Os amores de Dorothy Allison

Memória, desejo e literatura se cruzam na leitura das crônicas de uma autora que fez da origem pobre matéria de pensamento e paixão
Dorothy Allison, autora de “Skin: talking about sex, class & literature”
27/02/2026

Faz duas horas que estou entre livros antigos, tentando organizar ideias para esta crônica. Me emocionei com umas páginas, mas as ideias não se organizaram. Foi às nove da manhã que entrei nessa viagem de lembranças, depois de lavar o cabelo e trocar de brincos. Olhando no espelho, lembrei de uma frase de Dorothy Allison: “Estou na minha fase femme”. Seria um bom tema para escrever! Achei que seria fácil; porém, me embananei, achando que precisava explicar um tanto de contexto para leitores que não são lésbicas. E estou aqui, cheia de emoções vagas e nenhum gancho para começar.

Dorothy Allison — vejo, agora, na internet — morreu em 2024, aos 75 anos. Foi uma escritora americana, nascida no sul pobre dos EUA. A Wikipédia brasileira aponta que era “ativa nas comunidades feministas” e “identificava-se como uma lésbica femme”. Clicando nos links, lemos que femme é um termo usado na subcultura lésbica e sáfica, que define o comportamento e a autopercepção “feminina”, em complemento ao termo butch (“caminhoneira” ou desfeminilizada). Pronto. Se eu tivesse logo consultado a Wikipédia, não estaria agora atrasada, precisando resolver esta crônica antes do almoço, e preocupada com o horário apertado para preparar minhas aulas à tarde.

Se fui buscar informações na estante, em vez de na internet, não me arrependo. O tempo solto em velhas leituras é um prazer — irresponsável, admito, como são os prazeres. Encomendei as crônicas de Dorothy — a coletânea Skin: talking about sex, class & literature — em meados dos anos 2000, quando o dólar era barato e a Amazon cobrava pouco pelo frete (quanta alegria, naquela época! — inocentes, não imaginávamos o que a Amazon se tornaria).

Quando o livro chegou, li com avidez. Esganada, fui devorando as histórias, e mal aproveitei a leveza da prosa da autora. É incrível como Dorothy articula desigualdade social, desejo (homo)sexual, e amor pela literatura. Logo no prefácio, ela se define como branca pobre (white trash) e, a partir da origem na Carolina do Sul, vai contando como conseguiu se tornar uma intelectual independente, o que era improvável em sua família. Conta também da surpresa dos bem-nascidos que ela conheceu na universidade, ao descobrirem de onde ela viera. Descreve o espanto de uma namorada, ao visitar, pela primeira vez, a casa da família: “Eu não sei o que dizer…”, a namorada gaguejou, envergonhada. “Pensei que entendia a expressão ‘classe trabalhadora’, mas não tinha a menor ideia.”

Sair da pobreza para a classe média é um tema que me comove. Lamentar as dificuldades dos brancos pobres é um alívio que desfrutamos na literatura estrangeira. Porque, no Brasil, com as estruturas coloniais resistentes, e a eugenia… Com os imigrantes dos 1900 que ficaram do lado dos proprietários de terras… Bem, não há muito espaço, aqui, para as lágrimas do lixo branco.

Mas a crônica Femme não fala só de pobreza. Fala também do temor de ser uma menina lésbica, no início dos anos 1960, antes da segunda onda do feminismo. E do desejo de uma pré-adolescente na Carolina do Sul, da necessidade de amar uma mulher. “Sua mão destemida na minha mão” — ela escreve — “Seu olhar castanho e caloroso e confiável”. Dorothy, descanse em paz. Obrigada por nos deixar suas frases lindas:

A ânsia por uma mulher é insistente e indispensável; facilmente rejeitada, porém nunca plenamente renegada… Quando nos encontrávamos, uma à outra, realizávamos milagres — milagres de esperança e coragem e amor.

Sabina Anzuategui

É autora de Escrevi pra você hoje (2023), Uma mulher sem ambição (2021), Luciana e as mulheres (2019), O afeto (2011) e Calcinha no varal (2005). É bisneta de Marciano. Ama os cachorros platonicamente.

Rascunho