Uma voz de Amaralina

Encontro virtual leva à descoberta de escritor baiano; troca de leituras revela prosa viva e irônica nascida à beira-mar de Amaralina
Ilustração: Marcelo Frazão
27/03/2026

Conheci o professor e escritor Emerson Borges em novembro de 2021, no finalzinho da pandemia. As livrarias atendiam em horários reduzidos, e muitas não faziam eventos presenciais. Planejei algumas lives no YouTube para divulgar Uma mulher sem ambição, que foi lançado naquele mês, e então recebi uma mensagem do Emerson pelo Instagram, dizendo que gostaria de assistir à live, se conseguisse um tempo livre, pois estaria “corrigindo redações num ritmo alucinante”.

Às vezes, recebo mensagens de pessoas que leram um livro meu, ou assistiram aos meus antigos vídeos sobre criação literária. São contatos eventuais, e costumo responder brevemente. No caso do Emerson, a troca de mensagens foi mais longa, pois ele assistiu à live e se ofereceu para dar algumas dicas, caso eu quisesse. Aceitei a gentileza. Não sou muito íntima das redes sociais, e achei útil ouvir o ponto de vista de alguém que acompanhava outros canais de literatura. Emerson me enviou sugestões úteis — por exemplo, numa live, “não abra para perguntas na primeira meia hora”. Ressaltou que eu deveria divulgar mais — “ficar 48h antes divulgando nos stories” — e tentei seguir as sugestões.

Fiquei, de fato, agradecida, e perguntei se ele queria um exemplar do livro de presente — eu poderia enviar pelo correio. Emerson respondeu em áudio: “Brincadeira isso, cara! Você me desconcertou agora”. Me passou o endereço no bairro de Amaralina, em Salvador. Ao receber o livro, me avisou: “Vou iniciar minha leitura assim que a quarta unidade de recuperação acabar, tá?”.

Duas semanas depois, já tinha lido, e se ofereceu para compartilhar algumas impressões. Respondi: “Pode ser totalmente honesto!”. Ele declarou: “Serei”. E enviou 28 minutos de mensagens em áudio, com comentários originais e agudos. Por exemplo, interpretou o nome da personagem, Mercedes, que “está sempre à mercê de algo”, depois refletiu: “Não sei se você percebeu… acho que sim, pois ninguém faz as coisas de maneira despropositada”. Bem, eu não tinha percebido, e a analogia me pareceu muito perspicaz.

Nos meses seguintes, trocamos mensagens sobre filmes brasileiros. Depois, ele me enviou uma foto por engano, que gostei de ter visto: a maresia alta na orla de Salvador, “bem parecido com neblina em cidade do interior”. Ele explicou que nunca tinha visto a orla assim — “é a chuva fora de época”.

Em 2023, Emerson publicou uma coletânea de contos no Wattpad, chamada São Jorge. Li e gostei muito. As histórias se amarravam, compondo um breve romance com vários pontos de vista. Enviei elogios e algumas percepções, ao que ele agradeceu: “Fico feliz em saber que não passo vergonha com esse livro”.

Finalmente, neste janeiro, Emerson me avisou de outra coletânea, chamada Outubro. Pedi que me mandasse em PDF, e foi novamente uma boa surpresa. Vejam o frescor da abertura do conto Zoom lógico:

— Oxe! De novo reunião pucardis…

— Sim, purcardisso! De novo reunião purcardisso! É isso aí. Sim, de novo, reunião purcardisso! É isso aí mesmo e, oh Jonata. Sim, é isso aí, vai ter outra reunião purcardisso de novo.

O conto narra um almoço familiar ao sábado. O pai dá um sermão no filho já grande, que fica no sofá jogando Resident Evil, enquanto a irmã volta à noite da escola técnica, e ninguém pra buscá-la no ponto de ônibus. Outro problema: a cachorra escapa pelo portão e ameaça morder alguém. E o campeão, sentado no sofá, diz que “não viu nem ouviu nada”. A braveza do velho é um desabafo grandioso, uma performance, nessa família que não vai mudar em nada. Todos só querem que o sermão acabe, para voltarem à paz. Quem encerra a história é a cachorra, ao fazer xixi na sala. Todos se reúnem na urgência da limpeza — “a água cândida que a família precisava”.

É um livro de histórias entrecruzadas, formando o retrato de uma comunidade. Há o menino Jeanderson, apelidado Raul em homenagem a Raudinei, jogador do Bahia… e seu amigo Jorge Levi, que a professora quer fantasiar de cavaleiro para uma atividade na escola… Mas o que sabe essa professora, achando que faz arte (!), e não conhece patavinas da fofoca na favela.

O conto Outubro dá título à coletânea. Traz um fluxo de consciência da mãe de Jorge Levi, com observações sábias e ácidas:

Coisas que só uma péssima mãe permite: desdizer o que foi dito. (…)

Coisas que só uma péssima mãe permite: achar que dois erros dão um acerto. (…)

Coisas que só uma péssima mãe permite: deixar filho fazer função de pai.

Se as redes sociais servem para alguma coisa — YouTube, Instagram, Wattpad — que seja para nos trazer vozes assim. Surpreendentes como a chuva na orla de Amaralina.

Sabina Anzuategui

É autora de Escrevi pra você hoje (2023), Uma mulher sem ambição (2021), Luciana e as mulheres (2019), O afeto (2011) e Calcinha no varal (2005). É bisneta de Marciano. Ama os cachorros platonicamente.

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