 27º andar, descobrimos o algoritmo WATT. Trata-se de uma entidade criativa: as “alucinações” — escreve Maruyama — surgem do poder criativo da computação. Tal criatividade é uma aventura, uma renovação. “Seria uma lástima dispensá-la”, lemos no conto. Como “meros espectadores dessa tecnologia”, nós (a humanidade?) observamos a inteligência artificial em sua caminhada, em direção a excêntricos resultados.
Entre máquinas e livros
Sentem-se, em todos os contos do livro, as vozes homenageadas através de referências: os autores experimentais Samuel Beckett e W. G. Sebald. Alguns diálogos têm a mesma música de Beckett. E, num epílogo revelador, o dispositivo do livro é apresentado de forma elegante: vemos fotos da mão (do autor?) segurando o livro Os anéis de Saturno, de Sebald, diante das mesmas paisagens reproduzidas pelo alemão. Sugere-se que o narrador, ao seguir seu autor-modelo no mundo físico, percorrendo a mesma trajetória, segue-o também na proposta estética, escrevendo a seu modo.
O título do livro, nesse mundo desencantado, pode indicar uma alegoria: atemoia, a fruta, é “uma criação de cientistas americanos”, um híbrido de fruta-do-conde com outra espécie andina. Foi plantada por engano no jardim dos fundos do edifício comercial. E ficou lá: “um erro que germina não pode ser ignorado”. A atemoia é um produto da ciência, que visa ao lucro, e chega a ser “mais doce e cremosa” que as frutas naturais. Assim como o algoritmo pode ser mais poético que os empregados corporativos. Aos personagens humanos do livro, de comportamento padronizado pela máquina empresarial, os sonhos e aspirações não caem bem: trazem apenas desconforto, tornando-os inadequados.
Virtuosismo e frustração
Composto com técnica, Atemoia demonstra um autor seduzido pela máquina literária: aposta-se na intertextualidade, nas cifras, nos enigmas. A obra deixa, porém, uma leve frustração ao leitor atraído pela sinopse. As histórias são apresentadas como um caleidoscópio do “universo do trabalho corporativo”, promessa reforçada pela biografia do autor, onde lemos que Maruyama atuou no mercado financeiro e na consultoria empresarial. Por essas informações, o leitor talvez espere encontrar, no livro, algo mais revelador sobre o universo retratado — uma visão “por dentro” do mundo corporativo, em suas tramas e contradições (afinal, se as corporações controlam nosso mundo, seria inadiável conhecê-las).
Essa curiosidade não é saciada pela obra. O livro não propõe um retrato em profundidade das dinâmicas desse universo. Muitos personagens são, propositadamente, caracterizados de forma rasa, meio ridícula. Indivíduos isolados, com processos mentais grandiosos e interações humanas superficiais. Esse ambiente espera a renovação do algoritmo WATT — “Afinal, ao povoar de aventura qualquer encargo de trabalho, não traria tal técnica uma esperada renovação aos nossos tênues anseios laborais?”. Em termos literários, trata-se de uma estreia cheia de virtuosismo. Quanto à matéria narrada, faria bem um pouco mais de carne e menos automação.