O primeiro leitor

Entre as memórias de Luiz Schwarcz e a experiência compartilhada com Jean-Claude Bernardet, a literatura surge como afeto, projeto comum e força para continuar vivendo
Jean-Claude Bernardet e Luiz Schwarcz
26/12/2025

Estou encantada com O primeiro leitor, memórias do editor Luiz Schwarcz, que recomendo muitíssimo. Tenho, na minha estante, uma prateleira de livros que me construíram. São aqueles que, ao longo da vida, transformaram minha visão, me fizeram compreender o que antes era indistinto. Vários são da Companhia das Letras: Emmanuel Bove, Italo Calvino, Elizabeth Bishop, Marianne Moore… E Peter Handke, na editora Brasiliense, onde Schwarcz começou como editor. As memórias dele reavivam minhas leituras, agora vistas pelos bastidores. Se faltou algum presente de Natal, sugiro calorosamente O primeiro leitor aos apaixonados por livros. E, como este texto não é uma seção de recomendações, conto também uma historinha:

Em janeiro do ano passado, Jean-Claude Bernardet e eu terminamos Viver o medo. Fazia dois anos e tanto que nos encontrávamos toda semana para escrever juntos. Amigos que iam visitá-lo, nos outros dias, diziam como as sessões de escrita eram importantes para ele. Aos 89 anos, ouvindo mal, enxergando pouquíssimo, sem força física para sair de casa… As visitas eram sua vida social. E a escrita — além dos curtas-metragens, com Fábio Rogério — era a atividade produtiva que lhe dava ânimo para viver.

“As relações de afeto”, ele disse, “é o que conta nesses dias”. Estava implícito o sofrimento dessa vida esticada, quando continuamos dormindo e acordando, mesmo que nosso corpo já não traga prazer quase nenhum.

Buscar ânimo para continuar vivendo não era um problema novo. Não era apenas decorrência da velhice. Deprimidos e angustiados (todos nós?), sabemos disso. Na energia informe da infância, começamos a vida aos trancos… Mas um dia erode enorme esse vazio: a sensação de não ter energia para nada; força nenhuma para qualquer passo adiante.

Foi na Veja que li pela primeira vez sobre depressão. Uma lista de sintomas, e percebi: estou assim. Levei mais de dez anos para me estruturar e construir um “eu” que ficasse em pé e seguisse em frente. Dois psiquiatras, quatro psicólogas, uns seis ou sete remédios, até descobrir o que funcionava para mim. Uma das lições é que usar nosso tempo só para dinheiro-casa-comida não traz motivação suficiente para viver. Precisamos criar um objetivo que nos sustente, a cenoura pendurada na vara, o petisco que mantém o burro andando.

Sentada em frente ao Jean-Claude, uma vez por semana, eu sabia muito bem por que estávamos ali. Minha cenoura é a literatura. Dividíamos a cenoura em dois.

Então, quando acabamos Viver o medo, precisávamos de outro projeto de livro. Outro petisco a nos puxar por mais um ano. Sugeri escrevermos sobre o meio literário — experiências atrapalhadas com editoras, angústias da publicação —, pois era uma experiência que compartilhávamos.

Começamos a criar as novas cenas, no fluxo aleatório da inspiração. Foi uma feliz coincidência que Luiz Schwarcz lançasse, então, O primeiro leitor. De suas memórias, podemos emprestar outras experiências para completar nosso livro.

Assim acaba esta historinha. Fica a recomendação de leitura e… feliz ano novo!

Sabina Anzuategui

É autora de Escrevi pra você hoje (2023), Uma mulher sem ambição (2021), Luciana e as mulheres (2019), O afeto (2011) e Calcinha no varal (2005). É bisneta de Marciano. Ama os cachorros platonicamente.

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