A busca dentro de casa

Em O irmão alemão, Chico Buarque parte de uma história verídica sobre um filho que seu pai teve na Alemanha
Ilustração: Chico Buarque Por José Luiz Tahan
04/10/2015

Quando se fala do escritor Francisco Buarque de Hollanda há sempre um sério risco de se cair na obviedade. Lembrar, por exemplo, de que se trata de um dos maiores nomes da música popular brasileira de todos os tempos, fama em grande parte devida à sua competência como letrista ¾ o que o põe naturalmente no caminho da literatura. Ou que ele, com cinco romances publicados desde a década de 1990, já conquistou um lugar destacado no mundo das letras nacionais. Um último exemplo: ressaltar que, por trás do compositor e do escritor, o artista é essencialmente o mesmo.

Como tudo o que Chico Buarque produz, sua obra literária vem despertando grande interesse do público e também da crítica. E nem é necessário muito esforço para isso, a própria notícia de um novo livro já o eleva automaticamente à condição de best-seller. Os inúmeros fãs estão sempre ávidos de trabalhos com sua assinatura. Aí mora seu maior desafio: como ir além e satisfazer, não só a quem já está predisposto a ser satisfeito por qualquer coisa que venha dele, mas ao leitor que não tenha essa predisposição toda. Os leitores talvez não sejam tão fiéis quanto os amantes da MPB, e talvez muito mais difíceis de ser contentados.

Os dois primeiros romances, Estorvo e Benjamim, embora bem urdidos e bem escritos, ainda não refletiam a genialidade do compositor. Mas, se não chegavam a impressionar, abriam paulatinamente o caminho para obras mais importantes. O processo de evolução desaguou num livro excepcional e prova de que o autor havia atingido a maioridade literária. José Saramago encerra uma resenha crítica do romance Budapeste para a Folha de S. Paulo, publicada em 14/09/03, com a seguinte e emblemática frase: “Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro”. Se alguém ainda supunha que o romancista não estivesse à altura do compositor, essa afirmação, partindo nada menos de um Nobel de Literatura, pôs uma pá de cal sobre qualquer dúvida.

Em Budapeste, sem ter nunca antes visitado a capital da Hungria, Chico Buarque usa como matéria ficcional o lado místico e impenetrável de um idioma que não compartilha suas raízes com nenhum outro e, por conseguinte, imprimindo essa mesma feição a toda cultura. A opção pela narrativa em primeira pessoa, que já aparece em Estorvo, não é casual e repete uma estratégia do inigualável letrista, a de vestir a pele de um personagem, pensando e agindo como se ele fosse. Também são característicos os parágrafos longos, sem diálogos diretos e chegando às vezes bem próximo ao fluxo de consciência. O ghost-writer que aterrissa acidentalmente em Budapeste está no centro de um jogo metafórico baseado na incomunicabilidade, talvez o tema-síntese da literatura de Chico Buarque.

Leite derramado, o livro seguinte, vem na contramão da maioria da produção literária brasileira contemporânea, que tenta reforçar a diversidade cultural fugindo da ideia de que exista um padrão único de identidade nacional. A história do homem centenário que, preso a uma cama de hospital, refaz sua vida desfiando num monólogo ininterrupto à filha, às enfermeiras e a quem estiver por perto, disposto ou não a ouvi-lo, reflete todo um século de história brasileira, com base no Rio de Janeiro, a eterna capital do país. A mescla de realidade e fantasia própria de quem já perdeu parte da lucidez conduz a narrativa e une situações à primeira vista inconciliáveis.

Susto alemão
De uma certa maneira, Budapeste e Leite derramado podem ser vistos como dois grandes ensaios para a execução de O irmão alemão, o mais recente romance de Chico Buarque. O argumento parte de uma passagem autobiográfica: entre 1929 e 1930, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, pai de Chico e solteiro à época, viveu em Berlim e teve uma aventura amorosa com uma jovem de nome Anne Ernst. Eram dias de efervescência na capital alemã, às vésperas da ascensão de Hitler ao poder. Sérgio atuava como jornalista e entrevistou várias personalidades como correspondente de O Jornal, dentre elas Thomas Mann (quando descobriu que o escritor alemão era filho de uma brasileira, uma sutil ironia que o tempo se encarregaria de revelar). Alguns anos mais tarde, de volta ao Brasil e já casado, Sérgio recebe uma carta de Anne contando sobre Sergio Ernst, o filho nascido do affair que tivera com ele. Chico Buarque só veio a saber da existência desse meio-irmão em 1967, aos 22 anos, quando o poeta Manuel Bandeira, na presença de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, referiu de maneira casual “aquele filho alemão de seu pai”. Pode-se imaginar o susto que tomou o rapaz.

Como se vê, o fato não era propriamente um segredo, mas tornou-se uma espécie de tabu familiar. Para satisfazer a inevitável curiosidade sobre o irmão, Chico não tinha a quem recorrer. Com o pai jamais conseguiu a aproximação necessária para que pudesse abordar o assunto. Com a mãe, fiel escudeira do pai e em quem a simples lembrança do caso poderia reacender alguma mágoa adormecida, o diálogo tampouco era possível. Passaram-se anos até que Chico Buarque decidisse escrever a história. Ou, mais importante do que isso, sobre o silêncio que envolvia tal história. Foi quando Chico descobriu entre os guardados de sua mãe uma correspondência do governo alemão dirigida a Sergio de Hollander indagando sobre os antepassados do pequeno Sergio Ernst. Os nazistas queriam confirmar a inexistência de sangue judeu na genealogia do menino, então sob a tutela do Estado, para que pudessem liberá-lo para a adoção. Se algo faltava para uma grande história, o quadro agora se completava com a descoberta dessa asquerosa inquisição nazista.

Especular aqui sobre o que é verídico e o que é ficção na história não terá a menor importância para o leitor. Ainda que haja um componente autobiográfico, o autor teve a preocupação de alterar algumas características dos personagens reais. O nome da família, por exemplo, muda de Hollanda para Hollander; Francisco vira professor de literatura; Sérgio pai é um bibliófilo que, diferentemente do historiador, passa a vida entre os livros sem conseguir produzir um único (outro candidato em potencial à galeria dos que sofrem da Síndrome de Bartleby, da genial concepção de Vila-Matas); e por aí vai. A mensagem é clara: a história pode até ser verídica, mas deve ser lida como ficção. Ou vice-versa, que talvez seja a atitude mais condizente a se assumir diante de qualquer obra literária.

A ação principal do romance também contrapõe realidade e fantasia, mas num plano diferente. Imagine-se a angústia do jovem Francisco, o Ciccio, ao descobrir já adulto que tem um irmão mais velho de outra nacionalidade, fruto de um caso de amor de seu sisudo pai, e que esse irmão esteve nas mãos dos nazistas aguardando um veredito para ser entregue à adoção. Separando os dois, a guerra, a derrocada do nazismo e, principalmente, o silêncio em torno do fato. O pai, fechado em copas e pijamas, vive para sua monumental biblioteca, que pouco a pouco vai tomando conta de todos os espaços ainda livres da casa, do banheiro à garagem. A mãe, uma italiana controladora e sanguínea, serve como cão de guarda e bibliotecária do marido. Ciccio tem o amor aos livros e à literatura para aproximá-lo do pai e compartilhar com ele sua magnífica história, mas tem também Mimmo, um irmão dele em tudo diferente. A maior diversão de Mimmo é jogar sua lábia donjuanesca para cima de mocinhas virgens com o único objetivo de lhes roubar a inocência. O problema é que esse rematado cafajeste, sem ter lido um único livro na vida, é o preferido do pai e priva com ele de uma intimidade que Ciccio sabe que jamais terá. Esgotadas assim as possibilidades de obter qualquer informação junto à família, só resta a Ciccio investigar por conta própria. No início, tudo o que dispõe se resume às duas cartas, a de Anne e a do governo alemão, escritas num idioma que não compreende. Sem ter nenhuma informação sobre o que teria acontecido com Anne e com o irmão, Ciccio imagina respostas, inventa pistas e sai correndo como um desvairado atrás delas. Quanto menos sabe, mais parece aumentar sua obsessão por saber. Na ânsia de descobrir a verdade, ele constrói sua história sobre meras elucubrações que não resistem ao menor confronto com a realidade. Ciccio vai com tanta determinação atrás de cada pista por ele mesmo criada que acaba convencendo o leitor e levando-o junto em sua fantasia: quem sabe não seja imaginação, mas intuição o que guia o protagonista; talvez em sua busca destrambelhada ele chegue à verdade e encontre finalmente o irmão.

Autoengano
Se em Budapeste o tema da incomunicabilidade era tratado como metáfora e em Leite derramado fantasia e realidade embaralhavam-se na memória senil do protagonista, em O irmão alemão esses dois elementos trabalham juntos para criar o efeito de uma atitude mental conhecida de qualquer pessoa: quando se quer muito saber sobre algo e não se tem a quem recorrer, uma solução absolutamente humana é imaginar respostas e até mesmo correr atrás de pistas criadas por nós mesmos. O autoengano é um dos motores do romance.

O cenário é a São Paulo de 1968, quando o Brasil vivia a ditadura militar, uma época nefasta cuja volta parece hoje ter virado objeto de desejo de uma parcela desmemoriada ou mal-intencionada de brasileiros. Começava então o período mais negro de nossa história recente, com a promulgação do famigerado AI-5 e a perseguição truculenta aos opositores do regime. Chico Buarque pisa nesse território minado de armadilhas ideológicas com a segurança insuspeita de um repórter que se atém a mostrar e prefere não comentar. E nem é preciso para que a realidade daquele tempo se mostre em toda sua crueza. O que move o protagonista é a busca pelo irmão, não a situação política nacional dos anos de chumbo, que toma um discreto, mas luxuoso, papel de pano de fundo da história.

Narrado em primeira pessoa por Francisco de Hollander, O irmão alemão insiste nos longos parágrafos que se tornaram marca registrada na prosa de Chico Buarque. A opção por esses blocos compactos mas convenientemente acomodados em páginas de margens maiores do que as convencionais não apresenta nenhum obstáculo para o leitor. Ao contrário, léxico e sintaxe estão a serviço de um discurso de rara fluidez e elegância, mesmo quando o registro desce, por necessário, ao francamente chulo. Dito noutras palavras, um texto que soa com admirável naturalidade da primeira à última linha.

Saramago anunciava, há treze anos, que algo de novo acontecia no Brasil com Budapeste, e ele com toda certeza não se enganou. O que o Nobel não viveu para testemunhar foi a consolidação de Chico Buarque como um dos mais importantes escritores brasileiros da atualidade. O irmão alemão e toda a fortuna crítica que a ele se seguiu, mesmo com alguma nota negativa, só comprovam que um romance com a assinatura de Chico Buarque jamais passará em brancas nuvens.

O irmão alemão
Chico Buarque
Companhia das Letras
240 págs.
Chico Buarque
Francisco Buarque de Hollanda nasceu no Rio de Janeiro, em 1944. Cantor e compositor, publicou as peças Roda Viva (1968), Gota d’água (1975) e Ópera do malandro (1979); a novela Fazenda Modelo (1974) e os romances Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003) e Leite Derramado (2009).
Luiz Paulo Faccioli

É escritor. Autor de Trocando em miúdos, Estudos das teclas pretas, entre outros.

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