A era da turbulência

Um retrato do jornalismo cultural brasileiro contemporâneo
Foto: Babi Borghese
01/10/2014

Por Anderson Ribeiro (Brasília – DF), José Castello (Curitiba – PR), Ludmila Ribeiro (Belo Horizonte – MG), Marcelle Souza (São Paulo – SP), Fábio Farias (Natal – RN) e Guilherme Magalhães (São Paulo – SP)

Nos últimos tempos, importantes publicações culturais, como o suplemento Sabático, de O Estado de S. Paulo, e a revista Bravo!, desapareceram. Os cadernos culturais, em todo o país, diminuem suas páginas. A cultura tem cada vez menos espaço na mídia. O jornalismo cultural está desaparecendo? A revolução tecnológica trazida pela internet — que dispersa, acelera e fraciona as informações — traz, como efeito inevitável, o fim do pensamento crítico? Ela significa, ainda, a morte do jornalismo impresso? Muitas perguntas assombram hoje o mundo do jornalismo cultural e, de resto, de todo o jornalismo. A maior parte delas, em vez de conduzir a respostas, leva a novas perguntas. Jornalistas e leitores já não sabem o que pensar. O que, afinal, está acontecendo?

“O jornalismo cultural está na corrente sanguínea da própria cultura”, diz Fabrício Marques, membro do conselho editorial do Suplemento Literário de Minas Gerais. Ele recorda o pensador francês Pierre Bourdieu, para quem o jornalismo cultural não é só jornalismo, mas faz parte do campo mais vasto da cultura. Quanto ao jornalismo, é taxativo: “O que está em crise não é o jornalismo, mas a forma como ele está sendo feito”. Há, de fato, um sentimento de cansaço e de esgotamento, expresso — nos diz Sérgio de Sá, chefe do departamento de jornalismo da Universidade de Brasília (UnB) — na “percepção de que o jornalismo cultural continua sendo feito apenas baseado na agenda da indústria”. O jornalismo cultural teria se tornado refém do mercado. Essa prisão anunciaria o seu fim, ou sua decadência. Será isso mesmo?

O próprio Sá não acredita que estamos vivendo uma ruptura conceitual. “A diferença é a velocidade, que se transforma em pressa”, diz. Não crê, também, que o jornalismo impresso vá desaparecer. “Ele não vai desaparecer tão cedo. Não enquanto o impresso significa a expressão de uma verdade palpável que a tela ainda não conquistou por conta de sua volatilidade.” Esses parecem ser os grandes problemas do jornalismo virtual: a pressa, a inconstância, a dispersão. O caráter volátil. E, em consequência, nos lembra ainda o crítico Manoel da Costa Pinto, a precária autoridade que o caracteriza. “A velocidade é refratária à essência do jornalismo”, acrescenta Fabrício Marques.

Que essência seria essa? É Costa Pinto quem explica: a grande dicotomia hoje não se dá entre o papel e o digital, mas entre os velhos veículos, digitais ou não, que transmitem confiabilidade, e os novos veículos, que dela carecem. Na internet, aumenta a qualidade. Mas, pela ausência de filtros, a qualidade cai. “O que são esses filtros? Você tem alguém que pauta, alguém que escreve, alguém que avalia. Você tem uma série de instâncias de discussão e de pensamento”, ele enumera. Na internet, essas instâncias de filtragem e qualidade se evaporam. E o resultado, em significativa parte dos casos, se torna menos digno de confiança.

Liberdade
Também a estrutura hierárquica das redações, que refina a qualidade dos textos, declina. Hoje, qualquer um pode abrir um site e publicar o que desejar. A internet aceita qualquer coisa. Ainda assim, há os que, como Tácito Costa, editor do site literário Substantivo Plural, vê o futuro do jornalismo impresso com um olhar positivo. “Na minha visão, vai acontecer com o jornalismo o que aconteceu com a indústria fonográfica e o que está acontecendo com o mercado de livros”, diz. “O modelo vai ser substituído pelo jornalismo virtual”. Ele reconhece que na internet a autoridade do jornalista se esvai. “Antes só o jornalista tinha essa voz autorizada”, argumenta. “Hoje qualquer um pode montar um blog, apurar suas matérias e ser jornalista”. O editor vê essa transformação, porém, como “um benefício e um avanço”, já que mais pessoas passaram a ter voz. Para ele, a liberdade propiciada pela era digital não tem preço. Ele mesmo, quando jovem repórter, jamais imaginaria que, no futuro, teria — como hoje tem — um veículo de jornalismo apenas seu.

Ainda assim, persiste a impressão de que o jornalismo impresso, pelo menos por enquanto, não acabará. “Eu acho que o jornalismo impresso vai sobreviver enquanto as mídias digitais forem mais frágeis do ponto de vista das interfaces”, diz Giselle Beiguelman, da revista SeLecT. Hoje, ela nos lembra, o design da interface digital é desconfortável, envolve uma grande variedade de equipamentos — carregadores, tomadas, fios — “enquanto o jornal você abre e já está usando”. Mas essas limitações técnicas, que afetam o conforto da leitura, são uma restrição transitória. Com o avançar tecnológico, pensa Giselle, o próprio conteúdo do jornalismo irá se transformar, porque a internet permite o uso de uma série de recursos simultâneos que não são possíveis no impresso.

Capacidade crítica
Aqui chegamos a uma questão crucial: as transformações que agitam o jornalismo cultural atingem também sua capacidade crítica? Essas mudanças se dão a favor ou contra o pensamento? Para Giselle, mesmo nos novos tempos, o jornalista continua a “funcionar como um filtro capaz de balancear quais são as frequências mais relevantes da contemporaneidade”. Essa filtragem sempre lhe caberá. No papel ou na tela — não importa o suporte — o jornalismo cultural continuará a funcionar como um filtro da realidade.

Para o jornalismo cultural, as consequências de tantas mudanças são múltiplas e contraditórias. “Talvez o jornalismo tenha caído mais na patrulha do senso comum. Ele é sintoma de sua época”, avalia Sérgio de Sá. “Precisamos torcer para que o pensamento único não prevaleça, para que a crítica mantenha qualidade.” Ele reconhece que, com a expansão do jornalismo digital, há um “boom de opinião”, que não corresponde necessariamente a um pensamento crítico. Lembra, porém, que, para afiar nosso pensamento, a internet não nos dá apenas o urgente, o imediato, “mas também o insurgente e o divergente”. Espera Sá que essa disseminação acelerada de sites e blogs culturais conduza a um futuro “que seja plural, que nos convide à inquietação”.

Lembra o crítico literário Manoel da Costa Pinto do caso particular do mercado editorial — também ele agitado por aceleradas inovações. A disseminação dos eventos literários e a transformação do escritor em personagem pop, por exemplo, não correspondem necessariamente a uma expansão do pensamento crítico. “A gente vê uma pauta voltada mais para o evento do que para o livro.” No jornalismo cultural, ele pensa, surge uma situação mais complexa e “cheia de fios”. Na literatura, por exemplo, a reflexão crítica é substituída pela figura pública do escritor. Afirma-se o modelo do perfil literário, centrado menos na obra e mais no Eu. Esse jornalismo, avalia Costa Pinto, “oscila entre o perfil, a gracinha, a coisa curiosa, o fato bizarro e alguma coisa mais intelectualizada”. É, de fato, um cenário instável, no qual o crescimento, muitas vezes, se dá em paralelo com uma opção pelo brilho da personalidade e por seus efeitos de cena.

O editor
Há, sem dúvida, uma crise, mas — alerta-nos Fabrício Marques — não podemos esquecer que “a palavra crítica pressupõe crise, discutir a crise”. Sem crise não há crítica — logo, tudo depende de saber o que faremos com a crise que estamos vivendo. Para Marques, o grande problema no jornalismo praticado pela internet é a subestimação da figura do editor. “O editor é quase um avatar. Ele tem que ter uma bagagem cultural, conhecer tudo, estar conectado, ligado às novidades, ter um olhar para o passado” — uma lista interminável de atributos dele é exigida. Funciona como um maestro, que filtra, ordena e direciona o material jornalístico. Na internet, sua figura praticamente desaparece. Há uma espécie de voluntarismo — cada um faz o que quer. Se a liberdade aumenta, de outro lado há o grande risco da dispersão e da ausência de hierarquias. Falta, portanto, da edição. “Estamos no meio de um redemoinho”, diz Marques. “Vivemos uma revolução que podemos comparar à época de Gutemberg, quando ele inventou a prensa no século 15.” A turbulência — o redemoinho — pode ser criativa. Mas pode também conduzir a uma perigosa ausência de foco.

É o que teme Manoel da Costa Pinto quando fala do desprezo contemporâneo pelo pensamento e pela teoria. Por isso, essa expansão acelerada deve ser vista com cuidado. “Há hoje certo preconceito contra o pensamento crítico e o teórico”, avalia. “Certa aversão que se desenvolveu no nosso meio cultural a toda reflexão que seja um pouco mais densa, que invariavelmente é associada a uma coisa acadêmica.” Com a expansão do jornalismo digital, essa aversão tende a se expandir. A rapidez e a fluidez levam o jornalismo a priorizar a imagem, a notícia imediata e as personalidades em detrimento das ideias e do pensamento. Ele exemplifica: “De que adianta você falar que uma tela do pintor Mark Rothko custou 55 milhões num leilão, e você contar a história que ele bebia muito e era depressivo e seja lá o que for?”. De que adianta se, nesse cenário, a obra de Rothko fica em segundo plano, é esquecida, e seu pensamento crítico também? “Para você dizer por que ele é importante, vai ter que remontar uma série de coisas da história da arte e da estética que são complexas, e exigem um olhar teórico, que antes era abrangido pelo jornalismo cultural e que hoje não é mais.” A rapidez, nesse caso, se converte em superficialidade. A fluidez, em banalidade. São riscos graves, que o jornalismo cultural contemporâneo precisa enfrentar.

Novos caminhos
Apesar das turbulências, novos e irreversíveis caminhos se abrem para o futuro. “Por que pensar sempre que antes era melhor?”, pergunta Sérgio de Sá. “Por que considerar que algo superior ficou para trás?” Uma das dificuldades, talvez, seja aceitar o hibridismo da nova realidade cultural. Há uma grande mistura, uma grande miscigenação. “Acho que o caminho é esse hibridismo, é a hibridização dos gêneros”, completa Fabrício Marques. Neste cenário, ele acredita, o jornalismo cultural impresso continua a ser “o dispositivo para onde convergem todos os atores sociais”. Tácito Costa nos apresenta, aqui, uma ressalva: “não é a crítica que está em crise, mas o modelo engessado dos jornais”. A expansão do jornalismo digital traz, portanto, a necessidade de repensar modelos.

Se a dispersão é aflitiva, e pode também tirar o vigor do pensamento crítico, ela pode, igualmente, trazer vantagens. “Só vejo vantagens nisso”, diz Tácito Costa. “Esse número de portais aumenta as oportunidades de ficarmos mais bem informados.” Giselle Beiguelman acredita que a proliferação do jornalismo cultural na internet não ameaça as publicações impressas: “Eu prefiro achar que é uma visão ecológica, eles estão em diálogo e tensão permanente”. Opiniões e posturas contraditórias desenham um cenário em contínuo movimento. O que só pode ser um cenário criativo. Mais uma vez: a crise conduz à crítica.

Para Manoel da Costa Pinto, que é repórter e comentarista da TV Cultura de São Paulo, também as TVs abertas comerciais vivem um problema grave, já que elas precisam se proteger do “lixo cultural” e, em contrapartida, propor programações de qualidade, como fazem hoje os canais a cabo. Mas também não podem se despreocupar com os índices de audiência. Distingue: “A TV Cultura é uma TV pública, que tem um compromisso com a qualidade, mas não tem obsessão pela audiência”. Nesse sentido, pode talvez ajudar em uma reflexão sobre os novos tempos. Em resumo: os problemas que afetam hoje o jornalismo cultural atingem de maneira mais ampla toda a cultura. É a cultura que, em nosso século turbulento, entrou em crise definitiva. Como parte da cultura, o jornalismo cultural não poderia escapar. Agora resta aprender a se alimentar dessa crise. A fazer, da crise, pensamento crítico.

Endereços referenciais:
SeLecT
Substantivo Plural
Suplemento Literário de Minas Gerais (2005 em diante)

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