A negação como método

Nas memórias de Beatriz Sarlo, a recusa em compreender de imediato se revela motor de uma vida dedicada à crítica e à autonomia
Beatriz Sarlo, autora de “Não entender: memórias de uma intelectual”
01/11/2026

“O passado é sempre conflituoso”, escreveu Beatriz Sarlo em Tempo passado, publicado na Argentina em 2005. “Além de toda decisão pública ou privada, além da justiça e da responsabilidade, há algo inabordável no passado”, frisava a autora. E, mesmo se reprimido, “ele continua ali, longe e perto, espreitando o presente como a lembrança que irrompe no momento em que menos se espera ou como a nuvem insidiosa que ronda o fato do qual não se quer ou não se pode lembrar”.

Mas é preciso situar o problema. Em Tempo passado, Sarlo, uma das mais respeitadas vozes críticas da América Latina, intervinha no debate sobre a história recente de países marcados pelo trauma da ditadura, como a própria Argentina (e o Brasil, o Chile, o Uruguai…). A polêmica se armava em razão da inegável importância assumida pelas formas do testemunho nas tentativas de rememoração desse passado traumático. Conduzido em primeira pessoa, o testemunho era a cifra da guinada subjetiva examinada por Sarlo: ele operava não só como instrumento jurídico e peça central nos processos da transição democrática, mas também como condutor das narrações (entrevistas, diários, autobiografias etc.) que, alimentando o mercado de bens simbólicos, ancoravam na verdade subjetiva a reconstituição das décadas de 1960 e 1970.

Obviamente, para Beatriz Sarlo não se tratava de reagir aos usos jurídicos e morais do testemunho, sem os quais não seria possível a condenação do terrorismo de Estado. O que se considerava, sim, era a problemática relação da primeira pessoa do testemunho com a “época de forte subjetividade” na qual vivemos, escrevia a autora, com prerrogativas baseadas “na visibilidade que ‘o pessoal’ adquiriu”, como lugar de intimidade e de manifestação pública, sobretudo “nesse território de hegemonia simbólica que são os meios audiovisuais”. Diante da proliferação dos relatos dedicados a esse passado recente, Sarlo argumentava: “Se há três ou quatro décadas o ‘eu’ despertava suspeitas, hoje nele se reconhecem privilégios que seria interessante examinar”.

Contra e com
Guardada a especificidade da questão abordada em 2005, compreende-se a hesitação da autora ao escrever aquele que seria, por assim dizer, o testemunho de uma vida dedicada à reflexão crítica. Não entender: memórias de uma intelectual foi concluído em abril de 2024, ano do falecimento de Sarlo, e publicado em 2025. “Sempre resisti à primeira pessoa autobiográfica, que mesmo no meu livro Viagens está diluída entre uma terceira e uma primeira, mas do plural, um eles e um nós com os quais se entrelaça”, escreve ela, enfatizando o aspecto político de suas posições. Por isso, seu “reflexo de cautela” diante do uso da primeira pessoa: “Quem sou eu para dizer ‘eu’?”, questiona.

Esse aspecto enfrentado, explícito já na escolha do pronome que, daí em diante, desloca todos os verbos e confere às palavras um sentido que, de outro modo, não teriam — “aquele homem é meu pai, aquele jardim é o da minha casa”, precisa a autora —, enfim, esse aspecto tenso pode ser considerado uma espécie de princípio operatório do trabalho intelectual de Beatriz Sarlo. É como se seu percurso crítico, movendo-se entre a política, a literatura e a análise cultural, respondesse ao chamado de uma força disjuntiva, que faz a intelectual colocar-se, ao mesmo tempo, contra e com os fenômenos que a interpelam. Não entender: eis, afinal, a proposição negativa que condensa suas lembranças, aliás reforçada nas primeiras frases do livro. “Não é um livro de memórias. É um livro de memórias”, lemos de saída.

Não ser e simultaneamente ser — estar contra e com — é o modo como Beatriz Sarlo conduz seu rigoroso trabalho intelectual. Um trabalho que se projeta, portanto, em direção ao outro, ao desconhecido, ao não compreendido que surge, então, como motor e motivo de todo desejo: de identificação, de conhecimento, de compreensão. Um trabalho que, além disso, coloca-se sob o signo da modernidade e de alguns de seus críticos mais agudos, que formaram Beatriz Sarlo como uma leitora exigente e voraz em sua atividade, sempre situada entre a fidelidade e a infidelidade aos próprios mestres. Daí que entre suas referências estejam reunidos autores muito heterogêneos, como Marx, Gramsci, Benjamin, Althusser, Barthes, Foucault, Viñas, Williams (etc.), e que, em seu percurso, Sarlo tenha se deslocado, em termos políticos, entre o peronismo, o marxismo-leninismo, o maoísmo e a social-democracia.

Entre os rebeldes
A negação constitui, assim, uma espécie de método. É pela via do atrito — a contrapelo, diria Benjamin — que Sarlo abre caminho. Nesse sentido, negar é uma maneira de afirmar, de avançar, do mesmo modo como, para as vanguardas, destruir era parte de um princípio construtivo, de desvelamento dialético do futuro. No balanço de suas memórias, poderíamos dizer que, para Sarlo, a negativa encaminha uma forma de vida, sendo indissociável dos seus posicionamentos ideológicos, dos seus ensaios, artigos e livros, do seu trabalho como editora, da sua atividade docente, ou seja, daquilo que poderíamos designar aqui como ética.

Não entender é repleto de formulações que modulam esse princípio. Com a recorrência, o efeito é que a negação se torna, de fato, a maior constante nas memórias da autora. “O que me atraía era a resistência do sentido, não sua abertura”. Ou ainda: “era mais excitante destruir obstáculos do que não os encontrar”. Com 11 anos, eis sua postura: “Não obedecia a ordens nem respeitava hierarquias familiares, mas reverenciava qualquer um que me mostrasse, ainda que falsamente, que era sábio. Na escola, repeti essa conduta bipolar: obediente e desobediente, numa síntese de opostos irredutíveis segundo a lei”. E em uma passagem que vale como síntese de um projeto de vida:

Todos os que precisavam cuidar de mim diziam: ‘Você diz não automaticamente’. De fato, a negativa, que era minha reação espontânea a qualquer ordem, sugestão ou oferta […], dava legitimidade aos meus reflexos. Eu não era desobediente, era uma opositora espontânea. A negativa não seria mais julgada como capricho; passava a ser respeitável, pela razão ou pela consequência do ato de negar. Esse argumento, que eu não estava em condições de expor, se sustentava em uma intuição: negar me punha ao lado dos rebeldes, que sempre eram melhores do que os submissos.

Ao comentar a atração que sentia pelos valores do desvio e da contradição, Sarlo afirma: “A força simbólica dos objetos e dos acontecimentos residia sempre, segundo uma visão elementar mas persistente, em se opor àquilo a que haviam sido destinados. Meus objetos eróticos eram oposicionais”. Uma visão que é transposta para as expressões da arte na modernidade, como conjunto de incompatibilidades coexistentes. “Minha relação com a poesia foi feita dessas incompreensões […]. Somente pela existência dessas incompreensões eu poderia chegar a me interessar pela explicação. Sem enigma […] eu não estava disposta a seguir em frente”. Daí a negação afirmar-se, em suma, decisivamente: “Não entender foi minha primeira e definitiva experiência”, diz Sarlo. “Comecei não entendendo e, quase de imediato, aceitei que esse era o ponto de passagem para tudo que valia a pena. […] A arte é negatividade, não afirmação plena. Mesmo quando afirma, faz isso exibindo um conflito”.

Invenção de si
O sentido do passado não reside nos fatos brutos e manifestos. Tentar alinhá-lo como se dispuséssemos as contas de um rosário é ceder às apaziguadoras ilusões sobre o avanço da história e a completude da experiência, que rumariam, naturalmente, para o seu melhor desfecho. Sarlo, sensível intérprete de Benjamin, compreendeu bem a importância da objeção à ideologia do progresso. E tomou-a para si. Não linear e intempestivo, Não entender cumpre, a seu modo, o programa benjaminiano, situando-o especialmente na realidade argentina.

Com sua elaboração a posteriori, o livro reforça a figura da intelectual moderna: fascinada pela cidade, pela arquitetura, pela vanguarda, pelo jazz, pela política, pela reprodutibilidade técnica e seus clichês, pela indústria cultural e suas mídias. Sobretudo, reforça o desejo de autonomia — ou de saída da menoridade, por meio do uso público do seu próprio entendimento, nos termos de Kant — reivindicado pela autora para a contínua invenção de si mesma. “Entre meus projetos não estava reformar a instituição familiar, tal como eu a conhecia, mas me emancipar dela”, anota Sarlo. “Meu objetivo era a autonomia total, não a reforma de alguns costumes ou a obtenção de algumas permissões”. Ao que parece, as apostas mais importantes são feitas já na infância.

Não entender: memórias de uma intelectual
Beatriz Sarlo
Trad.: Elisa Menezes
Companhia das Letras
216 págs.
Beatriz Sarlo
Nasceu em Buenos Aires (Argentina), em 1942. Foi ensaísta, crítica literária, intelectual pública e professora da Universidade de Buenos Aires. Foi cofundadora da revista Punto de Vista, um veículo de resistência durante a ditadura militar. Publicou obras fundamentais sobre cultura, literatura e política, como Tempo presente, A cidade vista, Jorge Luis Borges, um escritor na periferia, Cenas da vida pós-moderna e Paisagens imaginárias. Morreu em 2024.
Artur de Vargas Giorgi

Professor de Teoria Literária da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). É autor de Sobre arte e vida em comum (ensaios breves) (EdUFSC, 2026).

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