A delicadeza como força

Uma narrativa sobre o direito de experimentar, criar e ser diferente em um mundo que insiste em definir papéis
Chiara Mezzalama, autora de “Valentim de todas as cores”
01/11/2026

Naquela escola, os meninos jogavam futebol, eram habilidosos com a bola, achavam que era fácil manejá-la entre eles e direcioná-la ao gol, mas Valentim, não.

Aqueles mesmos meninos do futebol não usavam roupas coloridas, não falavam com as meninas, não podiam ser gentis entre eles e não tinham medo de brigar, mas Valentim, não.

Valentim de todas as cores, de Chiara Mezzalama e Reza Dalvand, chega às livrarias no começo de novembro. Valentim, como o título já sugere, é um menino sensível que vê e se relaciona com o mundo de uma maneira diferente da dos outros meninos da escola. Ele adora as cores e “cataloga” seus amigos por meio delas, de forma afetiva. Aline é vermelha; Lila e Marie são rosas e, para cada escolha de cor, Valentim tem uma justificativa, como se fosse uma linguagem secreta.

Sua mãe o percebe de longe e o incentiva a apurar seus talentos e sentidos. O pai de Valentim aparece pontualmente, sempre dando estrutura e apoio às decisões do filho ou acolhendo seus conflitos.

Tecidos e cores
Por conhecer a maneira como o filho olha o mundo, sua paixão pelas cores e seu gosto por se vestir de forma elegante, a mãe de Valentim o leva para um passeio em uma loja de tecidos, abarrotada de rolos do chão ao teto. Com todas as cores, estampas, tramas, texturas… um mundo que Valentim nem sonhava que existia: seda, veludo, algodão, crepe, tafetá, renda, lycra, batique, brocado. Era tanta informação: a cor, o toque, a textura, o caimento, a espessura. Valentim entendia aquela linguagem na ponta dos dedos e sabia como dialogar com ela. Pediu à mãe uma máquina de costura de aniversário, já imaginando tudo o que poderia criar com aqueles tecidos.

Os dias que se seguiram foram desastrosos. Intimado pelos meninos da escola a jogar futebol, sem coragem para recusar o convite, Valentim foi humilhado no pátio da escola. A humilhação desencadeou um ataque de fúria que o fez partir para a violência e rasgar a camiseta de Antônio. Advertido pela escola, só conseguiu chorar quando estava na enfermaria, cuidando dos machucados do jogo. Valentim não teve coragem de voltar à escola no dia seguinte. Embora ficasse dividido entre faltar e tudo o que tinha para aprender, resolveu costurar e não pensar mais nisso, pelo menos por enquanto.

Afetos e resistência
Ele acha os tecidos que comprou com a mãe e começa a fazer uma camiseta de arco-íris para seu amigo. O tempo passa sem que ele perceba; só para quando acaba. Desenha o molde, corta o tecido, mistura um tecido com outro, até que sua mãe chega do trabalho e ele percebe que estava faminto. Ao olhar o que tinha acontecido ali, sua mãe entende tudo, mesmo o que Valentim não conta. No dia seguinte, ele volta radiante para a escola.

Valentim de todas as cores fala dos estereótipos que ainda seguem ditando as regras na infância, mesmo nos tempos de hoje. A narrativa transita entre a vida de Valentim em casa e fora de casa. Com a família, ele vive em um lugar seguro, estruturado, onde é compreendido, acolhido e incentivado sem censura. A escola é o lugar do desafio, do incontrolável, fora do alcance da proteção que ele tem dos pais. Ainda é um lugar onde os meninos jogam futebol, se unem por uma atividade corporal em que não há diálogo, empatia e partilha. Meninos seguem não falando com meninas; o que eles vestem importa e os define. Valentim não se encaixa em nada disso e, neste conflito entre fora e dentro, refugia-se na arte como lugar seguro para traduzir tudo o que observa com atenção e delicadeza. Uma linguagem sensível, representada de forma sutil no diálogo entre a imagem e a escrita.

Valentim costura, une tecidos como quem une corpos em combinações impensadas, “sem briga, sem bola, sem meninas e meninos”, costura juntando tudo numa coisa só, da maneira como ele quer, enxerga e deseja o mundo. O livro é cheio de delicadezas, assim como as de Valentim.

Hoje, escrevo este texto com medo de que livros como este sejam muito em breve censurados e crianças como Valentim tenham seus direitos de expressão tolhidos quando precisamos que livros como estes se multipliquem cada vez mais.

Escrevo este texto antes de acontecer o segundo turno das eleições presidenciais e espero relê-lo publicado com o coração mais leve. Por dias melhores.

Valentim de todas as cores
Chiara Mezzalama e Reza Dalvand
Trad.: Sofia Mariutti
Boitatá
32 págs.
Chiara Mezzalama
Nasceu em Roma (Itália), em 1972. É escritora, psicoterapeuta e tradutora. Vive entre Paris e Roma e passou parte da infância no Irã durante a Revolução de 1979, experiência que marcou sua trajetória pessoal e literária. Sua obra reúne romances e livros para crianças. Le jardin du dedans-dehors recebeu o Prix Sorcières de 2018, e seu romance Dopo la pioggia foi apresentado ao Prêmio Strega de 2021.
Rita M. da Costa Aguiar

É editora de arte, especialista em livros para infância.

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